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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Religião X espiritualidade: entre o dogma e a libertação

Extrato do livro Deus - Sua história na epopeia humana, do filósofo Frédéric Lenoir

"Com o período axial podemos falar verdadeiramente de espiritualidade. Como vimos, a religião liga [em francês, lie, "amarra"]. Ela reúne os seres humanos através de uma crença coletiva num invisível que os ultrapassa. Por isso, Régis Debray utiliza muito adequadamente o termo 'comunhões humanas' para falar de religiões. Inicialmente, porém, eu diria que a espiritualidade, a busca pessoal do espírito, desliga [em francês, délie, "desamarra"]. Ela liberta o indivíduo de tudo o que o prende e o aprisiona em visões errôneas: ignorância, a priorismos, preconceitos etc, mas ela também o liberta do grupo. Ela o liberta do peso da tradição, do coletivo, para levá-lo a si mesmo, à sua verdade interior. Em seguida, se a espiritualidade começa desligando o indivíduo, ela tem como fim último ligá-lo de maneira justa aos outros. Dito de outra forma, a espiritualidade desliga para melhor ligar; ela liberta o indivíduo para ensiná-lo a amar. Uma espiritualidade que deságua na indiferença ou no desprezo pelos outros não tem nada de autêntico. É uma neurose que oferece o espiritual como álibi.

Todas essas correntes de sabedoria e espiritualidade que nascem durante o primeiro milênio de nossa era têm como objetivo permitir que o indivíduo seja de maneira plena, desenvolvendo a parte divina ou transcendente que o habita. De fato, o indivíduo se emancipa em grande parte dos rituais e das crenças coletivas para ter acesso direto ao divino ou ao Absoluto. Pelo viés da razão, da experiência interior, da oração, da meditação, ele procura a verdade. Essa busca interior e pessoal frequentemente o deixa numa situação ambígua em relação às tradições religiosas que privilegiam o interesse do grupo, do povo, da tribo, da cidade. Assim é que Buda atrai o ódio dos brâmanes cujos ritos sacrificiais inúteis ele denuncia. Sócrates é condenado à morte por impiedade, e Jesus, por ter ameaçado o poder sacerdotal. E seus acusadores não se enganaram: esses três personagens contribuíram enormemente para emancipar o indivíduo da religião dominante. Inicialmente, colocando-o numa relação direta com Deus, o Absoluto, ou o princípio divino. Pela oração  (Jesus), a filosofia (Sócrates) ou a meditação (Buda), o homem pode operar sua salvação sem passar pelos ritos sacrificiais pregados pela tradição. Em seguida, o ensinamento deles rompe com o caráter aristocrático das sociedades tradicionais. Para eles, não há diferença fundamental entre os seres humanos. Todos: ricos ou pobres, escravos ou homens livres, homens ou mulheres podem ascender à libertação ou à salvação. Não há mais hierarquia, casta, povo eleito. Todos os seres humanos são iguais porque todos possuem uma alma imortal que lhes permite desenvolver uma vida espiritual que os torna livres. A partir daí, a nobreza da alma importa mais do que a nobreza de nascimento. A espiritualidade é radicalmente democrática. Consequentemente, ela enfraquece qualquer instituição religiosa que afirma que a salvação passa pela lei ou pelos rituais coletivos impostos por uma casta privilegiada: a dos sacerdotes. Mesmo que frequentemente nasçam e se desenvolvam no seio de tradições religiosas, as correntes espirituais introduzem uma forte contestação de tais tradições, chegando por vezes até mesmo a produzir cismas, como o budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo ou, no seio mesmo do cristianismo, o protestantismo em relação ao catolicismo. Porque o cristianismo logo se desviou de sua contestação inicial do legalismo religioso para recriar um legalismo e um clericalismo tão pesados quanto o que foi denunciado por Jesus. Assim, há um série de reformas sucessivas, dentre as quais a de Lutero, no século XVI, que pretende se emancipar do poder dos clérigos e do papado para voltar aos principais fundamentos do evangelho: a pobreza, a relação direta com Deus, a igualdade entre todos. Muito antes de Lutero, porém, as ordens religiosas e as correntes místicas permitiram que numerosos cristãos se emancipassem, pela interioridade, do pesado fardo da instituição.

As correntes espirituais que professavam uma ortodoxia doutrinal, criticando simultaneamente o poder ou a corrupção dos clérigos, foram de certo modo assimiladas pela instituição e muitas vezes contribuíram para a reforma interna. Foi o caso das ordens monásticas. É o que vemos com Bernardo e os cistercienses, ou Francisco de Assis e os franciscanos. Mas aqueles que se desviaram do dogma foram erradicados pela Inquisição. É o caso dos cátaros e de numerosos movimentos místicos, como o das beguinas, mulheres adeptas do 'livre espírito'. Lutero também questionará aspectos do dogma, mas, na sua época, a Igreja não tinha mais os meios para lutar contra as correntes contestatárias. Ele foi protegido por um príncipe alemão convencido de suas ideias, que se recusou a entregá-lo ao papa. A Reforma protestante rapidamente conquistou numerosos príncipes e reis, por demais felizes em, desse modo, se libertarem do domínio de Roma. O Renascimento, com a descoberta do humanismo grego, teve um impacto decisivo sobre a religião cristã, redirecionando-a para suas origens que são muito próximas do ideal democrático e da autonomia do sujeito, da libertação do indivíduo em relação ao grupo".

domingo, 15 de novembro de 2015

"Amor", medo e violência

Extrato do artigo "To love and to fear us": Intercultural violence in the English Atlantic, de Melanie Perrault (tradução minha)

"Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII havia três categorias gerais para a justa violência: punição sancionada pelo Estado ou ação militar, ações tomadas em defesa dos padrões da comunidade (inclusive hierarquias sociais, econômicas ou de gênero), e violência em nome da religião. Obviamente, tanto os perpetrados quanto as vítimas de violência buscavam construir relatos de comportamento violento em seu favor, apresentando a si mesmos como claros exemplos de Englishness e seus oponentes como perturbadores da paz. Confrontos físicos rapidamente eram transformados em uma disputa de palavras negociadas numa corte de justiça ou em uma das inúmeras formas de divulgação da palavra impressa. Nessas disputas literárias, os americanos nativos da Virgínia ou da Nova Inglaterra se envontravam decididamente em desvantagem, não tendo a oportunidade de ditar uma resposta escrita livre de um viés inglês.

