terça-feira, 19 de julho de 2016

ACERVOS DO MUSEU DO ÍNDIO/FUNAI EM PERIGO

Desde o dia 13 de julho, em função de uma invasão, o Museu do Índio
encontra-se fechado.



Falar de Patrimônio Cultural é falar de voz, de representação, de
identidade, de busca por reafirmar um lugar no mundo. São 63 anos de
existência do Museu do Índio.



O órgão científico-cultural da Funai corre sérios riscos. Está há mais
de 24h sem o menor controle dos acervos que custodia. São acervos
etnográficos sobre diversos povos indígenas (o conjunto mais
representativo da América Latina), bibliográficos (uma das maiores
bibliotecas especializadas em etnologia indígena no Brasil) e
documentos arquivísticos que são fontes probatórias das relações
históricas entre o Estado brasileiro junto aos povos indígenas, sendo
FUNDAMENTAIS em processos judiciais de demarcações de terras. O
trabalho de documentação realizado pelo Museu do Índio contribuiu para
a demarcação de mais de 200 terras indígenas, nos últimos 30 anos.

Dentro deste universo, o conjunto documental do Serviço de Proteção
aos Índios foi reconhecido como Memória do Mundo pela UNESCO em 2008.
Além disso, o Museu do Índio tem sido incansável na condução de
projetos de documentação de culturas e línguas dos povos indígenas.
Todos os projetos e as práticas museológicas que vêm sendo
desenvolvidas na última década têm como diretriz fundamental uma
abordagem participativa dos povos indígenas. Todas essas ações contam
com a participação direta de mais de 30 povos, tendo contribuído para
a formação de 215 pesquisadores indígenas, engajados nos projetos de
documentação realizado em parceria com a UNESCO.

O Museu do Índio tem sido espaço de diálogo, de compartilhamento, de
debates promovidos pelo curso Dimensões das Culturas Indígenas -
atualmente ministrados por especialistas e por lideranças e
pesquisadores indígenas -, de qualificações de acervos, sempre
buscando conhecer quais são as principais e diversas necessidades dos
povos indígenas em relação ao seu patrimônio, suas questões
identitárias. As ações têm sido pensadas em direção ao fortalecimento
de suas culturas para possibilitar o fortalecimento de suas
mobilizações na busca incansável para garantir seus direitos.

É inconcebível e reprovável o que ocorre hoje no Museu do Índio. São
seis dias de ocupação – especificamente na noite do dia 17, domingo,
ocorreu uma invasão violentíssima – que podem acabar com décadas de
trabalho à serviço dos povos indígenas e da conscientização da
sociedade em relação à sua diversidade cultural. Depredação dos
portões tombados, arrombamento das salas de trabalho, tentativa de
arrombamento das reservas, agressão verbal e física à funcionários do
Museu e incitação de ódio e desrespeito aos representantes Fulni-ô,
que se manifestam inconformados com o desrespeito ao patrimônio ali
depositado.

É a situação do Museu do Índio hoje. O dano pode ser irreparável. A
Federação das Organização Indígenas do Rio Negro=FOIRN e outras
lideranças indígenas já manifestaram apoio à integridade dos acervos
que o Museu guarda e repudiam fortemente o tipo de ocupação que foi
realizada.

Todas as medidas legais têm sido tomadas para garantir a preservação
dos espaços e do acervo, mas é com tristeza e sensação de impotência
que este patrimônio cultural depositado corre risco de
desaparecimento.

Há pouquíssima clareza por parte dos manifestantes do tipo de atuação
do Museu do Índio dentro da Funai e do trabalho que vem sendo
desenvolvido na instituição.

A Direção do Museu já solicitou à Justiça a reintegração de posse para
evitar danos aos bens culturais materiais e imateriais dos povos
indígenas e ao patrimônio público do povo brasileiro. Somos um órgão
científico e cultural e TODAS as reivindicações apresentadas saem
completamente da nossa alçada.


