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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Transformar o trabalho em jogo, para melhor alienar [ou "Trabalhando na era Uber"]

Tradução da coluna de Xavier de La Porte em 1º de maio de 2017

Se a festa do trabalho acontece em 1º de maio, é por causa dos movimentos operários que aconteceram nos Estados Unidos em 1884. Talvez seja nos Estados Unidos que se deva buscar as novas formas de alienação... E no Uber em particular. Porque se o termo de uberização já passou para a língua designando essa economia de plataformas que põe em contato direto clientes e trabalhadores independentes, será sem dúvida necessário acrescentar à palavra um conteúdo suplementar. Pelo menos é a isso que nos incita uma fascinante investigação publicada no mês passado pelo New York Times.

Uma investigação que nos mostra que a Uber, enfrentando uma crescente contestação de seus motoristas, decidiu utilizar as ciências comportamentais para reformar a relação entre a plataforma e as pessoas que trabalham para ela. O problema do Uber é que seus motoristas são trabalhadores independentes. Isso permite aliviar consideravelmente os custos da empresa, mas há uma preocupação: esses trabalhadores trabalham onde querem, quando querem. Logo, não necessariamente onde a Uber gostaria, no momento em que a Uber gostaria (ora, o sucesso do Uber repousa sobre o fato de que o cliente espera o menos possível, especialmente nas horas de pico). Como fazer para controlar trabalhadores livres, para incitá-los a trabalhar no interesse da empresa, e às vezes contra seu próprio interesse? É a problemática da Uber. Durante muito tempo, para levar os motoristas aos locais de afluência nos momentos de pico, Uber o fazia à moda antiga, enviando e-mails e sms, alguns gerentes utilizavam até um pseudônimo feminino para incitar os motoristas, que são frequentemente homens. Funcionava razoavelmente, mas era artesanal e os motoristas suportavam mal as notificações amontoadas. A empresa logo buscou especialistas em ciências sociais e analistas de dados que recorreram a todo tipo de técnicas muito mais eficazes.

Por exemplo, encorajamentos quando um patamar é atingido. Quando eles fazem logoff da aplicação em uma hora em que Uber preferiria que eles continuassem a trabalhar, os motoristas vêem aparecer mensagens como: "Mais uma corrida e você atinge 300 dólares!" É um sistema que se chama "ciclo lúdico" ["boucle ludique", "ludic cycle"] (que incita a lançar uma partida a mais para tentar ir um pouco mais longe que na anterior). Uber então enche sua interface de pequenos sinais de dólares, esquemas, insígnias ["badges"] a ganhar (um pequeno Groucho Marx para os motoristas mais engraçados...). É, efetivamente, o que se chama gamificação. O fenômeno não é novo nas empresas, mas Uber o leva ao extremo. E funciona. Os próprios motoristas o dizem: essas formas de retribuição que não custam nada à empresa lhe permitem induzir os motoristas a fazer o que é bom para ela, e não necessariamente para eles.

Para que os condutores fiquem todo o tempo ocupados, e trabalhem nas horas em que Uber tem mais necessidade deles, a empresa usa também o mesmo sistema que Netflix, que abre uma janela para ver o episódio seguinte assim que termina o anterior. Pois bem, a Uber preparou um algoritmo que envia ao motorista sua próxima corrida, antes que ele tenha terminado a precedente. Tudo isso é maravilhosamente não-coercitivo. Obviamente, a Uber introduziu um botão de pausa para que os motoristas possam ao menos parar para ir ao banheiro ou reabastecer combustível, e pretende atualmente desenvolver um função que permita aos motoristas dizer onde eles preferem terminar sua última corrida - perto de casa ou da escola onde eles deverão buscar os filhos. Nesse sentido, a tecnologia pode ser boa. Por outro lado, Uber também adquire inúmeros dados sobre a conduta de seus motoristas, e no futuro poderia personalizar ainda mais as recompensas. Além disso, Uber está cada vez menos sozinho em usar esses métodos para controlar os trabalhadores (sua concorrente Lyft faz mais ou menos a mesma coisa). Também aumenta o número de plataformas que recorrem a trabalhadores independentes, sem que os direitos desses trabalhadores - e as possibilidades que lhes são dadas de se defender - aumentem. O que faz o jornal americano dizer uma coisa terrível: "Não estamos longe de voltar à época que precedia o New Deal (....os anos 30...) em que as empresas tinham poder quase total sobre os empregados, e eles quase nenhum meio de defesa". Excetuando que isso não se passa numa fábrica e no suor, mas em um carro de passeio diante de uma tela que exibe aquilo que parece um jogo.

Aí está! Boa festa do trabalho!

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