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quinta-feira, 28 de abril de 2016

De mãos, pulsos e cortes

O PT é a mão esquerda do PMDB; o PMDB é a mão direita do PT.

Agora, num gesto suicida, cada mão quer cortar o pulso da outra; sangrarão juntas.

Quem fará os curativos?

A volubilidade do "inaceitável"

Nos últimos meses tenho aprendido que para muitas pessoas, "inaceitável" é um termo que depende apenas de conjunturas políticas. O "aceitável" de hoje será o "inaceitável" de amanhã (e vice-versa).

O "aceitável" de 2014 será o "inaceitável" de 2016.

No fundo, tais discursos falam apenas de conveniências e inconveniências, comodidades e incômodos. Seguir tendências é sempre mais fácil que buscar caminhos.

Convenhamos: a moderação é necessária até para os exageros. Todo excesso costuma sinalizar uma carência.

A verdade, cada vez mais evidente, é que a hipocrisia muda sempre e constantemente, para permanecer a mesma, esmagando dedos e anéis no processo. A sinceridade custa caro, afinal de contas...

No futuro, cada pessoa terá direito a 20 minutos de indignação.

Crônica de uma aula

Manhã. Uma escola municipal. Sala de uma turma de 9º ano.

Sai a professora de Ciências. O professor de História está na porta. Diversos alunos (que já deveriam estar no Ensino Médio) estão em pé, zanzando pela sala, berrando uns para os outros. Um deles dança funk. Dois trocam socos. De brincadeira.

O professor aguarda alguns minutos, para ver se eles "se mancam". Demora, mas alguns tomam "espontaneamente" seus lugares. Cerca de 3 ou 4 permanecem em suas alegres atividades, ignorando deliberadamente a presença do professor.

Disfarçando irritação com polidez, o professor chama nominalmente cada um dos "cavalheiros", pedindo que tomem seus respectivos lugares. Fingem que não ouvem, atendendo apenas ao terceiro ou quarto convite.

Agora, todos estão sentados, mas a maioria fala pelos cotovelos - aos berros. O Mercadão de Madureira ou a Rua da Alfândega costumam ser mais silenciosos. Com 8 anos de experiência, o professor já sabe que a aula de hoje não vai render. No início da carreira, ele tentaria dialogar com os alunos, pedir colaboração e até berrar ou dar um tapa na mesa. Mas agora ele já sabe que nada disso funciona.

Partindo para o Plano B, ele adianta a matéria, enchendo o quadro. Com sorte, na semana que vem eles estarão mais calmos, e então será possível explicar alguma coisa.

O professor gosta de propor atividades criativas, que envolvam expressão e desenvolvimento de opinião, que fomentem uma postura autônoma. No passado, ele já conseguiu fazer isso com muitas turmas, mas a cada ano ele encontra menos turmas minimamente interessadas por esse tipo de atividade. Em outra semana, ele pedira à turma que elaborasse uma história em quadrinhos sobre João Cândido e a Revolta da Chibata, mas a maioria dos alunos preferiu passar a aula inteira sem fazer nada, mesmo quando o professor lhes lembrou que a nota correspondente seria importante para a média bimestral.

Sobram o cuspe e o "giz" (caneta Pilot, na verdade). Os poucos alunos interessados copiam a matéria. O professor lembra aos demais que vai dar visto e ponto para a cópia - continuam indiferentes: "daqui a pouco eu copio".

Hora do recreio. Todos descem.

Um aluno se demora. O professor já o conhece há alguns anos. Ele era terrível no 6º ano! Já deveria estar no Ensino Médio. Sorri:

-E aí, João! Tá mais calmo esse ano, hein?

-Tô amadurecendo, Professor. Tem que tomar jeito...

-Isso aí! Antes tarde do que nunca!

Sorriem.

Uma alma (apenas uma) está saindo do purgatório...

