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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Amor, ódio e democracia

Amigos, não cedamos ao rancor. Crivella fez uma campanha movida pelo ódio. Não nos deixemos contaminar e envenenar por esse mesmo ódio. Já perdemos uma eleição; não percamos também o amor e a razão...

O ódio venceu a eleição; não deixemos que conquiste nossos corações. O amor é nossa única linha de resistência!

domingo, 30 de outubro de 2016

Na ascensão de Crivella

Ao que tudo indica, a desinformação, o medo e a acomodação fizeram sua parte. Sou um pessimista esperançoso, mas nesse exato momento o pessimismo leva a melhor...
***
O povo do Rio, essa gente trabalhadora e sofrida, merecia um prefeito como o Freixo. Infelizmente, essa gente trabalhadora e sofrida também não tem a Educação que merece, e por isso escolheu um prefeito como o Crivella. E toda escolha tem seu preço...
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O "povo lá de trás" elegeu o prefeito que vai "cuidar" da "vitrine". Que venham as migalhas...
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"Uhu! Crivella! Ô 'bença'! Ô glória" - Gritos de uma vizinha aqui na Abolição. O "povo lá de trás" está contente...
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Crivella ganhou e todos os cidadãos do Rio perderam. É o milagre da multiplicação dos derrotados...
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Maus eleitores. Maus vencedores. Maus cristãos.
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Afinal de contas, o Crivella tem eleitorado ou torcida? Tivemos eleição ou final de campeonato?

Reflexões passageiras sobre socialismo, capitalismo e democracia

Resposta rápida a alguns questionamentos no Facebook:

Para início de conversa, você sabe mesmo o que é socialismo? Sou um socialista muito heterodoxo. Para mim, a democracia vem sempre antes do socialismo. Vejo o socialismo como um conjunto de valores, e não como uma ideologia e, muito menos, um "pacote ideológico" completo. Não acredito em economia planificada, por exemplo - mas também não acho que uma economia de mercado absolutamente desregulada seja boa para ninguém (exceto, talvez, os ricos). Não defendo o socialismo como um "regime político". Costumo, inclusive, brincar: meu cérebro é socialista, meu coração é anarquista, meu estômago é capitalista - e afinal de contas, ninguém vive sem cérebro, coração ou estômago. Para resumir muito minha visão de mundo, creio que o ideal seria termos um mercado forte, um estado mais forte e uma sociedade civil SUPERFORTE, vigiando o Estado e o mercado. Não acredito num estado cuidador (ao contrário do Crivella, por exemplo). Pelo contrário, evoco sempre a sabedoria de Juvenal: "Quem vigia os vigilantes?". Também gosto muito daquele pensamento anônimo, normalmente atribuído a Jefferson: "O preço da liberdade é a eterna vigilância". O Estado e o mercado podem (e costumam) se tornar vorazes, e precisam ser cuidadosamente controlados pela sociedade. Concluindo, posso te dizer alguns sentidos em que o socialismo deu muito certo: agradeça aos socialistas, anarquistas, trabalhistas etc do passado por algumas conquistas históricas importantes, como 13º salário, férias remuneradas, previdência social/aposentadoria, licença médica (e outras licenças), escola pública (uma invenção "jacobina"), entre outras coisas que certamente te beneficiam. O capitalismo e o liberalismo seriam insuportáveis se não tivessem incorporado, historicamente, inúmeras demandas vindas do campo da "esquerda". Quanto aos impostos, eles são sempre necessários - a não ser que você prefira viver numa sociedade anarquista, o que deve ser legal pra caramba. O que é extremamente necessário - e não acontece aqui no Brasil - é uma distribuição mais justa e proporcional da carga tributária. A classe média é a mais achatada pelos impostos diretos e indiretos. Por sinal, uma das principais pautas da campanha presidencial de Luciana Genro em 2014 era a reforma tributária.

Carta aberta a Marcelo Freixo e Luciana Boiteux

Caros Marcelo e Luciana,

serei muito breve.  Não sou militante do PSOL, mas apostei em vocês. Desconfio de qualquer liderança, mas apostei em vocês. Lutamos juntos. Acreditávamos que seria possível uma cidade onde os CO-PREFEITOS governassem COM o povo e não "cuidassem" do povo. Infelizmente, ainda nos falta a cultura política necessária para escolher coletivamente esse outro modelo de democracia.

Nossa campanha foi linda. Um grito de alegria, esperança e amor em meio às trevas que ameaçam o Brasil. Um sonho lindo enquanto durou. Mas a verdade é que o sonho não acabou. Ele dura e ainda durará.

Para mim, nos últimos anos, a cidade do Rio de Janeiro tem sido palco de muitas lutas e derrotas. Derrota nas eleições de 2012. Derrota nas greves da Educação municipal de 2013. Derrota na greve da FAETEC de 2013. Duríssima derrota na greve da Educação municipal de 2014, com sangrento corte de ponto. Derrota ainda na greve da FAETEC de 2016.

Derrota agora nas eleições municipais de 2016. Digo, todavia, uma coisa: nenhuma derrota foi tão linda quanto esta. Esse segundo turno é derrota, sim, mas tem sabor de vitória. Vitória contra a intolerância, o ódio, a mentira, a agressão. Vencemos Pedro Paulo, Bolsonaro, Osório, Índio.

As urnas mostraram que metade do povo carioca tem medo de mudar. No entanto, também mostraram que outra metade tem esperança de que mudar é possível. Nesse segundo turno, muita gente descobriu que O RIO TEM OPÇÃO. Fiz parte dessa história, e me orgulho muito disso.

Reza a lenda que também Jesus - que o outro candidato cita, mas desconhece - foi crucificado e se ergueu de volta em três dias. Como cristão e pecador que sou, sei que a virtude da esperança brilha mais intensamente nas trevas mais sombrias.

Continuamos juntos. Enquanto vocês permanecerem fiéis aos princípios que guiaram essa campanha eleitoral, estarei ao seu lado. Sigamos em frente. Sequemos as lágrimas, pois quatro anos de luta se avizinham. Nos últimos meses fechamos com Freixo e Luciana. Nos próximos anos, tenho certeza, vocês fecharão com o povo - especialmente com o "povo lá de trás", que o candidato de fala mansa beija e apunhala a um só tempo. Conto com Freixo e com Luciana. Conto com Tarcísio (meu vereador), Marielle, Renato, Paulo, Leonel e David. Estou aqui. Contem também comigo.

Carinhosamente,
Luiz Fabiano Tavares
Professor, historiador, socialista, cristão, espírita e CARIOCA

P.S: Uh, é o Freixo!


Carta aberta a TODOS os eleitores cariocas

Caro cidadão,

as eleições acabaram. Estamos todos no mesmo barco pelos próximos quatro anos. Respeito a decisão de cada um de vocês, embora a vitória de Marcelo Crivella me leve às lágrimas.

Em primeiro lugar, me dirijo aos eleitores de Crivella. Vocês não são meus inimigos. A partir de amanhã seguimos nossa vida em comum. JUNTOS. Seu candidato prometeu que ia "cuidar" de nós. Vocês acreditaram nessa proposta e votaram nela. Ao votar em Crivella, vocês assumiram uma responsabilidade por todos nós. Vocês deram a ele seu voto de confiança. É seu DIREITO. Mas vocês assumiram também um DEVER para os próximos quatro anos - um dever perante todos os habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Antes de qualquer outro cidadão, vocês têm o dever de vigiar, fiscalizar e cobrar de Crivella. Vocês devem criticar tudo aquilo que for condenável em seu governo. Conto com vocês.

Me dirijo ainda aos eleitores que votaram branco, nulo ou não compareceram às urnas. Vocês se abstiveram de escolher, o que é legítimo. Também é seu direito. Mas lembro também, que como qualquer outro cidadão, vocês têm o DEVER de cobrar do prefeito eleito.

Finalmente, falo aos eleitores de Freixo e Luciana. Nós fizemos o possível. Lutamos. Na rua. Na rede. Na raça. Lutamos com amor, alegria, esperança. Perdemos. É hora de seguir em frente. Durante os próximos anos exigiremos MUITO de Crivella. Vigiaremos. Criticaremos. Cobraremos. Protestaremos. Na rua. Na rede. Na raça.

Somos irmãos. TODOS. Irmãos cariocas.

Grande abraço,
Luiz Fabiano Tavares
Professor, historiador, socialista, cristão, espírita e CARIOCA


Carta aberta ao prefeito eleito Marcelo Crivella

Caro BISPO Marcelo Crivella,

Infelizmente o senhor foi eleito. Pedro Paulo era a pior opção nessa eleição, e o senhor, a segunda pior. A decisão democrática da maioria deve ser respeitada, mas pode ser lamentada. E eu lamento profundamente.

Por um desses paradoxos brasileiros, o senhor foi eleito pelo "povo lá de trás" para "cuidar" da "vitrine". Foi eleito através de uma campanha eleitoral pavorosa, marcada por boatos anônimos divulgados nas redes sociais, espalhados por difamadores sem nome e sem rosto. Uma campanha escorada nos apoios mais lamentáveis, que me recuso até a mencionar. Uma campanha baseada num programa minúsculo, mal explicado, quase encabulado. Uma campanha marcada pela fuga desesperada de debates, entrevistas e sabatinas - uma campanha que se recusou a prestar esclarecimentos à população.

A população elegeu o pastor de duas caras, fala mansa, coração repleto de veneno e sorriso milionário. Seus eleitores escolheram um sepulcro caiado. Um falso profeta. Um fariseu. Respeito profundamente essa população. E choro. Choro por mim, e choro ainda mais pelos seus eleitores, que compraram gato por lebre. E ouso lembrar-lhe, bispo, o ensinamento do Rabi galileu: Ai daquele que escandaliza os pequeninos!

O senhor foi eleito. É triste, mas é a realidade. Aceito, porque sou fiel à democracia, antes e acima de tudo.

Mas quero deixar um aviso: sou Zona Norte. Sou do "povo lá de trás". Sou professor. Sou historiador. Sou cristão. Sou espírita. Fechei com Freixo. Doei dinheiro. Doei tempo. Doei esforço. E não me arrependo. Perco essa eleição com a consciência tranquila, pois fiz o possível e o impossível.