As categorias mais polêmicas de violência justificável também eram as mais fluidas - enquanto a violência sancionada pelo Estado era facilmente identificável como tal, e a violência religiosa oferecia uma distinção relativamente clara entre o status de insider e outsider, a violência para manutenção dos padrões da comunidade se baseava em um conjunto de hierarquias mutuamente acordado que se encontrava constantemente sob negociação. A questão se qualquer ato individual de violência seria considerado justificável dependia em grande medida da relação entre os participantes. Violência entre iguais, embora desencorajada, era aceita como uma parte natural da condição humana. Violência administrada por uma pessoa de status superior a seus inferiores era tida como um meio necessário de impor as normas sociais, uma responsabilidade que não deveria ser objeto de abusos através de punição excessiva. A forma mais ameaçadora de distúrbio da comunidade envolvia dependentes - criados, filhos ou mulheres - usurpando a posição de seus mestres atacando violentamente seus corpos ou bens.

Num esforço para justificar sua presença no Novo Mundo, a retórica inglesa consignava todos os índios, inclusive homens adultos, ao status de dependente, tornando qualquer ato de violência dos índios uma força potencialmente desestabilizadora com implicações para toda a missão colonial. Uma vez que os nativos americanos entendessem seu adequado papel subordinado nas terras recentemente civilizadas, a violência não seria eliminada, mas seria relegada como um aspecto menos importante da vida. [...]

Para ser legítima, todavia, a violência deveria ser usada apenas como um último recurso e tinha de ser restrita. Quando administrada adequadamente, a violência física deveria supostamente ser recebida como um castigo amoroso, destinado a restaurar a ordem no ambiente doméstico. Violência aleatória ou excessiva não era tolerada, pois minava o legítimo uso da força. Vizinhos monitoravam o comportamento uns dos outros, num esforço para assegurar que punições aceitáveis não deslizariam para o abuso, embora tal regulação informal deixasse oportunidades significativas para maus-tratos. [...]

Era desse contexto que homens e mulheres ingleses atravessaram o Atlântico em meados do século XVI. Atitudes profundamente arraigadas em relação à violência deram forma aos primeiros encontros com povos nativos de diferentes culturas, oferecendo um parâmetro para a classificação dos estranhos e um conjunto de normas para regular as interações. [...] Evidentemente, observadores ingleses acreditavam que eles eram os árbitros definitivos do que constituía violência legítima, tanto para si mesmos quanto para os nativos que eles encontravam".

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Carta do povo Kisedje em repúdio à PEC 215

Reproduzo abaixo:

"Kisêdjê Wê Kupê Re Ajmendo Wikhrõntá 
AIK Associação Indígena Kisêdjê

Nós, povo Kisêdjê, reunidos na assembleia geral da nossa associação, recebemos a notícia que a PEC 215 está avançando. No dia 27 de outubro de 2015, os inimigos dos indígenas e da natureza deram mais um passo. Nós estamos indignados com essa PEC e vamos contar por que somos contra ela.

Se esta Proposta de Emenda Constitucional for aprovada, queremos dizer para todos que a destruição será muito grande, e ela já está começando. As florestas estão acabando, os rios estão secando, em outros lugares a chuva está inundando as cidades. Em São Paulo as pessoas já estão sofrendo sem água. E elas não estão percebendo o que está causando tudo isso. Os brancos estão provocando os espíritos da natureza, estão destruindo todas as florestas e a natureza. E os espíritos não estão gostando disso, e já começaram a se vingar.

Nós indígenas sabemos disso há muito tempo, só agora os cientistas de vocês estão descobrindo essa verdade, chamando de mudança climática. Mas as pessoas que estão ganhando dinheiro com essa destruição não querem dar ouvidos a isso.

Até hoje, nós, povos originários desta terra, existimos, mesmo sem dinheiro, ou exploração da natureza. Sabemos conviver com a natureza, sabemos respeitá-la, sabemos qual árvore podemos derrubar, sabemos quando e como podemos mexer na natureza. Temos que respeitar, porque é a natureza que dá vida para a gente, ela que dá água e comida.

Não estamos preocupados com dinheiro: dinheiro não é peixe nem caça, dinheiro não é agua, não é lugar bom para viver.

Se a natureza se vingar, como o ser humano vai viver, onde seus filhos e netos irão beber água, onde vão plantar sua comida?

Vocês, ruralistas, empresários, políticos evangélicos, precisam enxergar isso, precisam entender que este olhar grande só no dinheiro está acabando com nossas vidas. De todos do planeta.

Esta destruição não é para plantar comida para o povo brasileiro, que ainda sofre com a fome, mas sim para vender soja para outros países, pensando apenas no lucro de poucas pessoas. Sabemos que existe uma lei, que é a constituição federal do Brasil, aprovada em 1988. Também conhecemos a convenção 169 da OIT, que garante a obrigação de consulta aos povos indígenas quando alguma mudança na lei vai nos afetar. Agora os políticos estão ameaçando essas leis maiores, que foram feitas para todos poderem viver bem.

Estamos chamando as pessoas preocupadas com o mundo, os países que já perceberam isso, para se juntar também à nossa luta, porque todos vão sofrer, todos vão sentir.