COLONIZADO

sábado, 23 de abril de 2016

Ressacas da semana

Reza a lenda que Xerxes mandou aplicar 300 chicotadas ao mar por derrubar a ponte que ele construía sobre o Bósforo. Quase 2500 anos depois, estamos prestes a ver Eduardo Paes fazer coisa parecida. Ainda segundo a lenda, Poseidon se vingou enviando 300 bravos guerreiros espartanos ao desfiladeiro de Termópilas. No Rio, seremos 300 mil.
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Alguns abusos retóricos beiram a perversão. Me parece o caso do slogan "não vai ter golpe", decalcado sobre o "não vai ter Copa" de 2013 e 2014. Para quem esqueceu, o slogan do governo na época era "essa será a Copa das Copas"; de fato, combinaria mais com a estética grandiloquente do PT algo como "esse será o golpe dos golpes"...
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Só para constar: a Furacão 2000 é uma empresa milionária, com interesses políticos próprios, já tendo inclusive emplacado vários mandatos no Legislativo. O "povão" é uma miragem cujas oscilações confundem facilmente os intelectuais, movidos talvez por um desejo inconsciente e narcisista de autoilusão...

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Famílias tradicionais

Acabo de escrever o texto abaixo como consultoria para uma revista infantil, respondendo à pergunta de um leitor de oito aninhos!

Como surgiu a primeira família do mundo?

É impossível saber qual foi a primeira família do mundo, pois as primeiras sociedades humanas ainda não haviam inventado a escrita. Na verdade, como os bebês humanos nascem muito frágeis, na maioria dos lugares e épocas os grupos de seres humanos se organizaram de diferentes maneiras para cuidar das crianças. Existem e existiram muito modelos de família, como a monogamia (onde há uma esposa e um marido), poligamia (várias esposas e um marido) ou poliandria (vários maridos e uma esposa). Em algumas culturas da África e da Oceania, o tio e a mãe são responsáveis pela educação das crianças, enquanto o pai tem pouquíssima autoridade sobre os filhos. Na Roma e na Grécia arcaicas os pais mandavam nos filhos mesmo depois de adultos e até podiam vendê-los como escravos, se quisessem! A maioria das mitologias e religiões possuem um "primeiro casal", fundador da humanidade. No caso das religiões cristãs, a Bíblia diz que Adão e Eva foram os primeiros humanos, pais dos "brigões" Abel e Caim.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Muros

A tragédia brasileira é que andamos sempre perdidos entre o ódio à política e a política do ódio.

Como socialista, fico sempre chocado em ver como certas parcelas das esquerdas flertam com a intolerância e o autoritarismo.

A diversidade de retóricas, discursos e perspectivas é essencial à democracia. O binário "só existem dois lados" só pode levar ao sufocamento da pluralidade e ao enfraquecimento do diálogo, em benefício de oportunismos partidários.

O "desce do muro" fica mais perto da guerra que da política.

É muito mais difícil se equilibrar "em cima do muro", mas talvez se enxergue mais longe. Tudo tem seu preço. Precisamos, todavia, entender que há quem prefira "escolher um lado" simplesmente porque não se aguenta em pé sem a estabilidade do chão - não todos, é claro. Por sinal, se está sempre mais estável de joelhos, como os crentes, ou deitado, como os mortos. Apenas a morte ou a crença cega trazem certezas absolutas nessa vida.