Hoje é apenas o começo de quatro longos e tristes anos. Estaremos vigilantes. Cobraremos. Nós somos muitos. Somos MILHÕES.

Quase respeitosamente,
Luiz Fabiano Tavares

sábado, 29 de outubro de 2016

Quem ganhou o debate da Globo? (Crivella x Freixo, 28/10/2016)

Um debate que tinha tudo para ser espetacular, mas foi fraquíssimo. Analiso a seguir as estratégias de oratória adotadas pelos dois candidatos, e seus impactos possíveis nas urnas.



Marcelo Freixo
Infelizmente, Freixo não foi muito feliz no plano estratégico, ou seja, no arranjo de sua participação no conjunto do debate. Também falhou no plano tático, escolhendo mal suas intervenções no primeiro e no último bloco.

Freixo atacou demais. Obviamente era necessário cobrar de Crivella explicações e esclarecimentos sobre as graves acusações que pesam sobre sua pessoa e sua candidatura. O cidadão carioca merece saber quem é realmente Marcelo Crivella. Infelizmente, para muitos eleitores, pareceu sujeira e baixaria. Apenas no último bloco Freixo expressou com clareza não estava acusando Crivella, apenas fazendo perguntas e pedindo esclarecimentos. Acho que foi muito tarde: a essa altura, muitos eleitores já deviam ter desligado a TV. Outros já deviam estar muito irritados com a impressão inicialmente causada. Pior ainda, o bispo sabe aproveitar muito bem esse tipo de ataque, fazendo seu costumeiro papel de santinho injustiçado, que convence muitos eleitores desavisados.

Como sempre, Freixo foi impecável em sua argumentação. Freixo é um candidato sensato: suas falas costumam destoar da "estética da indignação" e do estereótipo de "esquerdista raivoso", mas ele não conseguiu passar essa imagem no debate. Queria ter visto mais o Freixo alegre, simpático e sereno dos encontros e comícios. Freixo deveria talvez ter concentrado suas forças na discussão de propostas, uma vez que o programa de Crivella é fraquíssimo: 50 propostas (mal) explicadas em 8 páginas. Freixo deveria ter batido NO PROGRAMA do adversário, mas preferiu bater no bispo. Seria fácil para ele desmantelar as ralas propostas de Crivella.

Por fim, Freixo entrou no debate com a faca nos dentes. Atacou o adversário desde a primeira pergunta, sobre as mulheres. Por sinal, como apontou um amigo evangélico, a pergunta foi muito mal elaborada. Qualquer pastor minimamente preparado saberia se desvencilhar da questão de modo convincente para muitos eleitores - o que Crivella conseguiu fazer. A pergunta ficava numa zona cinzenta entre política e religião, e o bispo transita muito bem por essa zona cinzenta. Há também aí certo despreparo. Dado o panorama desse segundo turno, Freixo precisaria ter se preparado melhor junto a especialistas em religião. A questão emergiria naturalmente, e Crivella sabe usar bem de noções do senso comum que ocultam a intolerância e o fanatismo de seu campo. Há muitas reflexões oportunas no campo do ecumenismo e do diálogo interreligioso, das quais Freixo poderia se apropriar com proveito. A campanha de Freixo foi muito bonita nessa área, reunindo representantes de inúmeras crenças em defesa da pluralidade, do convívio e da tolerância, mas não soube aproveitar todo o potencial desse trunfo. A mistura entre política e religião é o calcanhar de Aquiles de Crivella, mas acho que Freixo abordou esse ponto fraco por um ângulo pouco produtivo.

Começar atacando também é um erro crasso de oratória. Qualquer bom orador sabe que no começo de um debate é necessário captar a benevolência do auditório. Na minha opinião, Freixo deveria ter iniciado com alguma questão menos polêmica, no campo das propostas. Em seguida, aproveitaria as oportunidades de bater em Crivella conforme elas aparecessem espontaneamente no curso do debate. Por fim, deixaria o ataque frontal para o terceiro bloco. Apenas quando já tivesse angariado a simpatia do público partiria para o confronto, tendo uma posição mais confortável para a ofensiva.

Marcelo Crivella
O bispo estava visivelmente desconfortável. Não me recordo de tê-lo visto tão nervoso em qualquer outra ocasião. A tensão de Crivella transparecia em sua linguagem corporal e expressões faciais: movimentos impacientes dos pés, pancadinhas nervosas com as mãos sobre o púlpito, rigidez no maxilar. Não chegou a gaguejar como aconteceu no debate da Rede TV, mas sua fala apresentou inúmeros descarrilamentos de raciocínio que não lhe são habituais.

Forte nas pesquisas, Crivella adotou nitidamente uma postura defensiva, numa estratégia de redução de danos. No debate da Rede TV o bispo chegara a perder o controle, xingando o adversário de modo pouco sutil: "Eu poderia chamar o senhor de canalha, safado, vagabundo... mas não vou chamar". No mesmo debate recorreu ao ineficiente artifício de repetir 4 ou 5 vezes que não governaria com Garotinho - algumas pessoas consideraram ridículo e até infantil.

Dessa vez, Crivella não veio disposto a ganhar votos, apenas a perder o mínimo possível. Por isso mesmo, evitou sistematicamente ataques contra Freixo. Quando atacado, preferiu a evasiva. Não mostrava a MÍNIMA preocupação em apresentar argumentos convincentes às incômodas perguntas do adversário. Crivella sabia que não haveria argumentos convincentes, então persistiu em fazer o papel de vítima caluniada. Por vezes debochava desses questionamentos com piadinhas pouco agressivas, quase "inocentes": "Acho que o Freixo quer virar meu biógrafo" e que tais. Calculo mesmo que essas piadinhas, pouco contextualizadas no debate, já estavam ensaiadas de antemão: o bispo só teve o trabalho de encaixá-las quando julgou oportuno. Vale salientar que Freixo usou, com muita eficiência, outro tipo de humor: mordaz, ácido, satírico. "Zorra Total" contra "Porta dos Fundos"...

Por outro lado, a imagem de bom moço foi reforçada com estratégias típicas de oratória rasteira: elogios rasgados ao adversário, demonstrações exageradas (e falsas) de simpatia. Repetiu ad nauseam que Freixo baixava o nível do debate, enquanto ele levantava. Outra técnica rasteira, usada por qualquer bom vendedor, martelando uma ideia na cabeça dos espectadores pela mera repetição.

Afinal, quem ganhou o debate?
Qualquer orador de bom senso sabe que é impossível "ganhar" um debate: os eleitores fanáticos de Crivella devem ter achado que ele venceu, enquanto os eleitores militantes de Freixo também devem ter achado que foi ele o vencedor.

Assim sendo, cabe destacar que Freixo tinha, nitidamente, os melhores argumentos: coerentes, coesos, consistentes. Por outro lado, Crivella foi muito bem sucedido em manter as aparências. E, infelizmente, muitos eleitores prestam mais atenção às aparências que aos argumentos.

Cada um dos candidatos chegou a esse debate com objetivos distintos. Crivella queria minimizar a perda de votos, para conservar uma margem suficiente para a vitória. Freixo, por sua vez, queria tirar votos do bispo (mesmo que por anulação) e convencer eleitores indecisos a sair do nulo para o 50. Creio que Crivella agiu de modo eficiente para alcançar seu objetivo. Freixo, pelo contrário, talvez tenha tirado muitos votos de Crivella, mas não sei se conseguiu conquistar muitos indecisos.

Quem "ganhou" o debate? Somente as urnas dirão...

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

3 momentos emocionantes da panfletagem


1) Na Cinelândia, um senhor de aparência bem humilde, aparentando pela fala baixo grau de instrução, veio dizer que é evangélico, mas votará em Freixo, porque não tem preconceitos.

2) Na passarela do metrô Del Castilho, uma senhora bem simpática pegou um panfleto do Freixo e me falou ao ouvido, rindo: "Não conta pra ninguém que sou da Universal!"

3) Um senhor muito simpático, trajado no melhor "estilo crente", pegou um panfleto do Freixo, com toda simpatia: "Vou votar no Crivella, mas também gosto quando as pessoas pegam os meus panfletos!"

A tolerância, o respeito, o diálogo e a compreensão podem ser 10 ou 50!

Dossiê: Crivella, Freixo ou Nulo?

A seleção de textos abaixo apresenta textos que me parecem úteis para decidir o voto nesse 2º turno de 2016. Obviamente são apenas as minhas opiniões, mas espero que sejam úteis a todos!


A viúva de Amarildo...?

Temos traumas tão grandes com políticos que, confesso, as notícias recentes sobre a viúva de Amarildo abalaram minha confiança. Resolvi pesquisar sobre o caso e cheguei a algumas conclusões.

1) Ainda não vi os tais vídeos, e não sei o que falam.

2) A viúva de Amarildo defendeu publicamente o Freixo. Se agora vier a público fazer acusações, suas palavras estarão em contradição. Testemunhos contraditórios são pouco confiáveis.

3) Por outro lado, o projeto "Somos todos Amarildos" contou com a participação de artistas conhecidos, como Marisa Monte, professores universitários reconhecidos e até do desembargador Siro Darlan. Não acredito que todas essas pessoas seriam coniventes com um esquema corrupto. Fica o testemunho dessas pessoas contra um testemunho contraditório e pouco confiável.
 

4) Nunca botei a mão no fogo por Freixo, mas sigo acreditando no projeto de cidade proposto por sua candidatura. E é por essas propostas que continuarei nas ruas panfletando!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Crivella e a "resposta das urnas"

-Quem quebrou essa vidraça?
-Meus eleitores responderão nas urnas, Mamãe!
***
-Que marca de batom é essa?!
-Meus eleitores responderão nas urnas, querida...
***
-Você pegou o dinheiro do caixa?
-Meus eleitores responderão nas urnas, chefe...
***
-Quem fez esse cocô no tapete da sala?
-Au au au! (Tradução: "Meus eleitores responderão nas urnas...").
***
-Você me ama de verdade?
-Meus eleitores responderão nas urnas...
***
-Por que suas respostas da prova estão iguais às do Juquinha?
-Meus eleitores responderão nas urnas, profe...
***
-Isso são horas de chegar em casa?!
-Meus eleitores responderão nas urnas, papai...
***
-Você gostou do presente?
-Meus eleitores responderão nas urnas...
***
-Já fez a lição de casa?
-Meus eleitores responderão nas urnas...
***
-Também foi sua primeira vez?
-Meus eleitores responderão nas urnas...
***
-Por que o senhor tem medo de debates, entrevistas e sabatinas, candidato?
-Meus eleitores responderão nas urnas...
***
RESPONSABILIDADE é o dever de RESPONDER pelos próprios atos. Quando Crivella diz que seus eleitores "responderão nas urnas", ele está TRANSFERINDO suas responsabilidades ao eleitor. VOCÊ quer mesmo ASSUMIR essa responsabilidade POR ELE?!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Jesus nunca fugiu de debates...