Queremos mandar um recado para os países que estão comprando esta soja, eles estão financiando problemas para eles mesmos. Mesmo que seja do outro lado do mundo, eles também serão atingidos, porque o planeta é só um.

Os deputados, senadores, prefeitos, vereadores, governadores, fazendeiros, empresários, políticos evangélicos, precisam enxergar isso, precisam considerar nossa manifestação, antes que seja tarde demais. Vocês precisam pensar nos seus filhos, nos seus netos, nos netos deles.

Nós, povos originários dessa terra, vemos que essa lei avançou para ser aprovada. Se os deputados aprovarem e ela chegar no senado, nós vamos entrar em guerra. Antigamente, nós lutávamos com armas. Aprendemos a lutar pacificamente, do seu jeito, com palavras e com papel, mas os políticos não querem nos dar ouvidos. Vamos fazer guerra de verdade, usando todos nossos poderes, nossas armas, nossos corpos. Vamos começar na nossa vizinhança, nas fazendas, nas BRs e nas cidades vizinhas, e não vamos parar. Estamos lutando pela nossa vida, e não vamos morrer sentados.

Presidente Dilma Roussef, não esquecemos da promessa que você fez para os povos indígenas, de que não irá aprovar esta PEC, e fique sabendo que se esta proposta for aprovada você estará declarando guerra contra nós, povos originários e avisamos que estamos preparados para derramar sangue.

Povos originários do Brasil, nós do leste do Xingu- MT, povo Kisêdjê, estamos nos preparando para guerra, se preparem também para enfrentar juntos esta batalha contra PEC 215.

Já houve muitos assassinatos de vários líderes indígenas pelo homem branco. Estamos cansados de lutar pelo papel, não iremos ficar".

domingo, 25 de outubro de 2015

Burocracia da Vingança

Extrato de O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino

"Rambaldo dirigiu-se ao pavilhão da Superintendência para Duelos, Vinganças e Máculas à Honra. Já não se deixava enganar pelas couraças e elmos emplumados: percebia que atrás daquelas mesas as armaduras encerravam homenzinhos mirrados e poeirentos. E se devia agradecer quando havia alguém dentro!

- Com que então, quer vingar seu pai, marquês de Rossiglione, patente de general! Vejamos: para vingar um general, o melhor procedimento é eliminar três majores. Poderíamos indicar-lhes três fáceis e tudo em ordem para você.

-Não me expliquei bem: quem devo matar é Isoarre, o emir. Foi ele em pessoa quem derrubou meu glorioso pai!

-Sim, sim, entendemos, mas você não se iluda porque derrubar um emir não é coisa simples... Quer quatro capitães? Podemos garantir-lhe quatro capitães infiéis durante a manhã. Note que quatro capitães valem um general de exército e seu pai era apenas general de brigada.

-Vou procurar Isoarre e arrancar-lhe as tripas! Ele, e só ele!

-Você vai acabar preso, sem ir ao campo de batalha, pode ter certeza! Reflita um pouco antes de falar! Se criamos obstáculos em relação a Isoarre é porque temos boas razões... Se, por exemplo, o nosso imperador tivesse alguma negociação em curso com Isoarre...

Mas um dos funcionários que até aquele momento mantivera a cabeça enfiada nos mapas levantou-se contente:

-Tudo resolvido! Tudo resolvido! Não é preciso fazer nada. Nada de vingança, nem é preciso! Outro dia, Ulivieri, pensando que seus dois tios haviam morrido em combate, vingou-os! Contudo, eles estavam bêbados debaixo de uma mesa! Acabamos ficando com duas vinganças de tio a mais, uma boa trapalhada. Agora está tudo certo: uma vingança de tio podemos contar como meia vingança de pai; é como se tivéssemos uma vingança de pai completa, já executada.

-Ah, meu pai! - Rambaldo quase tinha um ataque.

-Mas o que tem você?"

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Devaneios sobre igualdade e diversidade

Uma sociedade verdadeiramente igualitária é aquela onde cada pessoa é reconhecida por aquilo que ela tem de único, e onde cada um tem a seu alcance os meios e recursos materiais, intelectuais e afetivos necessários para viver e expressar aquilo que o torna "unicus inter pares".

Uma sociedade realmente igualitária não será aquela onde todos possuírem bens e rendas iguais, mas aquela onde todos tiverem oportunidade de ser quem realmente desejam - ou seja, uma igualdade baseada no ser, e não no ter.

Todavia, isso não constitui um argumento em favor das desigualdades materiais. Essa "igualdade do ser" só pode se tornar uma realidade à medida que se eliminem as graves disparidades sociais que hoje existem e que, no limite, nos pressionam a ser ou fazer aquilo que não desejamos e, muitas vezes, sequer aceitamos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Doutores", cidadãos e "elementos" no Brasil

Extrato de Cidadania no Brasil - O longo caminho, de José Murilo de Carvalho

"A parcela da população que pode contar com a proteção da lei é pequena, mesmo nos grandes centros. Do ponto de vista da garantia dos direitos civis, os cidadãos brasileiros podem ser divididos em classes. Há os de primeira classe, os privilegiados, os 'doutores' que estão acima da lei, que sempre conseguem defender seus interesses pelo poder do dinheiro e do prestígio social. Os 'doutores' são invariavelmente brancos, ricos, bem-vestidos, com formação universitária. São empresários, banqueiros, grandes proprietários rurais e urbanos, políticos, profissionais liberais, altos funcionários. Frequentemente, mantêm vínculos importantes nos negócios, no governo, no próprio Judiciário. Esses vínculos permitem que a lei só funcione em seu benefício. Em um cálculo aproximado, poderiam ser considerados 'doutores' os 8% das famílias que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1996, recebiam mais de 20 salários mínimos. Para eles, as leis não existem ou podem ser dobradas.