Vida, morte e política

Acabo de sepultar meu tio-avô, um grande homem que enfrentou com dignidade todas as durezas e rudezas da vida. Nessa semana de paixões políticas desenfreadas, um encontro com o grande absoluto da morte me lembra quão pequena é a "grandiosidade" da política. A morte põe tudo em perspectiva. Antes de romper com seus amigos e familiares por causa de política ou políticos, lembre que a longo prazo todos estaremos mortos. TODOS.

domingo, 17 de abril de 2016

Notas sobre a noite de hoje (17 de abril de 2016)

"Pelo meu curral eleitoral, voto sim".
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As falas são de uma mediocridade assustadora. Somos governados por uma manada de idiotas E/OU hipócritas...
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Os figurinos e atuações também são dignos de [porno?]chanchada...
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O "sim" já ganhou. Alguém já tem uma manifestação contra o Temer aí?
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Vejamos pelo lado bom: em breve estaremos unidos contra Temer e Cunha!
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Gente, eu não sabia que o Nhonho era deputado federal...
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As falas do PT são medíocres, mas pelo menos são coerentes.
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Pelo menos é mais engraçado que o filme do Pelé...
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Chico Alencar me representa.
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Pobre Luther King, sendo citado por Ezequiel Teixeira...
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Daqui a pouco vem o Pedro Paulo. Esse não vai perder uma oportunidade de bater na Dilma...
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Nosso congresso é uma gaiola de hienas... Ainda bem que Cunha não assistiu "O Rei Leão".
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O voto do Cabral filhote é o resumo de anos de "pacto de governabilidade". Dilma ficou calada em 2013 por nada...
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Não é golpe, mas é uma baita farsa, em todos os sentidos. Um congresso picaresco.
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O PT alimentou os chacais em vão. Aqui acabam 13 anos de "governabilidade" comprada a peso de ouro. O PT vendeu a alma, e agora o Diabo veio buscar. E quem já está no inferno somos nós. E nem adianta "abraçar o capeta".
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Pelo menos a Porta dos Fundos vai fazer uma sátira bacana...
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Estou analisando uma gravura do século XVI onde um tupinambá, aparentemente, sorri e cumprimenta o espectador: "Estou muito bem". Irônico, né? Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, "no Brasil, todo mundo é índio"...
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Todas essas homenagens familiares me lembram Gilberto Freyre, em "Casa Grande & Senzala". E o homem cordial de Sérgio Buarque também vai bem, obrigado.
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Por sinal, não se iludam. A briga que está acontecendo em Brasília não é ENTRE a casa grande e a senzala. São apenas as pessoas da casa grande brigando para decidir o que fazer conosco (a senzala).
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A verdadeira luta popular está para começar. Contra O PMDB, luto até ao lado do PT.
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Achei que o Jean Wyllis podia ter evitado aquela cusparada, mas convenhamos que hoje o Bolsonaro cuspiu na cara do gênero humano inteiro...

Love is all you need

Independentemente de seus posicionamentos e dos resultados políticos do dia de amanhã, não desmanche amizades ou brigue com familiares.

Todo mundo tem "certeza" de que está "certo", mas democracia não se faz com ódio.

E, no fim das contas, odiar alguém porque está "errado", me parece errado pra caramba.

sábado, 16 de abril de 2016

É GOLPE ou não é?!

Nunca fui petista, mas já votei inúmeras vezes no PT. O PT no qual votei não existe mais; me pergunto até se ele realmente existiu algum dia. 

Quanto ao impeachment, sou contra, não acho que seja bom para o Brasil. Gostaria de ver o PT derrotado em 2018, mas não torço para que seja derrubado em 2016, principalmente em favor de Temer & cia. 

Todavia, confesso que a retórica do "golpe" AINDA não me convenceu. Os argumentos jurídicos de AMBAS as partes me parecem excessivamente escorados em tecnicalidades jurídicas escorregadias. Por via das dúvidas, acho que o impeachment deveria ser evitado, mas não sei dizer se o rótulo de "golpe" é adequado. 

Por sinal, penso nos "coups de majesté" assinalados por historiadores do antigo regime francês e me pergunto se não caberia falar em diversos "golpes de majestade" efetuados pelo governo nos últimos anos, desde as traições aos movimentos sociais. 