Jesus trouxe uma mensagem de Amor. Defendeu essa mensagem com a própria vida. Com grande coragem, se entregou à justiça dos homens, até as últimas consequências. Não teve MEDO de comparecer diante do tribunal do Sinédrio, nem de Pilatos e nem mesmo da multidão iludida que gritava "Barrabás"... E Crivella? Daria a vida por você?! Ele não aparece nos debates nem para defender a si mesmo, nem sua milionária candidatura...! Que a mensagem de Amor e Paz de Jesus esteja conosco, independentemente das eleições, dos votos e dos candidatos... "Meu reino NÃO é deste mundo"...

Às vésperas do debate...

Crivella vem se mostrando um péssimo CANDIDATO... Como poderá ser um bom PREFEITO?!
***
Meu coração está em festa! Fiquei sabendo que consegui, direta e indiretamente, 11 votos para o Freixo até agora! Esse 2º turno vai ser de virada!!!! Um Rio melhor é possível!!!!
***
Nessa campanha venho aprendendo muito sobre a prática da democracia e o exercício da cidadania! A esperança tem poder! A alegria tem poder! O respeito tem poder! O diálogo tem poder! A escuta tem poder! A empatia tem poder! O sorriso tem poder! O riso tem poder! JUNTOS construiremos um Rio melhor!

Carta aberta aos eleitores de Marcelo Crivella

Caro cidadão,

temos opiniões diferentes, mas estamos juntos no mesmo barco. Somos eleitores, não inimigos. Caso eleitos, Crivella ou Freixo governarão a todos os cidadãos do Rio, e não apenas seus próprios eleitores.

Além disso, digo sempre: não boto a mão no fogo por político ou partido nenhum - nem pelo Freixo, nem pelo PSOL. Sou eleitor, não militante. Doei dinheiro, tempo e esforço pela campanha de Freixo, porque acho sinceramente que é o melhor candidato para nossa cidade. Justamente por isso estarei entre os primeiros a criticá-lo, sempre que julgar necessário. Num eventual governo Freixo, cobrarei dez vezes mais que qualquer eleitor do Crivella. Melhor ainda: cobrarei 50 vezes mais.

Dialogando, a gente se entende! O diálogo não é apenas a essência da democracia: a própria democracia É diálogo. A fraternidade é a base da verdadeira cidadania. A discordância faz parte da democracia, mas o ódio destrói a democracia.

Por fim, vamos fazer um trato de cidadãos? Se o Freixo for eleito e fizer alguma bobagem, eu critico junto com você. Se, pelo contrário, o Crivella for eleito e fizer alguma bobagem, você critica junto comigo. Pode ser?

Nosso compromisso não é com partidos, nem com candidatos: é com a cidade do Rio de Janeiro. O 2º turno acaba no dia 30, mas o mandato do vencedor durará quatro anos. Nesse período, precisamos estar juntos para cobrar do prefeito eleito o devido cumprimento de todas as propostas de campanha.  Juntos, podemos e devemos construir um Rio melhor PARA TODOS. O futuro já começou...

Grande abraço,
Luiz Tavares
Cristão, espírita, professor e pesquisador em História, eleitor do Freixo

 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Algumas dúvidas sobre Crivella...

Uma dúvida: Crivella não foi ministro da gestão PT?

Outra dúvida: o que aquele inquérito fazia na casa de Crivella?

Mais uma: o que o Crivella de 2016 pensa sobre catolicismo, umbanda, candomblé, espiritismo, homossexuais...?

Outra dúvida ainda: que musiquinha o Crivella de 2016 cantaria sobre o chute em nossa senhora?

Mais dúvidas (elas não acabam): Crivella realmente produziu material de campanha com 12 milhões desviados da Petrobras em 2010?


Ainda uma dúvida: Garotinho e seu partiodo são mesmo bonzinhos e desinteressados?

Mais essa: qualquer apoio de campanha é válido? Os votos justificam os meios?

Outra: e o Rodrigo Bethlem?

Para fechar: por que Crivella foge tão desesperadamente de entrevistas, sabatinas e debates?

Finalmente: todas as perguntas justificam a última...?   

 

domingo, 23 de outubro de 2016

Você precisa de "direitos humanos"?

No momento atual, acho pertinente fazer alguns comentários sobre a história dos direitos humanos - afinal de contas, sou professor de História!



Resumindo e simplificando MUITO, muito MESMO, nas sociedades de Antigo Regime, os súditos das monarquias deviam servir e obedecer ao rei. As pessoas tinham poucos direitos, e as leis eram muito injustas. Durante a Revolução Francesa foi criada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), inspirada por pensadores dos séculos XVII e XVIII. A Declaração é um dos textos fundadores da moderna cidadania, pensando um cidadão com direitos e deveres, em lugar da figura do súdito, que tinha muitos deveres e poucos direitos. Foi um grande avanço para a humanidade. É a "certidão de nascimento" dos direitos humanos, ou seja, de direitos que pertencem a todas pessoas, independentemente de religião ou categoria social. 

Durante o século XIX, essa noção de cidadania e direitos humanos se consolidou na França e se espalhou para outros países. Aqui no Brasil, a noção de direitos humanos foi muito importante para o movimento abolicionista; o fim da escravidão está diretamente ligado à ideia de direitos humanos. 

A Segunda Guerra Mundial foi marcada por muita violência e verdadeiros absurdos, como o holocausto nazista e as bombas nucleares lançadas no Japão. Assim, três anos depois da guerra, em 1948, a Organização das Nações Unidas elaborou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, diretamente inspirada pelo texto da Declaração de 1789. A declaração de 48 garante direitos políticos, sociais e civis, protegendo o cidadão de arbitrariedades. São direitos importantes e essenciais, como alimentação, moradia, emprego, educação, saúde, saneamento básico, participação democrática na política, liberdade de expressão, liberdade de consciência, liberdade de culto, igualdade perante a lei, presunção de inocência, direito a julgamento justo, entre outros.

Foi um importante avanço na história da humanidade, levando a cidadania e os direitos humanos a inúmeros países do mundo. Desde então, quase todos os países, inclusive o Brasil, assinaram a Declaração. Para os países signatários, a Declaração tem valor de lei. Aqui no Brasil, onde os direitos humanos ainda não são plenamente respeitados, é essencial lutar para que eles saiam do papel, virem uma realidade para todos os cidadãos. 

Existem órgãos importantes para isso, como as comissões legislativas de direitos humanos, federais, estaduais e municipais. Talvez você tenha críticas ao funcionamento desses órgãos, mas eles são muito necessários para a preservação da cidadania e para proteger os cidadãos brasileiros de inúmeros abusos.

Também é essencial diferenciar as comissões legislativas de direitos humanos, que fazem parte do nosso sistema legal, das organizações não-governamentais (ONGs) de defesa dos direitos humanos e de promoção da cidadania. Algumas dessas ONGs realizam um trabalho muito sério; outras nem tanto. Mais uma vez, devemos distinguir umas das outras: algumas dessas ONGs realmente merecem críticas, enquanto outras merecem aplausos. Seria injusto responsabilizar as ONGs sérias e responsáveis pelas ações das ONGs levianas. 


Crivella e Luther King: 2 pastores entre política e religião



O pastor Martin Luther King Jr. nunca escondeu a foto acima. Pelo contrário, ela era um testemunho de sua luta pelo direitos civis e contra o racismo.

Também vale lembrar que Luther King tirou de suas convicções religiosas e princípios éticos a força moral para combater as leis racistas que existiam nos EUA. Luther King nunca usou seu prestígio religioso para lançar candidatura pessoal a cargos públicos, nem para caçar votos para políticos. Luther King representava a religião como força de libertação. Crivella representa a religião como força de dominação. Crivella é pastor e Luther King também era - a semelhança acaba aí: até onde sei, o heróico pastor do Alabama não andava de jatinho.

A maior inspiração de Luther King era o hindu Mahatma Gandhi. Crivella, por outro lado, escreveu que o hinduísmo é coisa do "capeta"... Tolerância religiosa de verdade é apenas mais uma coisa que Crivella desconhece. É fácil botar uma máscara de tolerância para conquistar votos - especialmente quando já se perderam tantas eleições no segundo turno devido a elevados índices de rejeição. A fala de Crivella é mansa como o sibilar da serpente...

sábado, 22 de outubro de 2016

Comentários aleatórios sobre "mitologia grega"

 
Os deuses gregos geralmente tinham mais de uma atribuição, como Hermes, que era mensageiro dos deuses e protetor dos comerciantes, médicos e ladrões, entre outras categorias profissionais. Outro exemplo é Poseidon, que era deus "dos mares", mas também era considerado responsável pelos
terremotos. Na Odisseia inúmeros versos o chamam de "Divo Posido, que os muros da terra sacode".

A religião grega era muito complexa (e até confusa): essa atribuições rígidas como "deusa disso" e "deus daquilo" foram uma elaboração muito tardia, ligada ao Renascimento e à necessidade de "sistematizar" a mitologia grega, para facilitar suas representações artísticas na poesia, música, pintura, escultura, teatro, entre outras formas de expressão. A visão renascentista sobre a mitologia grega está tão embutida em nossa memória coletiva que sentimos muita dificuldade em conceber o pensamento grego sem essas mediações.

Além do mais, quando abordamos a "religiosidade grega", falamos de períodos com muitos séculos, marcados por profundas transformações sociais - as concepções gregas do divino mudaram muito durante esse longo período. Alguns deuses eram mais ou menos cultuados em determinadas épocas, e às vezes os seus atributos mudaram, bem como algumas de suas atribuições específicas foram mais ou menos enfatizadas ou valorizadas em diferentes momentos históricos.