Ao lado dessa elite privilegiada, existe uma grande massa de 'cidadãos simples', de segunda classe, que estão sujeitos aos rigores e benefícios da lei. São a classe média modesta, os trabalhadores assalariados com carteira de trabalho assinada, os pequenos funcionários, os pequenos proprietários urbanos e rurais. Podem ser brancos, pardos ou negros, têm educação fundamental completa e o segundo grau, em parte ou todo. Essas pessoas nem sempre têm noção exata de seus direitos, e quando a têm carecem dos meios necessários para os fazer valer, como o acesso aos órgãos e autoridades competentes, e os recursos para custear demandas judiciais. Frequentemente, ficam à mercê da polícia e de outros agentes da lei que definem na prática que direitos serão ou não respeitados. Os 'cidadãos simples' poderiam ser localizados nos 63% das famílias que recebem entre acima de dois a 20 salários mínimos. Para eles, existem os códigos civil e penal, mas aplicados de maneira parcial e incerta.

Finalmente, há os 'elementos' do jargão policial, cidadãos de terceira classe. São a grande população marginal das grandes cidades, trabalhadores urbanos e rurais sem carteira assinada, posseiros, empregadas domésticas, biscateiros, camelôs, menores abandonados, mendigos. São quase invariavelmente pardos ou negros, analfabetos, ou com educação fundamental incompleta. Esses 'elementos' são parte da comunidade política nacional apenas nominalmente. Na prática, ignoram seus direitos civis ou os têm sistematicamente desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo, pela polícia. Não se sentem protegidos pela sociedade e pelas leis. Receiam o contato com agentes da lei, pois a experiência lhes ensinou que ele quase sempre resulta em prejuízo próprio. Alguns optam abertamente pelo desafio à lei e pela criminalidade. Para quantificá-los, os 'elementos' estariam entre os 23% de famílias que recebem até dois salários mínimos. Para eles vale apenas o Código Penal".

Paradoxos da escravidão no Brasil

Extrato de Cidadania no Brasil - O longo caminho, de José Murilo de Carvalho

"O aspecto mais contundente da difusão da propriedade escrava revela-se no fato de que muitos libertos possuíam escravos. Testamentos examinados por Kátia Mattoso mostram que 78% dos libertos da Bahia possuíam escravos. Na Bahia, em Minas Gerais e em outras províncias, dava-se até mesmo o fenômeno extraordinário de escravos possuírem escravos. De acordo com o depoimento de um escravo brasileiro que fugiu para os Estados Unidos, no Brasil 'as pessoas de cor, tão logo tivessem algum poder, escravizariam seus companheiros, da mesma forma que o homem branco'.

Esses dados são perturbadores. Significam que os valores da escravidão eram aceitos por quase toda a sociedade. Mesmo os escravos, embora lutassem pela própria liberdade, embora repudiassem sua escravidão, uma vez libertos admitiam escravizar os outros. Que os senhores achassem normal ou necessária a escravidão, pode entender-se. Que libertos o fizessem, é matéria para reflexão. Tudo indica que os valores da liberdade individual, base dos direitos civis, tão caros à modernidade europeia e aos fundadores da América do Norte, não tinham grande peso no Brasil

[...]

As consequências da escravidão não atingiram apenas os negros. Do ponto de vista que aqui nos interessa - a formação do cidadão -, a escravidão afetou tanto o escravo como o senhor. Se o escravo não desenvolvia a consciência de seus direitos civis, o senhor tampouco o fazia. O senhor não admitia os direitos dos escravos e exigia privilégios para si próprio. Se um estava abaixo da lei, o outro se considerava acima. A libertação dos escravos não trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis mas negada na prática. Ainda hoje, apesar das leis, aos privilégios e arrogância de poucos correspondem o desfavorecimento e a humilhação de muitos".

domingo, 11 de outubro de 2015

Gotas: Politicamente correto, autonomia intelectual e coletividade



Curiosamente, as patrulhas do "politicamente correto" têm me lembrado muito as neuroses da Era Vitoriana, apenas com sinais invertidos. Ou estou enganado? Algum dia escaparemos da "Feira das Vaidades"? Será que em 2015 Freud escreveria algo muito diferente do que escreveu em 1915? Hipocrisias, hipocrisias, sempre hipocrisias...

***

No Brasil, autonomia intelectual está virando (ou sempre foi) uma mercadoria de luxo. As pessoas saem das universidades repetindo seus catecismos de esquerda ou direita, sem entender muito bem o que elas próprias estão falando. Compram suas ideologias em pacotes fechados, selados a vácuo (trocadilho, por favor) pelos "fabricantes". Se você trocar ou alterar as peças do seu produto, perde a garantia. E todo produto, nesse mundo industrializado, já vem devidamente rotulado...

 ***

Normalmente o "coletivo" em que as pessoas pensam induzidas pela guerra é apenas aquele que convém e interessam aos poderosos, senhores das guerras, das armas e das ferramentas de comunicação. Geralmente a "união" proporcionada pela guerra é constituída pela exclusão, e mesmo perseguição das pessoas "de paz". Há um episódio muito significativo nesse sentido: em 1914, um velho senhor francês foi linchado até a morte num café parisiense, no dia em que a França declarou oficialmente sua entrada na I Guerra. O motivo? Ao contrário dos outros, ele não cantou a Marselhesa... O discurso de uma guerra unificadora quase sempre degenera em algum grau de autoritarismo. Vide o Patriot Act dos EUA pós-11/09. Acho que existem maneiras mais eficazes de unir as pessoas: lutando contra a tirania.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Impressões críticas sobre o "Dossiê Educação" da Revista de História da Biblioteca Nacional (Set. 2015)

Podemos, com toda justiça, dizer que a Revista de História da Biblioteca Nacional já entrou para a história da divulgação científica no Brasil, oferecendo ao público uma excelente publicação de haute vulgarisation na área de História. Venho acompanhando com particular interesse a atuação de Rodrigo Elias à frente da revista, cuja excelente equipe vem formulando uma linha editorial cada vez mais sintonizada com a realidade brasileira e visceralmente comprometida com os desafios sociais do tempo presente.