Direção do Museu do Índio


-
Museu do Índio
Rua das Palmeiras 55 - Botafogo
Rio de Janeiro/RJ
CEP 22270-070

www.museudoindio.gov.br


domingo, 17 de julho de 2016

Pessoas de juízo não se fecham no guarda-roupa!

"Pedro segurou a porta encostada, mas não a fechou completamente: como todas as pessoas de juízo, sabia muito bem que nunca devemos nos fechar dentro de um guarda-roupa".

Estou lendo O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis; a obra dispensa maiores apresentações. Curiosamente, o preceito acima é enunciado várias vezes durante a primeira parte do livro, antes que as crianças se percam definitivamente no mundo escondido no guarda-roupa. O curioso preceito aparece pela primeira vez quando a pequena Lúcia encontra o guarda-roupa:

"Não fechou a porta, naturalmente: sabia muito bem que seria uma tolice fechar-se dentro de um guarda-roupa".

O que me despertou a atenção foi que, eu mesmo, quando criança, ouvi muitas vezes esse mesmo conselho. Meu avô e, principalmente, minha avó sempre repetiam que era muito perigoso se fechar no guarda-roupa, pois poderia vir alguém e passar a chave no armário; os gritos abafados da criança (como eu) não seriam ouvidos e ela poderia morrer sufocada!

Minha família tinha mesmo uma (quase) dramática história cautelar sobre o tópico: meu avô tinha dois primos muito levados, que certa vez se esconderam no armário. Em casa estavam apenas duas tias-avós idosas e ligeiramente surdas. Os dois garotos se puseram a berrar pedindo socorro, mas as duas não ouviam, tomando placidamente um chá. Finalmente, um parente mais jovem chegou em casa e ouviu os gritos dos meninos. Segundo minha avó (que nem pertencia a esse ramo da família), os garotos já estavam vermelhos quando foram resgatados - podiam ter morrido!

Cresci ouvindo essa história e esse conselho; algumas vezes cheguei a me esconder em armários (a tentação era grande), mas, por via das dúvidas, nunca fechava a porta! Para mim, morrer sufocado num armário era um risco palpável.

Acho que poucas crianças morreram sufocadas em armários - if any. Ao que parece, todavia, o medo desse improvável evento era comum, não apenas no Brasil de minhas avós, mas também na Inglaterra de Lewis. A crer nas Crônicas de Nárnia, as crianças inglesas dos anos 50 e de gerações anteriores também eram cuidadosamente advertidas contra esse "grave perigo".

Por outro lado, isso me leva a pensar que esconder-se em armários talvez tenha sido sempre tentador para as crianças. De fato, até hoje, alguns alunos meus brincam de se esconder nos armários da escola que eventualmente encontram destrancados. Talvez Freud encontrasse aí um desejo de refúgio uterino ou coisa do gênero...

Me pergunto se esse medo inexplicável teria algo a ver com a arquitetura dos armários antigos: a madeira era muito sólida e as portas costumavam ter chaves. Eu mesmo convivi com um monstro desses no quarto de meus avós. De lá para cá os armários se tornaram frágeis cascas de madeira laminada e me parece que armários com fechadura são cada vez menos comuns - dificilmente confundíveis com os devoradores de crianças travessas de outrora.

Retornando à obra de Lewis, me indago se essa cultura de alerta contra os perigos dos guarda-roupas, tão reiterada pelo próprio autor, de alguma forma inspirou-o a colocar dentro de um armário as portas para o mundo perigoso e encantador de Nárnia, situado entre as aventuras das crianças e os temores dos adultos. Quem sabe?!

P.S.: Lendo o texto, minha esposa se recordou que também minha sogra a advertia para não se fechar em armários!

quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Petite politique"

Eduardo Paes iniciou sua gestão com um choque de ordem e prerende terminar com um choque de desordem.

O "legado" será principalmente para as contas das empreiteiras.

No Brasil só temos "petite politique", porque nossos políticos são pequenos, afinal de contas!