Também é bom lembrar que nosso conhecido "panteão grego" é sobretudo um panteão ateniense - havia acentuadas diferenças regionais na religiosidade do mundo helênico. Ártemis, por exemplo, era particularmente cultuada na na Ásia Menor, onde o grande santuário da deusa na cidade de Éfeso era importante centro de peregrinação. Devido a sua imensa importância local, o culto de Ártemis nessa região tinha peculiaridades que o diferenciavam do culto prestado à deusa em outras áreas do mundo helênico.

Tudo isso, obviamente, é papo para especialistas; eu mesmo não conheço quase nada sobre essas diferenciações...

(Texto oferecido em consultoria a uma publicação infanto-juvenil).

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Paternalismo, "cuidado" e autonomia: Comparando os discursos de Crivella e Freixo

Dedico esse texto a todos os cidadãos do Rio de Janeiro, independentemente de religião, posicionamento político ou classe social

Crivella quer cuidar das pessoas. Isso é ótimo, sinceramente. A ênfase no cuidado é uma das dimensões mais bonitas e mais cristãs das igrejas evangélicas. De fato, muitas igrejas evangélicas, tradicionais ou neopentecostais desenvolvem obras sociais admiráveis e dignas de aplauso. Muitos evangélicos são pessoas fantásticas, verdadeiros bons samaritanos que deixariam Jesus muito orgulhoso.

No entanto, prefeitura NÃO é igreja. Democracia plena significa governar COM os cidadãos e não PARA os cidadãos.

A cidadania plena pode ser definida como exercício dos direitos civis, políticos e sociais. Ora, o discurso do cuidado adotado por Crivella enfatiza os direitos sociais, mas deixa em segundo plano os direitos civis e - pior ainda - desdenha dos direitos políticos. Preconiza uma cidadania capenga.
Sob uma roupagem cristã, é o mesmo projeto esboçado pelos governos Lula e Dilma. Os programas sociais do PT foram - e ainda são - importantíssimos. No entanto, esses programas sempre enfatizaram os direitos sociais, deixando os direitos civis e políticos em segundo plano: formam consumidores e eleitores, mas não cidadãos.

É uma lógica paternalista: infantiliza o povo, que precisa ser cuidado por uma figura paterna. Getúlio Vargas foi o "Pai dos pobres"; Lula bem que tentou ser um novo "pai dos pobres", mas o povo não comprou a ideia. Apesar de seus defeitos, Getúlio e Lula promoveram importantíssimas conquistas sociais no Brasil, mas pouco fizeram para tornar nosso país mais democrático, para promover a efetiva participação do povo nas decisões do governo. Essa concepção de cidadania expressa profunda assimetria entre governantes e governados, decalcada da assimetria natural entre pais e filhos, adultos e crianças. No limite, pode conduzir a concepções sociais autoritárias (como aconteceu na Era Vargas): pais mandam, filhos obedecem. Ou, como diz a triste máxima brasileira: "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Nos tempos da escravidão, os senhores também se viam como "pais" dos escravos ("subfilhos" na família extensa), que recebiam alimentação, vestimenta e moradia. O senhor CUIDAVA de seus escravos.

No caso de Crivella, o buraco é mais embaixo: sua concepção de cuidado paternalista remete a uma matriz discursiva bíblica, onde a assimetria é ainda mais acentuada: a figura do pastor que cuida de suas ovelhas. Temos aqui um povo-rebanho - mais que infantilizado, animalizado. A criança um dia pode tornar-se adulta, emancipando-se, mas a ovelha será sempre ovelha, indefinidamente dependente dos cuidados de seu pastor. Há uma profunda dimensão de servidão moral embutida nesse discurso; não promove a cidadania e a democracia. É uma versão piorada do recente paternalismo "lulista".

 
Por outro lado, as propostas de Freixo prezam os direitos políticos e civis, tanto como os sociais. Freixo promete governar COM o cidadão, e não PELO cidadão. São propostas como os conselhos de bairro, a autonomia pedagógica das comunidades escolares ou o gabinete virtual. Freixo propõe o cidadão como um adulto que decide, não como uma criança, uma ovelha ou um escravo que precisam de cuidados. Propõe AUTONOMIA em lugar de CUIDADO.

A concepção de cidade proposta por Freixo rompe com o paternalismo brasileiro crônico, de direita ou de esquerda. Nesse sentido, a proposta do PSOL e de Freixo é MUITO DIFERENTE das concepções e práticas do PT e de Lula. O PRB e Crivella estão muito mais perto de virar um "novo PT" e um "novo Lula", do que o PSOL e Freixo  (ao menos nesse momento).

Freixo propõe romper com o paternalismo da senzala e do curral (eleitoral). Se conseguirá ou não, não tenho como dizer.

Nessa eleição, o cidadão carioca precisa escolher um projeto de cidade: queremos um Rio de Janeiro como a Jerusalém monárquica de Salomão ou como a Atenas democrática de Sócrates...?

P.S. 1 (resposta a uma crítica): A referência a Jerusalém e Atenas tinha intenção meramente simbólica: as duas cidades ocupam espaços míticos e alegóricos no imaginário ocidental que transcendem as experiências "reais" vividas nas duas cidades. 

Como dizia Alphonse Daudet, a Atenas e a Esparta da vida real deviam ser no máximo subprefeituras, cujas dimensões foram ampliadas devido à imaginação da Europa meridional, sempre excitada pelo calor escaldante... Por sinal, talvez sejam também as miragens provocadas pelo calor que tenham tornado o Rio uma cidade maravilhosa aos deslumbrados olhares nórdicos. 

A intenção desse texto era menos eleitoral que intelectual - uma tentativa de refletir sobre o modo que múltiplas experiências históricas e culturais se imbricam na "retórica do cuidado" de Crivella, apontando o quanto esse mesmo quadro de referências se infiltra em outros discursos. O homem cordial ama o calor afetuoso do paternalismo, e às vezes até confunde esse paternalismo com democracia. 

Também quis usar o paternalismo como referência para questionar a cada vez mais anacrônica divisão do espectro político entre esquerda e direita. Jacobinos e girondinos já ficaram para trás há muito tempo, e talvez seja a hora de remover conceitos embolorados que tantas vezes obscurecem mais que esclarecem e deixam tanta coisa opaca (no caso, o onipresente imaginário paternalista). As referências cruzadas e invertidas que moralizam esquerda e direita como "bem" e "mal" precisam igualmente ser superadas, particularmente quando embasam unilateralmente a vassalagem partidária do "eSquerda vota em eXquerda", naquela velha relação (também paternalista) entre senhor e vassalo. 

Também é uma provocação aos amigos frustrados, desesperançosos e indecisos, que temem no Freixo e no PSOL uma repetição do Lula e do PT. A esses sinalizo que esse perigo talvez seja mais forte pelo lado do Crivella e do PRB, e talvez eles estejam mais "seguros" votando Freixo que anulando. 

Enfim, espero que o PSOL não venha futuramente a reproduzir como "freixismo" a linguagem paternalista do "lulismo" (o risco sempre é possível). O próprio PT, em suas origens, pretendia ser uma esquerda livre do personalismo carismático, em especial reagindo ao "brizolismo". A gradativa derrapagem do PT rumo ao "lulismo" talvez testemunhe o quanto o imaginário paternalista permanece poderoso em nossa sociedade e quão difícil é exorcizá-lo. O Freixo, o PSOL e sua militância precisam permanecer atentos e vigilantes para evitar que isso aconteça. Como sabiam Freud e Jung, as forças do subconsciente e do imaginário muitas vezes são mais poderosas e traiçoeiras do que pensamos... Já alertava Ricoeur (em Hermenêutica bíblica, por sinal): "só a tomada de consciência de seu estatuto paradoxal pode impedir os símbolos de tornarem-se ídolos".

 P.S. 2 (resposta a outra crítica): De fato, imagino que muitos petistas possam se escandalizar com essa análise, mas acho que já passou da hora dos petistas refletirem séria, profunda e criticamente sobre as virtudes e vícios da "era PT": ouvir críticas também faz parte da democracia. Encarar o espelho pode ser desagradável, mas é muitas vezes necessário. Por sinal, gostaria muito de ouvir o que um petista pensaria dos argumentos que apresentei. 

Em alguns momentos o PT e seus militantes se mostram tão dogmáticos quanto a Universal e seus fiéis - nem todo fundamentalismo é religioso. Está mais que evidente que os velhos catecismos e práticas do PT não conseguem mais convencer muita gente fora da "igreja". Em 2006 e 2010 o PT conseguiu emplacar votações recorde, apesar de todo o barulho midiático em torno do mensalão. Em 2006 o salário mínimo ainda subia como um foguete; em 2008 o salário mínimo entrou em fase de estagnação, mas em 2010 a inflação ainda não havia corroído drasticamente o poder aquisitivo das camadas mais baixas da população. Nessa época o "povão" via melhoras reais em sua vida e votou no PT porque reconhecia essas melhoras, apesar da manipulação da grande mídia. 

Nos últimos anos o quadro mudou: o PT continuava (e continua) cantando glórias passadas, mas no mundo real as condições de vida do "povão" se degradavam. Como professor de escola municipal lido diariamente com o "povão" e sei o quanto as pessoas se sentem insatisfeitas: elas sentem na carne os efeitos do colapso econômico que se agravou devido a inúmeras políticas desastradas implementadas pelo PT para salvar a mobília do andar de cima. 

A "nova classe média" tem críticas legítimas ao PT, embora a porção eXquerdista da "velha classe média" muitas vezes, com certa arrogância, não consiga ou não queira ouvi-las com a devida atenção. Os intelectuais, por sinal, adoram praticar ventriloquismo com o "povão"; às vezes o "pobre" ou o "favelado" aparecem nos discursos acadêmicos um tanto como o índio (ou sua imagem) era usado pelos nossos poetas românticos. Há que se distinguir o "pobre" como pessoa do "pobre" como mito ou alegoria - a esquerda muitas vezes falha em perceber essa distinção. 

Enfim, o povo não é bobo, e nem a rede Globo, a Universal ou o PT conseguem enganá-lo por muito tempo. Se argumentos como os que apresento escandalizariam o petista médio a ponto de negar seu voto ao Freixo, talvez isso indique quem é, de fato, "a esquerda que a direita gosta"... Por sinal, acharia muito coerente que a militância petista votasse no Crivella - afinal de contas, o Crivella foi ministro do governo PT...