Em 2014 vi amigos e conhecidos sendo perseguidos às vésperas da final da copa. Passei um fim de semana inteiro esperando a hora que a polícia bateria à minha porta, pelo "crime" de fazer greve. Tudo arquitetado sob a batuta do poder fluminense. Naquela semana aguardei - em vão - que o PT e suas lideranças se pronunciassem "em defesa da democracia". Poucos dias antes, por sinal, fora descontado ilegalmente por participar da greve da SME. Recebi apenas R$ 48,00; alguns colegas receberam centavos. Me lembro MUITO bem em quais palanques Lula andou nas eleições de 2009 e 2012. Mais uma vez, o Partido "dos Trabalhadores" permaneceu calado. 

Naquela semana fomos espancados em nossos direitos civis, duramente "golpeados" sob o olhar complacente de Dilma, Lula e PT. 

E o "massacre da Cinelândia", em 2013?!

E Belo Monte? Repito: E Belo Monte?

E BELO MONTE?!

Como bem sabiam os pensadores da Idade Moderna, a tirania pode muitas vezes se travestir de legalidade. Os tiranos de todos os partidos usam a legalidade sempre que possível, e recorrem à ilegalidade sempre que necessário. 

Não apoio nem desejo o impeachment, mas não me sinto minimamente comovido ou convencido a gritar "não vai ter golpe"

Talvez eu me arrependa futuramente; agora, não: o PT me deu ótimos e abundantes motivos para NÃO defendê-lo.

En attendant

Aluna: Quem o senhor está esperando?

Eu [em tom soturno]: A MORTE.

Aluna [de olhos arregalados]: A morte de quem?

Eu: A minha.

Aluna: Cruz credo!

A longo prazo, todos estaremos mortos. Só queria descansar em paz um pouquinho ANTES da dita cuja chegar...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A queda do PT - e do PMDB?

Me parece que a grande tragédia do PT foi ter virado as costas às reivindicações populares de 2013 e 2014, preferindo se manter fiel a seus velhos "pactos de governabilidade".

Talvez tivessem caído nas eleições de 2014, mas ao menos teriam caído com honra.

Com impeachment em 2016 ou derrota eleitoral em 2018, me parece que só resta agora ao PT um lento e desonroso afundar na lama.

Triste fim para um partido que já foi relevante e que em alguns momentos contou com meu voto...

 Tenhamos ao menos esperança de que o PT arraste o PMDB consigo em sua queda, finalmente derrubando essa relíquia da Ditadura.

COM OU SEM IMPEACHMENT, ESTAMOS FRITOS

Com ou sem impeachment, estamos fritos.

Com ou sem impeachment, temos o dever de juntar os cacos de nossa república, começar a reconstruir tudo que se desmantelou nos últimos anos e construir tudo aquilo que já deveria ter sido feito há muito tempo.

Continuo socialista demais para defender o PT, mesmo nessa conjuntura que se apresenta. Pode me chamar de intransigente ou ingênuo, se quiser.

Se houver impeachment, continuarei nas ruas contra o PMDB. Se não houver impeachment, continuarei nas ruas contra o PT.

Essa hidra tem duas cabeças, e quero ver ambas cortadas.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Belo Monte e os "golpes"

"Belo Monte é um monumento que expõe as contradições tanto dos que gritam 'contra a corrupção' e 'pelo impeachment de Dilma Rousseff' – quanto dos que gritam 'em defesa da democracia' e 'contra o golpe'. Em Belo Monte, pouca gente não tem sangue nas mãos. [...] Por que tão poucos se indignaram? Quem denuncia um golpe contra a democracia precisa enfrentar essa pergunta".
 
A coluna de Eliane Brum essa semana é uma ilha de sofisticação e sinceridade em nosso agitado mar de mediocridade e hipocrisia, lembrando as inúmeras contradições que permeiam o atual  debate político. Imperdível: O que Belo Monte delata sobre todos os lados.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Grandes mudanças a caminho!

A Oficina de Clio completou 5 anos em março, com quase 30 mil visitas. O blog passará por grandes mudanças - em breve. Aguarde!!!