Como o leitor já percebeu, começo soprando, pois pretendo morder logo em seguida. Não obstante, todos os elogios aqui escritos são profundamente sinceros, pois considero elogio coisa muito séria, que nunca deve ser usada de forma leviana. Por outro lado, peço antecipadamente perdão se algum trecho soar demasiadamente indelicado; não tenho intenção de atacar ou deixar ofendida qualquer pessoa mencionada direta ou indiretamente. Todas as críticas aqui articuladas visam apenas contribuir para o debate sobre o papel da educação e dos educadores em uma sociedade que deseja se tornar plenamente democrática. Ressalto que não se trata, de modo algum, de um ataque à redação da revista, mas de uma tentativa de contribuir para a melhora dessa publicação que já é excelente.

Quando soube que a edição de setembro da RHBN traria um dossiê sobre Educação, me senti extremamente empolgado, imaginando discussões bombásticas sobre os males que assolam nossa "Pátria Educadora". Confesso que, ao ter em mãos a dita edição, me senti muito frustrado.

Veja bem, o dossiê traz a excelente qualidade que já se tornou costumeira na RHBN. Mas é apenas isso. E, francamente, isso é muito pouco quando se trata de promover o debate sobre a educação em nosso país.

Individualmente, cada texto mostra grande qualidade. O grande problema é o conjunto composto pelo dossiê. De modo geral, cada artigo trata o problema da educação básica de uma perspectiva olímpica, formando um dossiê morno, escrito de fora, de longe e "de cima". A única e notável exceção é o texto dos colegas Yllan de Mattos e Paulo Cavalcante, ao qual retornarei adiante.

Sem mais delongas, aponto o calcanhar de Aquiles no método de composição do dossiê: entre 13 autores, apenas uma professora de ensino básico foi convidada a contribuir - num artigo a 6 mãos, diga-se de passagem. Tal opção, embora válida, segue e consolida uma triste tendência nos debates sobre educação básica: os profissionais do ramo, os verdadeiros especialistas no tema, que vivenciam cotidianamente a dura e árida realidade da escola pública brasileira, raramente são convidados a opinar sobre um problema que, antes de tudo, é deles, pois lhes pertence muito mais do que a qualquer professor numa cátedra universitária.

Nós temos muito a dizer, mas somos cotidianamente usurpados em nosso direito e em nosso dever de participar dos debates públicos sobre nosso sistema educacional. Por melhores que fossem suas intenções originais, o dossiê em apreço participa de e contribui para esse processo de usurpação da palavra e da voz do professor do ensino básico, confinado ao tenso silêncio das salas de professores. Somos sempre tratados por governantes e professores universitários como objeto de um discurso, mas nunca como parceiros de um diálogo, e menos ainda como sujeitos de uma prática ou autores de uma reflexão.

Ao que percebo, essa postura condescendente é menos fruto de um posicionamento consciente que de um acervo de atitudes inconscientes, que emerge talvez da própria constituição do sistema educacional brasileiro e das dinâmicas históricas através das quais esse sistema se constituiu.

Esse olhar condescendente se manifesta e perpetua de maneiras sutis e normalmente difíceis de perceber, uma vez que é um não-dito e, provavelmente, um não-admitido. O dossiê em apreço me parece um bom exemplo desse olhar inconsciente; por isso mesmo, é importante e necessário traçar reflexões como a que proponho aqui.

Outros exemplos talvez ajudem a perceber os modos de reprodução dessa atitude. É o caso dos eventos de capacitação organizados pelas redes públicas de educação básica: os "especialistas" convidados costumam vir de fora das redes, preferencialmente das universidades, mesmo quando haja profissionais de dentro - doutores, até - plenamente capazes de dinamizar tais eventos de modo horizontal. No entanto, parece, o saber precisa ser transmitido de modo vertical, de cima para baixo, da universidade para a escola. Os professores universitários devem dizer aquilo que os professores do ensino básico devem ouvir, tal como no bem intencionado dossiê a universidade escreve o que a escola e a sociedade devem ler.

Cito algumas experiências pessoais bastante significativas nesse sentido. Certa vez, um artigo meu foi aceito para publicação, mas durante o processo de revisão minha experiência profissional no ensino básico foi eliminada de meu mini-currículo, enquanto menções a meus livros publicados e condição de doutorANDO foram deixados intocados. Precisei solicitar formalmente a correção.

Outro exemplo, mais eloquente porque frequente: nas diversas ocasiões em que fui convidado a falar em meios de comunicação ou em eventos acadêmicos, também minha condição de professor do ensino básico foi escamoteada em favor de aspectos mais prestigiosos de meu currículo. Essa prática sempre me incomodou. Em certo seminário, já "cascudo" com essas omissões, solicitei previamente à presidente da mesa, professora que muito estimo, que ao me apresentar se lembrasse de mencionar minha atuação no ensino básico. Ela concordou, mas na hora H, se esqueceu.

Não se trata de situação acontecida uma ou duas vezes. É algo muito frequente, com raríssimas e muito honrosas exceções. Já ouvi queixas semelhantes de outros colegas, igualmente acadêmicos do ensino básico. Acredito que se trate de um lapso. No entanto, como dizia Freud, os lapsos costumam revelar nossas tendências e convicções mais íntimas, aquelas que ocultamos até de nós mesmos. Um lapso repetido constantemente, por várias pessoas, em várias situações e ocasiões não é, por certo, um lapso fortuito ou inocente; é uma erupção derivada de um sistema de valores e práticas que se expressa involuntariamente. Isso, é claro, explicando a situação de modo mais generoso, sem recorrer à pura e simples arrogância ou a algum senso de superioridade intelectual.