P.S. 3 (tréplica a uma réplica): É preciso defender as conquistas sociais realizadas PELO POVO através do PT; é igualmente necessário criticar os aspectos questionáveis da atuação do PT no poder. Há muita diferença entre uma coisa e outra – um verdadeiro abismo.


Discordo da noção de que só devemos criticar as estratégias do PT, e não seus projetos – até porque nos últimos mandatos o PT se especializou mais em tramar estratégias que em elaborar projetos. Minha grande Crítica, com C maiúsculo ao PT foi seu objetivo de governar PARA o povo, e não com o POVO – optei por chamar isso de “paternalismo”; obviamente você tem o direito de discordar dessa definição. É uma crítica a um projeto que privilegiou a extensão dos direitos sociais (o que é louvável), mas pouco fez pelos direitos políticos (o que é lamentável). O PT foi negligente em fomentar o desenvolvimento de uma cultura efetivamente democrática, e a colheita estamos vendo aí. Um anêmico governo supostamente “popular”, que sucumbiu ao sopro das intrigas palacianas. O PT só convocou o povo às ruas in extremis, sempre fiel à estética exigente de vassalagem partidária e de aplausos comandados de cima do palanque. De fato, não podemos confundir as belas palavras proferidas de cima dos palanques com um efetivo projeto social, construído cotidianamente com a participação de todos. Definitivamente, o PT precisa descer do palanque e pisar nas ruas. Conversar COM as pessoas, e não discursar PARA elas.

Ao contrário do sugerido, não me considero inimigo do PT. Pelo contrário: nunca fui petista, mas votei várias vezes no partido. Chorei de emoção em 1º de janeiro de 2003, no discurso de posse de Lula. Antes e depois das eleições de 2002, sempre critiquei o que me desagradava no PT, mas sempre defendi (e ainda defendo) o que me parecia defensável. Por sinal, considero a noção de “inimizade” extremamente deletéria à democracia. O “inimigo” é aquele que deve ser vencido e subjugado – não há diálogo possível com o “inimigo”. Como iniciante nas artes marciais, valorizo a rivalidade cortês. Precisamos superar Clausewitz e Schmitt, a noção de “política como guerra”. A divisão reificada entre direita e esquerda, embora por vezes útil, reforça essa noção de política belicosa. Dificulta a detecção de pontos de encontro, ao mesmo tempo obscurecendo as possibilidades de crítica – se quem critica é “inimigo”, toda crítica torna-se objeto de inimizade. Nesse paradigma, só é possível manter a “amizade” enquanto as críticas permanecem dentro do campo do que aceitamos (previamente) ouvir; as únicas críticas válidas são aquelas que corroborem nossas próprias críticas – um não-diálogo. “Rejeite a crítica, rotule o crítico” – essa tem sido a postura do PT e sua militância diante de todas as críticas um pouco mais incômodas.

Além disso, a política-enquanto-guerra mobiliza rotineiramente sentimentos e discursos de medo. O PSDB usou essa retórica contra Lula em 2002. O PT usou essa estética contra Serra e Aécio, em 2010 e 2014. Foi a retórica do medo articulada em 2014 que levou boa parte das pessoas a acreditar numa improvável “guinada à esquerda” no segundo mandato de Dilma – não só essa “guinada” nunca aconteceu, como o governo capotou. Enquanto capotava, eram tentadas por uma última vez as mesmas técnicas de cooptação através de loteamentos e leilões de cargos no executivo.
Sem recorrer diretamente ao discurso de medo, o PSOL também vem fazendo isso contra Crivella, e em alguns momentos considero que resvalou nessa estética. De fato, expor os problemas da candidatura rival é sempre necessário em alguma medida, mas prefiro uma retórica da esperança. Os limites, obviamente, são tênues e precisam ser manejados com delicadeza.

Não encaro o PT como inimigo, até porque não sou militante do PSOL. Apoiei o partido nas últimas eleições, mas não me sinto comprometido com ele em qualquer medida. Caso Freixo seja eleito, estarei entre as primeiras fileiras de críticos sempre que julgar oportuno ou necessário. Me considero socialista, não “esquerdista” – recuso deliberadamente esse rótulo homogeneizador. Tampouco me enquadro em qualquer ortodoxia socialista – sinto verdadeira alergia a ortodoxias. Costumo brincar: meu cérebro é socialista, meu coração é anarquista e meu estômago, capitalista. Sou fiel a meus princípios, não a partidos ou políticos – quem é fiel a partidos sempre termina traindo a si mesmo. Tampouco sou fiel a “ideologias”, esses construtos semiteológicos que tantas vezes conduzem à servidão intelectual. O “líder” sabe o que faz, mas quando um “líder” me dá as costas para me conduzir a lugares maravilhosos que mal consigo imaginar, sinto ganas de não-sei-o-quê. No dia em que Freixo começar a me dizer o que fazer, chamando-me de “companheiro”, mas tratando-me como empregado, abandono-o imediatamente.

Não sou inimigo do PT. Reconheço que o PT desempenhou importante papel na história recente do país. A atuação do partido foi crucial para a formulação da Constituição de 88. Infelizmente, para garantir espúrios pactos de governabilidade, o partido também se mostrou passivo e conivente diante de tantas emendas e “remendos” que dilapidam esse mesmo legado. Nesse sentido, é emblemático que o recente pedido de Impeachment tenha a assinatura de Hélio Bicudo, destacada figura do PT à época da constituinte. O mérito do pedido pode e deve ser questionado, mas rotular sumariamente Bicudo como “senil” é um atalho fácil para se esquivar das críticas.

Através da legislatura de Florestan Fernandes, o PT articulou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, uma grande conquista em sua época. O PT no poder pouco fez pelo ensino básico, especialmente pelo ensino fundamental. Criou o IDEB, esse sofrível instrumento de solapamento da autonomia pedagógica. Pouco fez para estimular a gestão democrática da educação básica, prevista na mesma LDB-EN. O FUNDEB foi usado de maneiras absurdas pelos governos estaduais e municipais, sem qualquer transparência, sem que o Ministério da Educação, em qualquer momento, tomasse uma postura mais firme. Os professores de todo o país reclamaram constantemente disso, mas suas vozes, como sempre, não chegaram ao alto do palanque. O slogan “Pátria Educadora”, oferecido como hóstia aos crentes que ainda comungam, foi logo desmentido pelos primeiros meses do mandato inacabado, enquanto o Ministério da Educação se tornou objeto de uma verdadeira dança das cadeiras.

O PT contribuiu imensamente para o debate sobre a Reforma Agrária nos anos 90, mas sua atuação no poder executivo também não se mostrou à altura.
No poder, PT – através de coitos satânicos no leito da governabilidade partidária – concebeu Belo Monte, essa monumental monstruosidade. Belo Monte é apenas mais um episódio de uma longa história de violência contra as populações indígenas e sertanejas de nosso país. Um triste episódio em que o PT, mais que cúmplice, foi um dos mandantes. Um monumento à tirania e à iniquidade.

As mãos do PT, de Lula e de Dilma, que tantas vezes apertaram as mãos de Sérgio Cabral e de Eduardo Paes, fedem a lacrimogêneo. Seus pés, que tantas vezes pisaram em iníquos palanques fluminenses, pisam e pesam sobre nossas cabeças. Aqueles mesmos que estrangularam as gargantas que gritaram “não vai ter Copa” cometeram a ignomínia de gritar “não vai ter golpe”, quando suas próprias gargantas eram estranguladas. Como esquecer o leilão de Libra?! Como esquecer a lei antiterrorismo?! Como (como, Deus meu!) esquecer o massacre da Cinelândia em 2013? Como esquecer o massacre salarial imposto aos grevistas da Educação em 2014? Como esquecer que Lula, Dilma e o PT participaram diretamente dessas atrocidades, ou ficaram calados, em culpado e culposo silêncio? Como gritar “golpe” em defesa daqueles que se calaram diante de todos os GOLPES que sofríamos?! Como gritar qualquer coisa em defesa do PT e de sua “democracia”, esse triste arremedo de democracia (sem aspas)? Como gritar qualquer coisa em defesa dos algozes e cúmplices, sem sentir a garganta se fechar e o pulmão sufocar? Como marchar contra os “golpistas”, com os pés atolados na lama de Mariana?!

Temer agiu como Judas em relação a Dilma, mas isso não faz dela um messias, pois Dilma, Lula e o PT lavaram as mãos como Pilatos diante dos crucificados de 2013 e 2014, entre os quais me encontro; gritaram “Cabral” e “Paes”, como outrora se gritara “Barrabás”.

A crise mundial - misteriosa “marolinha” que virou tsunami - existe, mas Dilma e o PT preferiram salvar a mobília do andar de cima a preservar os corpos do andar de baixo. Medidas econômicas desastrosas foram tomadas, visando manter a rentabilidade das exportações do agronegócio e das mineradoras, enquanto o “povão” se afogava na maré montante do desemprego e da inflação. O “povão” se afogava aos berros, mas o salva-vidas acharam que eram apenas os uivos da “mídia golpista”. O “povão” ainda berrava, mas o salva-vidas achou apenas que eram os moradores do andar do meio batendo suas panelas.

