sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Do perdão aos tiranos: Sobre Garotinho, Cabral e Napoleão III

Napoleão III foi um dos maiores tiranos dos últimos séculos. Matou milhares de pessoas apenas em 1851, para se tornar imperador.

Seu maior rival foi Victor Hugo, que do exílio lançou-lhe terríveis invectivas em verso e prosa. O grande poeta jurou que só poria os pés de volta no solo francês quando o tirano fosse embora.

Depois de duas décadas no poder e da terrível Guerra Franco-Prussiana, Napoleão III fugiu sorrateiramente da França, temeroso da revolta popular. Victor Hugo retornou imediatamente à terra que tanto amava, ovacionado em Paris menos de 48 horas após a fuga do tirano.

Muitas vozes indignadas se ergueram, exigindo a punição máxima. Napoleão III deveria ser caçado, trazido de volta à França e decapitado em praça pública, como criminoso que era.

Hugo, poeta e exilado fez um apelo ao povo francês: que não sujasse as mãos com o sangue do déspota. Que a França não se rebaixasse à vileza do mesquinho imperador. Que Napoleão III arrastasse a vergonha pelo resto de sua vida miserável. Já era punição suficiente.

Os argumentos do poeta acabaram prevalecendo.

Garotinho e Sérgio Cabral são pessoas vis. Colheram o que plantaram e agora devem ser punidos com todo o rigor da lei. E isso basta. Não nos rebaixemos ao mesmo nível que eles.

Não precisamos tripudiar deles e de suas famílias, embora saibamos bem que eles não fariam o mesmo em nosso lugar. Não precisamos linchá-los moralmente em nossas conversas ou nas redes sociais.

Não desçamos ao lodaçal onde eles se arrastam e nem mergulhemos nossa consciência em suas torpezas. Que eles sofram a vergonha de seus atos, mas poupemos nossos corações do veneno que exala de suas pessoas.

É muito cômodo tomar os governantes como bodes expiatórios de nossos problemas sociais, mas devemos questionar nosso próprio papel como cidadãos ao longo de seus respectivos mandatos. Fomos cidadãos vigilantes ou omissos? Cobramos deles sempre que deveríamos? Nos mobilizamos quanto podíamos? Fizemos nossa parte ou lavamos nossas mãos? Criticamos ou fechamos os olhos para os vergonhosos pactos que os políticos e partidos que elegemos fizeram com os dois ex-governadores? Justificamos esses pactos em alguma medida?

Enfim, estamos contentes com o cumprimento da justiça ou nos sentimos meramente aliviados do peso de nossas omissões?

Cada um investigue sua consciência e procure suas respostas...

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