Tudo isso contribui para a existência de uma "intelectualidade invisível": o exercício intelectual e acadêmico do professor de ensino básico se torna oculto pelo simples fato de que sua produção acadêmica, quando ganha algum destaque, é sistematicamente desvinculada e dissociada de sua carreira como professor do ensino básico. Ele é aceito na academia sob a condição tácita de ocultar essa derrogatória mancha - um pouco como os nobilitados do Antigo Regime tentavam esquecer seus antepassados de ofícios manuais. Aliás, quando um professor do ensino básico é promovido ao "andar de cima", seu passado no "andar de baixo" deve ser esquecido, relegado a um canto obscuro de seu Lattes. Isso quando o próprio professor em ascensão não apaga do Lattes esses passos desagradáveis de sua carreira - sim, isso existe, e o Google prova...

Que diria Paulo Freire disso tudo?

Tal questionamento nos remete ao artigo de Yllan de Mattos e Paulo Cavalcante, de longe o mais clara e firmemente posicionado no dossiê da RHBN, de maior alcance e relevância para os debates atuais sobre educação em nosso país. Remeto o leitor ao próprio artigo, sobre os recentes ataques à figura de Paulo Freire e à suposta doutrinação ideológica nas escolas; pretendo apenas usar o mencionado artigo como fulcro para algumas reflexões, não sei se acertadas ou equivocadas. Peço a Yllan e Paulo que me corrijam, se julgarem necessário.

Em primeiro lugar, quero crer que a contribuição dos dois professores tenha tão amplo alcance justamente pelo fato de que ambos possuem ampla experiência no ensino básico - ou seja, eles falam de uma realidade não apenas estudada, mas vivida.

Em segundo lugar, ressalto que os dois não são especialistas na obra freireana ou em história da educação. Ambos possuem expertise acadêmica em História Moderna. Assim sendo, me parece que o vigor e o frescor de seu artigo não reside num raciocínio ex catedra, mas de uma leitura atenta de Freire iluminada por suas respectivas experiências no ensino básico.

Por fim, ressalto que o mini-currículo anexo ao artigo menciona suas respectivas posições no sistema acadêmico-universitário, mas não suas carreiras pregressas no ensino básico - justamente as coordenadas que me parecem mais relevantes para a devida contextualização do texto em questão. Tudo isso, creio, reforça meu argumento sobre os processos através dos quais temos uma "intelectualidade invisível" no ensino básico.

Por último, entro no problema mais "pontudo" do dossiê. Como ressaltei, apenas uma professora do ensino básico foi convidada (em artigo a 6 mãos, insisto), mas há um texto assinado por Helena Bomeny, Secretária de Educação da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Até aí, nenhum problema - considero, na verdade, muito saudável que haja espaço para a pluralidade nesse debate; é mesmo necessário para a democracia. Não pretendo discutir os méritos ou deméritos do artigo de Bomeny, mas desejo ressaltar a assimetria na composição do dossiê, que concede um espaço virtualmente nulo à voz dos professores do ensino básico, mas confere uma posição destacada a uma agente de nível central do governo. Não se concedeu voz ou palavra àqueles constantemente condenados ao silêncio, mas se ofereceu espaço a alguém que já goza de considerável poder político e de grande facilidade para se expressar nos veículos midiáticos, inclusive nas mídias de massa. É muito mais fácil ver Helena Bomeny falando por vários minutos no RJTV do que encontrar um mísero parágrafo com as opiniões de um professor do município do Rio na mídia impressa carioca. A opção da redação da RHBN, embora válida e aceitável, contribui para a manutenção de uma profunda assimetria, participando da tendência geral nesses debates, dando destaque à opinião de governantes e especialistas universitários, mais uma vez relegando a segundo plano as perspectivas daqueles que estão na linha de frente das batalhas educacionais de nosso tempo.

Concluindo, apesar da indiscutível qualidade acadêmica, o dossiê da RHBN configura uma oportunidade perdida de diálogo com aqueles que têm muito a dizer e que pouco são ouvidos. Enquanto não for concedido ao professor da educação básica um espaço de fala satisfatório, só seremos capazes de produzir dossiês como esse, que "lattes, mas não morde". Quem sabe numa próxima edição?

sábado, 26 de setembro de 2015

O carpinteiro e as bombas atômicas

Extratos de O visconde partido ao meio, de Italo Calvino:

"Mestre Pedroprego, albardeiro e carpinteiro, foi encarregado de construir a forca: era um trabalhador sério e inteligente, que se empenhava com firmeza em toda obra. Com grande dor, porque dois dos condenados eram parentes dele, construiu uma forca ramificada feito uma árvore, cujas cordas subiam juntas acionadas por um único guindaste; era uma engrenagem tão grande e engenhosa que dava para enforcar de uma só vez mais gente que o grupo condenado, tanto que o visconde aproveitou para enforcar dez gatos alternando com dois réus. Os cadáveres mirrados e as carcaças de gato balançaram durante três dias e no início ninguém aguentava olhar para eles. Mas logo nos demos conta da visão imponente que ofereciam, e até o nosso julgamento se dividia em sentimentos díspares, a ponto de causar desagrado a decisão de retirá-los e desmontar a grande máquina.

[...]