Não disputo “de quem é o pobre”. Não tenho a menor dúvida: o pobre é DONO DO PRÓPRIO NARIZ! - ao contrário do que pensam aqueles que se apropriam dele para a prática do ventriloquismo intelectual. O procedimento dessa ventriloquia é deveras curioso: quando se descobre que o boneco tem vida própria e fala o que pensa, o sábio ventríloquo despreza suas palavras: o boneco é manipulado pela mídia. “No Brasil, o boneco é de direita”. Pobre boneco, que não tem aquela idealizada consciência de classe que uma outra classe lhe deseja impor! Boneco ingrato! Recebeu Bolsa-Boneco, Minha casa-de-boneca – Minha vida, e agora age com ingratidão. O boneco recebeu reajustes salariais significativos entre os anos de 2002 e 2008, e agora reclama apenas porque seu salário se encontra há 8 anos estagnado? Que boneco mais exigente! O boneco sofre de sérios transtornos de personalidade. Em 2006 e 2010 o boneco tinha uma sã consciência, votava bem apesar da manipulação da mídia golpista. Em 2014, o boneco, pobrezinho, teve uma recaída. Em 2016, o boneco ingrato não saiu às ruas em defesa de seu mestre, tamanha era a confusão mental induzida pela mídia. Algumas pessoas tentaram ouvir o boneco, compreender quais eram suas queixas, ouvir o que ele tinha a dizer. Essas pessoas eram a “esquerda que a direita gosta”. Essas pessoas burras, sem visão estratégica, achavam que seriam democráticas, mas na verdade prejudicariam o boneco. A única maneira de manter o boneco calado, feliz e votando (porque todo boneco calado parece feliz, desde que vote “bem”) seria fazendo mais pactos de governabilidade. Tudo se resolve com pactos de governabilidade: unha encravada, asma, pane de automóvel, resistência (de chuveiro) queimada e até crises políticas. Me dê um pacto de governabilidade, e moverei o mundo! A “esquerda que a direita gosta” não sabe o que é presidencialismo de coalizão. A “esquerda que a direita gosta” não sabe admirar quão agradável é a paisagem, quando descortinada do “centrão”. A “esquerda que a direita gosta” não sabe apreciar a doce sinfonia que se evola dos gabinetes onde são selados, a portas fechadas, os pactos escritos com o sangue do povo. O boneco precisa ser guiado, cuidado, amparado, orientado. O boneco precisa parar de agir como um bebê chorão e entender que o ventríloquo é adulto, e sabe exatamente o que faz. O ventríloquo cuida dele. Como um pai cuida do filho. Como um pastor cuida de suas ovelhas. Como um senhor cuida de seus escravos.  O boneco, ora bolas, o boneco deve calar a boca, ser feliz e votar! Votar “bem”, é claro.

Quando o boneco vota mal, o assunto é outro. O ventríloquo vai ao palanque-confessionário. Pede perdão, pois o boneco não sabe o que faz. O ventríloquo agora sabe o que fazer pela remissão de seus pecados. Precisa rezar. Rezar muito. Precisa rezar cem milhões de bolsa-famílias, três milhões de minha casa-minha vidas, dez milhões de FIES e outras orações curiosas de interesse público ou privado. Depois de muito rezar, o ventríloquo receberá da Grande Estrela a inspiração luminosa, a indicação dos erros passados: faltou, é claro, trabalho de base! Como sempre. Agora, resta apenas o último passo do ritual de purificação, uma grande procissão vestido com o hábito de penitente – vermelho, é claro.

Peço desculpas pelo fel amargo que aqui vomito, mas certas palavras me deixam nauseabundo. Há certas palavras que me despertam a vontade de trovejar. Há que haver a brisa, mas há que haver o trovão ensurdecedor, para abrir os ouvidos dos surdos. Um trovão inquieto ante a frívola algaravia entoada nos palanques. Me acalmo. Me acalmo, pois minha garganta estoura. Me acalmo, porque não quero beber o vinho do ódio através da taça da indignação.

Não sou inimigo do PT. Não. O PT tem um grande passado, mas seu presente é sombrio. O partido AINDA pode ter um grande futuro, mas precisa se reinventar urgentemente. Precisa superar a idolatria “lulista” e reencontrar suas raízes. O PT precisa superar sua atual tendência ao monólogo “esquerdista” e estabelecer canais de diálogo com a sociedade mais ampla. Ouvir a voz do boneco, em lugar de projetar a própria voz através dele. Talvez assim o partido consiga recuperar um pouco daquilo que era o PT de 1988. É uma pena ver um partido que já teve tanto a dizer afogando-se no mar de suas próprias palavras. Espero que o PT pós-Lula não se torne outra triste sombra como o PDT pós-Brizola. Espero, sinceramente, que o PT reencontre seu lugar na política brasileira e que aprenda (ou reaprenda), finalmente, a dialogar com o povo.

O refluxo da maré (depois do debate)

Ontem um taxista me disse que votou no Crivella no 1º turno, mas gostou tanto das falas de Freixo no debate da Rede TV que está pensando seriamente em votar 50 no 2º turno. Admitiu que não conhecia Freixo e gostou de sua participação. Por outro lado, ele achou ridícula a fala do Crivella em que ficou repetindo que não ia governar com o Garotinho - considerou a atitude infantil. Salientou que, para ele, ontem caiu a máscara de bispo de "fala mansa". Ele estava ávido por informações sobre o Freixo, que fiquei muito satisfeito em oferecer. O cidadão não é bobo. A esperança bate à porta...

Waiting for the Barbarians (C.P. Cavafy)

Poema de C.P. Cavafy (escrito em 1898 e publicado em 1904; traduzido do grego por Edmund Keeley e Philip Sherrard)

What are we waiting for, assembled in the forum?

The barbarians are due here today.

Why isn't anything happening in the senate?
Why do the senators sit there without legislating?

Because the barbarians are coming today.
What laws can the senators make now?
Once the barbarians are here, they'll do the legislating.

Why did our emperor get up so early,
and why is he sitting at the city's main gate
on his throne, in state, wearing the crown?

Because the barbarians are coming today
and the emperor is waiting to receive their leader.
He has even prepared a scroll to give him,
replete with titles, with imposing names.

Why have our two consuls and praetors come out today
wearing their embroidered, their scarlet togas?
Why have they put on bracelets with so many amthysts,
and rings sparkling with magnificent emeralds?
Why are they carrying elegant canes
beautifully worked in silver and gold?

Because the barbarians are coming today
and things like that dazzle the barbarianas.

Why don't our distinguished orators come forward as usual
to make their speeches, say what they have to say?

Because the barbarians are coming today
and they're bored by rethoric and public speaking.

Why this sudden restlessness, this confusion?
(How serious people's face have become.)
Why are the streets and squares emptying so rapidly,
everyone going home so lost in thought?

Because night has fallen and the barbarians have not come.
And some who have just returned from the border say
there are no barbarians any longer.

And now, what's going to happen to us whithout barbarians?
They were, those people, a kind of solution.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Impressões sobre o debate na Rede TV (Crivella x Freixo, 19/10/2016)

O Crivella perdeu o controle em alguns momentos ou foi impressão minha?
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Crivella se mostrou favorável à legalização do Uber. Já sabem o assunto para a conversa com os taxistas na próxima semana...
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Crivella disse que vai investir mais na Zona Sul porque é a vitrine da cidade que gera turismo. E ainda teve a cara de pau de dizer que isso é um grande benefício para as Zonas Norte e Oeste! Obrigado, bispo!
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Repararam que ao falar de profissionais de saúde, o Crivella só falou em médicos? E os enfermeiros, auxiliares de enfermagem, farmacêuticos, técnicos de laboratório? Não contam?!?!
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"A gente não muda a essência, mas muda a forma". - Crivella, o nome disso é HIPOCRISIA.
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"O candidato não é o missionário da África; o candidato é o senador". - O Crivella sofre de personalidades múltiplas?!
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Pense com carinho no Freixo. Votando nulo você provavelmente ajudará o Crivella. E Crivella... nunca! O Freixo tem ótimas propostas e não tem rabo preso em conchavos partidários. Crivella vai lotear cargos para sua coligação inteira, especialmente para o PR do Garotinho. Se o Freixo conseguir cumprir um terço das propostas dele, a cidade já melhora pra caramba. Além do mais, a cidadania não acaba nas urnas. Temos que escolher o candidato com as melhores propostas e depois cobrar dele durante o governo.

Humor eleitoral

Eleitor do Bispo é que nem enterro de anão, cabeça de bacalhau e filhote de pombo: sei que existe, mas nunca vi...
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Reza a lenda que o Bispo tentou vender a alma ao Diabo, mas o Capeta não aceitou...
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O BISPO é uma das peças mais traiçoeiras: seus movimentos são sempre oblíquos...
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SOLDADO UNIVERSAL: Breve em cartaz no Rio... por 4 anos?!
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Freixo cuidará tanto do meio-ambiente que até tem nome de árvore...
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Vote num candidato próximo das raízes.
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Plante um Freixo na nossa cidade - árvore dá MUDA...
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A Lei do Bispo: toda rejeição pode virar omissão; toda omissão pode virar cumplicidade; toda cumplicidade pode virar tragédia; toda tragédia pode virar comédia; toda comédia precisa de um palhaço; todo palhaço precisa de maquiagem; toda maquiagem parece uma máscara; toda máscara cai um dia.
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Os 10 mandamentos do Bispo:
1-Esconderás teus preconceitos.
2-Esconderás teu passado.
3-Esconderás tuas palavras.
4-Esconderás tuas alianças.
5-Esconderás tuas intenções.
6-Espalharás os boatos.
7-Aceitarás qualquer apoio.
8-Fugirás aos debates.
9-Servirás a dois senhores.
10-Gritarás Barrabás.

***
Enquanto alguns gritavam Barrabás, outros lavavam as mãos. Todos passarão 4 anos pagando pelos 30 dinheiros.
***
-Satanás!!! Onde está você, Satanás?
-Chegando no Rio...
-...quem está aí?!
-Outro gatooo!
-Hein?!
-Miaaau!
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EVOCAÇÃO DO MAL IN RIO
"Espíritos zombeteiros, se vocês estiverem aí, digitem 10 nessa urna agora..."
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Esqueçam as velhas superstições: o novo número do azar é 10 e o dia nefasto pode cair num domingo 30...
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EVOCAÇÃO DO MAL IN RIO 2
"P... R... B..."
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Isso é estranho: quando o Bispo fala, ouço a voz de um garotinho... Acho que preciso de um descarrego...
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Ouvi dizer que o próximo livro do Dan Brown é sobre uma cidade governada por uma estranha coligação chefiada por um bispo...
***
Quando bispo ganha, o xeque-mate é contra o Rio...!
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Chamar "bispo, chirrin" é moleza. Difícil será dizer "bispo, chirrion". Se aprendi uma coisa assistindo Chapolim, é que com chirrin-chirrion não se brinca.

Não reclame com o bispo...

Você vai MESMO bancar 4 anos de CRIVELLA?! Em 2010 você votou CABRAL para evitar Crivella... Em 2014 você votou PEZÃO para evitar Crivella... Em 2016 você vai de NULO por medo do FREIXO? Isso faz algum sentido?!?! Vai realmente apostar 4 ANOS da sua vida nas mãos do Crivella?!?! Depois não vá reclamar com o bispo, hein?!

A lenda do bispo, do garotinho e do freixo

Reza a lenda que o bispo vinha pela estrada.

Chegando à encruzilhada, encontrou com um demônio em forma de garotinho. O garotinho prometeu ao bispo uma cidade, desde que ele sacrificasse alguns cidadãos em seu altar. Fizeram um pacto e fizeram-se à estrada.

No meio do caminho encontraram um guerreiro grande como uma pedra que não queria deixá-los passar. O violento guerreiro batia em sua mulher. Quando o povo soube disso, o derrubou, liberando caminho para o bispo e o garotinho. Eles proseguiram. 

Finalmente chegaram às portas da cidade, mas um grande freixo barrava a passagem. 

O garotinho, sempre esperto como raposa, desmaterializou-se. Invisível, soprava mentiras nos ouvidos dos cidadãos: dizia que o freixo era amaldiçoado, que aquela árvore precisava ser abatida. Inventou até que o freixo poderia virar uma lula-sem-cabeça. 

Muitos gritaram contra o freixo; achavam que apenas o bispo poderia salvá-los da maldição. Outros defendiam a árvore, desconfiados das intenções do bispo que aguardava fora de seus muros. Avisaram que haviam visto um estranho garotinho ao lado do bispo; alguns acreditaram, outros fingiram que não sabiam. Alguns velhos ainda lembravam que outrora um garotinho lhes trouxera grandes desgraças, mas a maioria dos habitantes tinha memória curta, ou fingia que não lembrava, porque sentiam muito medo do freixo. Muitos estavam indecisos. 

Combinaram uma votação para decidir se derrubavam o freixo e deixavam o bispo entrar ou se mantinham a árvore e deixavam o bispo de fora. Chegou o dia da votação, então... [o velho manuscrito estava rasgado nesse ponto; cabe ao leitor imaginar o fim dessa lenda].

Freixo vai fazer uma "revolução comunista" no Rio?!

O Freixo não vai fazer uma "revolução comunista" pelos seguintes motivos: 

1) O PSOL vai governar sem maioria na câmara dos vereadores; 

2) O prefeito não tem nenhuma atribuição constitucional que permita a ele mexer com direitos de propriedade, entre outros - o prefeito não pode modificar a constituição, nem os códigos civil, penal, comercial etc; 

3) O prefeito sequer tem a seu serviço um grupo armado - inclusive o Freixo é contrário ao armamento da Guarda Municipal; 

4) O PSOL defende outra vertente de socialismo, pautada pela participação democrática dos cidadãos na gestão; uma das principais propostas de Freixo é a criação dos conselhos de bairro - ou seja, um modelo de administração MENOS autoritária que a atual; 

5) Desde sua fundação o PSOL defende uma esquerda sem personalismo - exatamente o oposto do chavismo, castrismo, maoísmo, stalinismo, getulismo, brizolismo entre outras tantas formas de liderança carismática - na verdade, o PSOL surgiu de uma corrente do PT insatisfeita com o "lulismo"; 

6) Tem gente com medo de que o PSOL vire um "novo PT" - isso faz pouco sentido, até porque os fundadores do PSOL abandonaram o PT assim que Lula chegou ao poder, insatisfeitos com os "pactos de governabilidade" do primeiro mandato petista. O PRB do Crivella é que sempre fez parte da base aliada do PT e só pularam fora depois que o barco começou a afundar. Lula inclusive frequentava os palanques do Crivella e apoiou o bispo no 2.o turno de 2014, contra o Pezão.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Método fácil, democrático e honesto para conquistar votos para o Freixo

Já consegui 5,5 votos para o Freixo - 0,5 significa uma pessoa que votaria nulo com certeza, mas convenci a pensar no Freixo como alternativa viável. Por outro lado, consegui 2 "antivotos" para Crivella: duas pessoas que estavam na dúvida entre nulo e o bispo, mas não votariam em Freixo de jeito nenhum. Consegui convencê-las de que Crivella nem pensar - 2 votos anulados que poderiam ir pra ele. É possível. O diálogo sincero e respeitoso tem poder! Seguem algumas dicas para abordar pessoalmente, mas que também servem para as redes sociais.

1) A ABORDAGEM
Pergunte, como quem não quer nada, se a pessoa já tem um candidato. Essa sondagem preliminar deve ser cuidadosa. Esse diagnóstico é MUITO importante: OUÇA o que a pessoa tem a dizer e tente responder com argumentos adequados a cada situação. Você sabe o quanto o discurso automático e repetitivo em estilo telemarketing é desagradável. Você perceberá que há 6 perfis de eleitores nesse segundo turno:

a) Decidido pelo Freixo - Movido pela esperança. Nem precisa fazer nada! Parabenize, troque ideias, e se possível, forneça bons argumentos e informações úteis, que esse eleitor poderá usar com outras pessoas.

b) Indeciso tipo 1 (entre Freixo ou Nulo) - Entre a esperança e a desconfiança. Esse eleitor se sente inseguro e desconfiado, traumatizado com tantas frustrações políticas. Ele quer ter esperanças. Seja sincero. Diga que você não bota a mão no fogo pelo Freixo ou pelo PSOL (eu não boto), mas que vale a pena apostar na candidatura. Lembre que a democracia e a cidadania não acabam nas urnas, que as propostas de Freixo são boas e cabe ao cidadão cobrar que ele as cumpra, caso eleito. Lembre a ele que o assunto é sério e a abstenção dele poderá ajudar a vitória de Crivella.

c) Indeciso tipo 2 (entre Freixo, Crivella ou Nulo) - Ponderado; aguarda bons argumentos para tomar sua decisão. Provavelmente esse eleitor repudia os valores representados pela candidatura de Crivella, mas também não confia em Freixo, temeroso de que o PSOL vire "um novo PT". Também é possível que tenha ojeriza a ambos candidatos. É um quadro particularmente delicado. Tente entender o motivo de sua resistência a Freixo e responda com argumentos consistentes. Caso seja impossível convencê-lo a votar em Freixo, opte pela redução de danos, apontando bons motivos para não votar em Crivella e convencendo a votar nulo. Um bom slogan para esse caso é "Crivella nem pensar"!

d) Indeciso tipo 3 ( entre Nulo e Crivella) - Tem medo de Freixo e desconfiança quanto a Crivella. É provável que esse eleitor não se identifique com discursos de esquerda. Tem ojeriza e até medo do Freixo. No entanto, como ele está na dúvida também significa que tem pé atrás com o Crivella. Será quase impossível trazê-lo ao esperançoso 50, mas com bons argumentos você pode levá-lo ao "Crivella nem pensar". Mais um voto nulo; menos um voto para o bispo. Um pequeno passo rumo à vitória. Um "nulo do bem".

e) Decidido pelo Crivella - Tem medo do Freixo. Se identifica integral ou parcialmente com os valores articulados pelo bispo. Não nutra esperanças de convencê-lo a votar em Freixo. Se possível, tente levá-lo ao nulo. Esse eleitor pode ser exaltado: evite partir pro bate-boca.

f) Indiferente - Não se interessa por política e está MUITO cansado de frustrações. Tente explicar que essa decisão é muito importante e afetará nossas vidas por 4 anos. Procure mostrar que há esperança e precisamos apostar numa boa alternativa. Não insista demais - poderá irritá-lo e até incentivá-lo a votar no Crivella.

2) A ATITUDE
Sua postura é importante e pode aumentar ou diminuir a confiança do interlocutor em suas palavras, informações e argumentos. Evite a polêmica doentia: política e eleições são coisas importantes, mas existem valores ainda mais essenciais, como amizade e família. Não se afaste de amigos e familiares por causa de nenhum político ou partido - não vale a pena. Até os eleitores de Bolsonaro têm coração...

a) Seja respeitoso - ninguém gosta de ser tratado com ironia, sarcasmo, desdém ou grosseria. O respeito abre portas e mentes. Mesmo que seu interlocutor fale os maiores absurdos e reproduza os boatos mais estranhos, não perca a linha.

b) Não se exalte - o descontrole emocional despertará desconfiança sobre seus argumentos. Não caia no estereótipo do "esquerdista fanático e raivoso". O mundo NÃO é um grande centro acadêmico. Xingar o Crivella não vai ajudar. A raiva só vai fazer mal a você e ao seu ouvinte.

c) Ouça calma e atentamente - democracia é diálogo e não existe diálogo sem escuta. Você está numa conversa, não num palanque. Ouça com atenção e tente respeitar e compreender os pontos de vista de seu interlocutor. Evite interromper seu interlocutor enquanto ele apresenta seus pontos de vista (isso é particularmente difícil para mim).

d) Não rotule - chamar o interlocutor de coxinha, reaça etc não trará nenhum bem. Democracia é diálogo, não julgamento.

e) Fale com humildade - muitos dos eleitores de Crivella ou indecisos são pessoas com baixo grau de instrução ou cultura política precária. Isso não é motivo de vergonha e você não deve menosprezá-lo por isso. Tratá-lo com arrogância só fechará as portas às suas palavras.