Nessa trágica conjuntura, mestre Pedroprego havia aperfeiçoado bem a sua arte de construir forcas. Tinham se tornado verdadeiras obras-primas de carpintaria e de mecânica, e não só as forcas, mas também os cavaletes, os guindastes e os demais instrumentos de tortura com os quais o visconde Medardo arrancava as confissões dos acusados. Eu ia frequentemente à oficina de Pedroprego, pois era um grande prazer vê-lo trabalhar com tanta habilidade e paixão. Mas uma aflição pesava sempre no coração do albardeiro. O que ele construía eram patíbulos para inocentes. 'Como posso', pensava, 'aceitar construir algo tão engenhoso mas que tenha um objetivo diferente? E quais poderão ser os novos mecanismos que construirei com mais boa vontade?' Mas não obtendo respostas para tais questões, tratava de expulsá-las da mente, esforçando-se em fazer as instalações mais bonitas e engenhosas que podia.

-Tem de esquecer o fim para o qual servirão - dizia também a mim. - Olhe-os só como mecanismos. Vê como são bonitos?

Eu olhava para aquelas arquiteturas de traves, aquele sobe e desce de cordas, aquelas ligações de guindastes e de roldanas, e me esforçava para não ver em cima delas os corpos dilacerados, porém quanto mais me esforçava mais era obrigado a pensar, e dizia a Pedroprego:

-Como posso?

-E eu então, rapaz - replicava ele -, como eu posso?

[...]

E o carpinteiro era assaltado pela dúvida sobre se construir máquinas boas não estaria além das possibilidades humanas, ao passo que as únicas que de fato podiam funcionar com eficácia e exatidão seriam os patíbulos e as torturas.

[...]

O mestre se angustiava:
-Quem sabe esteja em minha alma esta maldade que só me deixa produzir máquinas cruéis? - Entretanto, continuava a inventar, com zelo e habilidade, novos tormentos".

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Rio - Dias de um presente esquecido

Excelente texto do amigo Vinicius Borges:

"Bandido bom é bandido morto!! Mataremos, espancaremos, acobertaremos... Ao mesmo tempo, para que nenhum mal nos ameace novamente, cercaremos as favelas e esterilizaremos todas as mulheres com mais de 15 anos após o nascimento de seus primeiros filhos, que deverão ser devidamente marcados, microchipados e entregues à tutela do estado até que ganhem seu destino como mão-de-obra barata para os cidadãos de bem de nossa cidade. Saciada nossa sede de vingança e com as mãos ainda cobertas de sangue, ajoelharemos em círculos na areia da praia e faremos uma grande oração pela graça alcançada. Pouco tempo depois, transformaremos esse dia, o Dia da Libertação, em feriado municipal. Transmitida ao vivo pelo RJTV, a sessão de votação, iniciada com um culto da bancada da bíblia e encerrada com uma salva de tiros da bancada da bala, se eternizará em nossas memórias e em nossos corações. Pois desse dia em diante, finalmente, o Rio de Janeiro será um bom lugar para se viver..."

domingo, 20 de setembro de 2015

Falácias e sofismas

Todo homem é um estuprador em potencial.

Todo negro é um bandido em potencial.

Todo muçulmano é um terrorista em potencial.

Todo professor é um doutrinador político em potencial.

Todo refugiado é um parasita em potencial.

Todo favelado é um traficante em potencial.

Toda afirmação é uma mentira em potencial.

sábado, 19 de setembro de 2015

Falácias da meritocracia

Oferecido à amiga Lorraine Janis

"Pedreiro que pedalava 42km para estudar se forma em Direito"

O exemplo de vida é respeitável; o que não dá para aturar é o modo como a mídia se apropria desses casos para justificar o ideal meritocrático. Segundo essa lógica, há pessoas que "merecem" viver com um salário mínimo de miséria porque não "quiseram" estudar ou não se "esforçaram" para "conquistar" uma posição "melhor" na vida.

Aliás, a reportagem em questão não discute de maneira crítica quais são as deficiências do sistema público de transporte que fazem com que uma pessoa prefira pedalar 42km para ir à universidade a pagar uma passagem de valor provavelmente exorbitante. Por outro lado, quem não tem dinheiro para pagar a passagem nem disposição ou saúde para pedalar 42km para estudar, deve ser um tremendo preguiçoso que merece mesmo ganhar esse salário mínimo. Por sinal, alguém tem ideia do que é pedalar 42 km? É quase um quarto de etapa do Tour de France ou qualquer outra competição ciclística de alto nível!!! Nenhuma pessoa deveria passar por algo assim para exercer seu direito constitucionalmente garantido de estudar.

Voltando ao problema da meritocracia, todo trabalhador realiza uma atividade útil e importante para a coletividade, e merece ganhar um salário digno. Não há "estudo" ou "esforço" que justifique as disparidades salariais vexaminosas que existem na sociedade brasileira. Adoramos elogiar as sociedades europeias (ocidentais), mas não estamos nem de longe dispostos a pagar o salário de um lixeiro holandês ou a diária cobrada por uma diarista francesa.

Pior ainda, esse tipo de discurso escamoteia o sucateamento do sistema escolar público, transformando o "sucesso" ou o "fracasso" em meros resultados da "força de vontade" individual - como se não existissem salas de aula superlotadas, violência escolar, pressões políticas e até mesmo salariais para aprovação compulsória de alunos (beirando a intimidação), desvalorização salarial e social do professor, falta de profissionais de apoio nas escolas... Etc, etc, etc.

É particularmente irônico enaltecer esse tipo de exemplo num momento em que algumas redes públicas de ensino de nossa Pátria Educadora [sic] cogitam encerrar sumariamente programas de educação de jovens e adultos ou de ensino noturno para cortar despesas.

Em suma, o discurso meritocrático troca a política pelo moralismo individualista, como se as disparidades sociais fossem um problema moral e pessoal, e não uma questão de ordem pública e coletiva.