3) OS RECURSOS
Use sabiamente suas informações e recursos de oratória.

a) As fontes - você pode adorar sites e páginas "superconfiáveis" de esquerda, mas quase ninguém acompanha esses veículos de comunicação. Além disso, a retórica usada por esses veículos geralmente só atinge os "convertidos" - fora da sua "bolha" a maioria das pessoas não se identifica com esses discursos. Preste atenção ao que os "jornalões" andam dizendo: O Globo, Extra, O Dia, Folha, Estadão e até a Veja andam repletos de informações comprometedoras sobre Crivella. Use, mas não abuse: é provável que seu interlocutor confie nesses veículos, mas não vale a pena estimular uma confiança cega neles apenas para eleger um prefeito. Estimular a consciência crítica também faz parte da "missão" e traz consequências importantíssimas a longo prazo. Queremos formar cidadãos democráticos, não meros eleitores.

b) Não minta, nem exagere - a manipulação inescrupulosa e o cinismo são males que devemos extirpar da política, em nome de uma cultura democrática. Não vale a pena se sujar por nenhum candidato ou partido. Além disso, não é eficiente: as pessoas não são otárias e perceberão que você está falando absurdos.

c) Tenha certeza de suas informações - se você não estiver bem informado e falar alguma bobagem ou cometer algum equívoco grave despertará desconfiança contra você, no momento mesmo em que estiver falando ou quando a pessoa se informar melhor. Aliás, você está fazendo campanha pelo Freixo de modo consciente ou está só seguindo a moda? Reflita bem: talvez o "analfabeto político" seja... você! Se não tiver certeza de alguma coisa, seja honesto e franco: o interlocutor perceberá que você é uma pessoa ponderada e confiará mais em você.

d) Evite polêmicas estéreis - seu foco aqui são as eleições municipais. Algumas pautas do PSOL são bastante polêmicas (eu mesmo discordo de algumas delas); saliente aquilo que é relevante para ESSAS eleições, lembrando quais são as atribuições do prefeito e tudo aquilo que o Freixo NÃO pode fazer. Os rebeldes do Longistão e a luta dos humildes pescadores Confinlandeses NÃO têm nada a ver com o 2º turno das eleições do Rio. O "golpe" (sic) também não tem nada a ver.

e) Use vocabulário e expressões simples - não fique falando "esquerdês" como um autômato programado no DCE ou nas assembleias sindicais. Dizem as lendas que cada vez que alguém usa o termo "burguês", Crivella ganha um voto. Prefira argumentar com simplicidade e bom senso: nem todo mundo leu Kant ou assistiu ao último filme de Ramahtinshadguptadrani. Nem todo mundo curtiu "Aquarius". Eu nem quis ver.

f) Não insista - algumas pessoas são teimosas e viram que o Freixo sacrifica criancinhas num site ou um amigo contou que viu numa conversa do "zap". Você não irá convencê-las do contrário, mas poderá apontar informações conhecidíssimas sobre o Crivella, como sua aliança com Garotinho.

g) As propostas - Freixo tem um monte de propostas bacanas e sensatas. Conheça bem algumas delas e apresente aquelas que parecerem mais interessantes para o seu interlocutor, segundo sua categoria profissional, religião, bairro onde mora etc.

h) Busque pontos em comum - por mais que tenhamos posicionamentos políticos discordantes, todo mundo tem alguma coisa em comum. Procure aquilo que aproxima você do seu interlocutor e evite aquilo que os distancia. A conversa ficará bem mais agradável para ambos e os resultados serão melhores.

i) Fale com humor - ninguém aguenta aquelas catilinárias "esquerdistas" cheias de palavras de ordem e (falsa) exaltação revolucionária. Tente ser engraçado - até porque a política carioca é uma piada...

OBSERVAÇÃO FINAL: O diálogo não é meramente importante para a democracia; a democracia É diálogo. Aprendendo a dialogar com respeito construímos uma democracia melhor para todos nós.

Madruga e Girafales: 2 professores

Texto do amigo Tiago de Souza - brilhante como sempre:

O dia dos professores passou. Como diria a Chiquinha: "Sim. E daí?!" Logo, vale a pena falar sobre essa cena que pra mim é um baita exemplo do "que fazer" e do que "não fazer" com o conhecimento e com o que tudo que se decide "passar" ao aluno. E serve para uma reflexão sobre o que é ser professor.

Ela é muito conhecida de quem gosta de Chaves, desde sempre me marcou muito e hoje, revendo tudo, algumas coisas fizeram sentido. Não, meu exemplo de professor ideal não é o Seu Madruga. Nem o Girafales. O que eu não entendia era porque ele estava falando sobre aquele assunto em uma sala de aula. Acho que depois de 14 anos dando aula (sim... Comecei novo no ofício) eu comecei a perceber que tanto o "utilitarismo" rasteiro do seu Madruga quanto o êxtase do prof. Girafales são importantes para um professor.

Durante toda a série o Girafales tenta ensinar aos alunos conteúdos que pra eles não fazem sentido. Claro que para um catecúmeno eles nunca fazem, mas é tarefa do professor organizar uma narrativa que faça sentido para eles. Seja um professor de História que está falando sobre as revoltas do Brasil Colônia seja um baterista que está falando sobre paradiddles. O problema do Girafales é que ele está mais preocupado com a "bagunça" dos alunos e não percebe que em todas as suas outras aulas eles estão atentos, quietos (claro que as vezes esporros são necessários...) e tentam compreender a importância e a utilidade de tudo o que está sendo transmitido. Por exemplo, no episodio sobre a "Chinfurínfula", Chaves vai fundo na pergunta: até onde vão os limites na arte? E quando a Chiquinha reclama que "já me bastam os problemas que tenho na vida" e o Nhonho chora porque "matou as Antilhas", o que temos são os alunos dando dois recados ao mestre: afinal, porque estamos estudando isso? Será que você não percebeu que nossa imaginação é muito mais ampla do que o seu plano de aula diz que é? Planos de aula, assim como na guerra, só funcionam até tudo começar.

Aí vem o seu Madruga.

Com uma retórica veloz, uma interpretação cômica mas que espuma seriedade e para o deleite de todos - inclusive do professor Lingui... digo, Girafales - ele traz um assunto que faz sentido. Os alunos foram fisgados. Bingo! Se a aula tivesse continuado, eles poderiam perguntar sobre diversos porquês: qual a composição química do tal veneno? Porque afinal, tomamos choque? A aula poderia ser de Química, poderia ser de Física... E também não poderia. De repente eles poderiam se surpreender: o assunto da aula poderia ser o Nazismo. Sim! Se o Madruga estendesse o raciocínio ele poderia dizer que, como alguém que vê uma caveira numa garrafa e ignora o aviso que explica o seu conteúdo assim aconteceu na Alemanha da década de 30. E pode acontecer no Brasil de hoje. "Porquê a pessoa quis beber a garrafa professor?!" Chaves perguntaria. "Porque sim, tonto!" diria Kiko. Aí entraria o conteúdo que apenas Girafales possui: ideologia, as massas e a prática política, o "veneno" que foi o totalitarismo nazista, as leituras de Hannah Arendt, a semiótica aplicada a caveira do aviso, enfim... A aula - e a mente - estaria nos trilhos.

Seu Madruga é divertido, mas seu utilitarismo tem limites. Professor Girafales é um erudito, mas cuja sabedoria nem sempre é como os cafés que ele toma com a dona Florinda: ela nem sempre é compartilhada.

 Muitos professores repudiam o tipo de conhecimento e a vivência que os alunos têm. Muitos preferem se posicionar como os sabichões eruditos e ignoram as necessidades dos alunos. Muitos são escravos do currículo. Muitos estão ali pra "complementar a renda, meu negócio é tocar". Muitos querem apenas "bombar" o Lattes. Mas muitos, apesar da infeliz situação em que nosso país se encontram buscam ser híbridos. Unem em uma única pedagogia a metodologia"madrugoniana" com o referencial teórico "girafaleano". São "monstros", mas monstros do bem. E são eles que me inspiram até hoje.

O mestre que não se importa em enumerar todos os faraós do Egito mas prefere mostrar como o poder baseado na religião é um veneno e aqueles que mostram que melhor do que ter um paradiddle veloz é saber que aquilo é apenas "uma" palavra das diversas possíveis e que em certos momentos "falar rápido" é ridículo - é justamente para esses que eu desejo, com muito atraso, um feliz dia nosso.

Por mais professores como esses.

sábado, 15 de outubro de 2016

A PEC 241 e seu "ajuste de contas"

Ajustar as contas é necessário, mas usar a inflação como teto é um absurdo. E 20 anos é MUITO tempo. É pouco democrático estabelecer a priori o orçamento para CINCO mandatos presidenciais consecutivos, 1/5 de século - especialmente quando isso é feito por um governo e um congresso que não gozam de confiança da população.

É curioso, inclusive, que aqueles que criticam (com razão) os planos quinquenais que tanto engessavam a economia da União Soviética ou da China Comunista apoiem esse plano "vintenal", para engessar nossos serviços públicos e nossa economia por tanto tempo. Isso é um verdadeiro Frankenstein, uma união bizarra entre o pior do mercado livre e da economia planificada. Não faz sentido...

Usando ainda a gastíssima analogia do orçamento doméstico: já imaginou uma família que impusesse limites estreitíssimos aos seus gastos por 20 anos? ...e se um filho precisar de tratamento médico? ...e se alguém sofre um acidente grave e incapacitante? ...e se o pai da família morre repentinamente? Muita coisa pode acontecer com uma família em 20 anos; muito mais coisa pode acontecer com um país nesse mesmo período.

Ajustar as contas é necessário; ajustar DESSE jeito é uma irresponsabilidade.

Ajustar DESSE jeito sem consultar a população através de plebiscito ou referendo é um verdadeiro atentado à democracia. Em qualquer país minimamente democrático, uma decisão dessa monta seria tomada diretamente pelos cidadãos.

Para ficar no terreno das analogias, é como se você subisse num ônibus e o motorista resolvesse dirigir por 20 horas sem parar, sem dizer aonde pretende ir e sem perguntar a nenhum passageiro onde ele quer descer ou SE quer descer...

Quando o professor apanha

No início de 2015 dois alunos começaram a brigar dentro de sala de aula; quando me aproximei para intervir, acabei levando um soco na mão. Doeu.

No final de 2015, eu estava de costas escrevendo no quadro quando um aluno jogou, "de brincadeira", a mochila. Ela ricocheteou contra a parede e me acertou no olho. Doeu.

No começo de 2016, um estudante que sequer é meu aluno, no tumulto do corredor, me deu um tapa na nuca. Pelas costas. "De brincadeira". A princípio negou, mas acabou confessando diante da mãe. Doeu.

Hoje, um menino e uma menina de 6o ano se engalfinharam em sala de aula. A menina, que não estava devidamente uniformizada tentou acertar um chute alto no colega; a sandália havaina escapuliu de seu pé e me acertou. NO ROSTO. Levada à direção da escola, a aluna não mostrou arrependimento nem pediu desculpas. Se achava coberta de razão, pois o colega havia sujado seu trabalho. Doeu. Presente pelo "Dia do Mestre", talvez.

Em menos de dois anos sofri QUATRO agressões físicas. Duas delas propositais - "de brincadeira".

Em oito anos de magistério público já perdi a conta das agressões morais sofridas.

Há algo MUITO errado na escola pública...