Vale também questionar o modelo de pessoa "bem sucedida" articulado nesses discursos. Do meu ponto de vista, um faxineiro analfabeto que seja uma boa pessoa, bom amigo, bom filho, bom marido, bom pai, bom vizinho etc é uma pessoa muito bem sucedida (sem aspas) no que realmente importa. Conheço muitos bacharéis, mestres e doutores, bem estudados e remunerados, que são um verdadeiro fracasso humano...

O paraíso por R$ 15,00

Essa semana, ouvindo o primeiro livro de Prelúdios de Débussy, me veio a vívida recordação de um dos momentos mais felizes da minha vida.

Era setembro ou outubro de 2001. Por apenas R$ 15,00 comprei entradas para um recital de piano no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.  Execução integral do primeiro livro de Prelúdios: La fille aux cheveux de lin, Des pas sur la neige, Ce qu`a vu le vent d`ouest, Les collines d`Anacapri, La sérénade interrompue etc. Não lembro quem era o pianista (só caçando o programa no meio da minha bagunça), mas era excelente, daqueles que não apenas executa, mas interpreta.

Era um fim de tarde primaveril. A luz crepuscular atravessava os vitrais do foyer, compondo uma espectral penumbra luminosa. Uma catedral profana. As peças seguiam, me transportando para todos aqueles lugares mágicos sonhados por Débussy. Um desses momentos estranhos em que todos os detalhes casuais parecem delicadamente arranjados.

Me sentia ligeiramente sonolento, entregue, no sentido mais profundo, à fruição da música. Uma experiência única de êxtase contemplativo. O tipo de experiência tão única que não se repete outra vez na vida. Nunca. O gênero de vivência cuja descrição será sempre superficial, e cujo significado profundo será sempre impossível de comunicar. Algo que transcende a expressividade dos poemas, a eloquência das imagens e mesmo, paradoxalmente, o próprio êxtase musical. Naquele dia, eu escutava algo além da música, algo que transcendia e atravessava o próprio Débussy que compusera aquelas peças....

Nenhuma outra execução dos Prelúdios, em qualquer outra luz crepuscular, fosse mesmo um lindo crepúsculo veneziano, me levaria da mesma maneira ao encontro da moça de cabelos de linho, sentir aquele cansaço de um andarilho na neve ou a força arrebatadora do vento do oeste.

Tudo isso por R$ 15,00...

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Cidadão de Bem

O cidadão de bem espanca (supostos) criminosos até a morte.

O cidadão de bem não gosta de arrastão na praia.

O cidadão de bem ataca o ônibus dos "cidadãos de mal".

O cidadão de bem fuma em espaços para não-fumantes.

O cidadão de bem joga guimbas de cigarro na rua.

O cidadão de bem dirige em alta velocidade e reclama da "indústria da multa".

O cidadão de bem avança os sinais.

O cidadão de bem faz bandalha no trânsito.

O cidadão de bem dirige alcoolizada (só para ir "ali pertinho").

O cidadão de bem puxa arma em briga de trânsito.

O cidadão de bem paga a cervejinha do guarda.

O cidadão de bem é trabalhador, mas ameaça as pessoas em qualquer discussão.

O cidadão de bem desrespeita os professores do filho.

O cidadão de bem mexe com as mulheres na rua, tirando as "moças de família".

O cidadão de bem compra DVD pirata.

O cidadão de bem traz muamba de Miami.

O cidadão de bem sonega impostos.

Tendo o cidadão de bem, quem precisa de criminosos?

Desobediência Civil - o que é, para que serve, como funciona

Quando uma lei ou uma autoridade é injusta e atenta contra nossa consciência, ela deve ser desobedecida. Isso é Desobediência Civil.

Henry-David Thoreau (1817-1862), um dos primeiros pensadores da desobediência civil, era radicalmente contrário à escravidão, e pregava que todo cidadão norte-americano que fosse contrário a essa vil instituição tinha o dever moral de desobedecer ao governo e às autoridades que mantinham essa ordem injusta.

Para Thoreau, só existe verdadeira liberdade quando as pessoas botam suas consciências acima das leis e se recusam terminantemente a obedecer cegamente as leis, uma vez que sabemos que, em sua maioria, as leis são elaboradas pelos poderosos, como forma de defender seus interesses. Assim, o exercício da verdadeira cidadania e da democracia plena passa, necessariamente, pela desobediência civil, ou seja, pela firme disposição a não obedecer às injustiças.

A obediência constitui os fundamentos do poder governamental e, em sentido inverso, a desobediência consciente, que se recusa a aceitar ordens injustas e imorais, constitui a base do poder e da soberania do povo. Nesse sentido, a prática da desobediência civil exige sabedoria e reflexão; precisamos saber o que vamos desobedecer, por que vamos desobedecer e como vamos desobedecer.

A desobediência civil se pauta pelo princípio de não-violência, ou seja, a oposição de uma força moral contra a força bruta. Como dizia Gandhi, a verdadeira força da desobediência civil reside na legitimidade e na justiça da causa defendida, assim como na firme decisão de não descer ao mesmo nível que o agressor, respondendo à violência com uma resistência serena, mas inexorável. Do ponto de vista da não-violência, os fins não justificam os meios; pelo contrário, tanto os fins quanto os meios precisam ser justos.

À medida em que a desobediência civil parte de um imperativo de consciência, não são necessárias muitas pessoas para praticá-la. Basta a atitude firme e consciente de uma única pessoa que se recusa a obedecer a ordens injustas. Foi o caso de Rosa Parks, que em 1954 se recusou a obedecer às leis racistas do estado do Alabama, que exigiam que ela cedesse lugar no ônibus aos passageiros brancos. Um gesto simples de desobediência, sem nenhum manifesto grandioso ou discurso eloquente. Rosa Parks foi encarcerada, mas seu gesto de coragem foi o principal estopim para o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, que em apenas 14 anos inspirou milhões de negros a lutar pela igualdade de direitos nos EUA e, nesse período relativamente curto de tempo conseguiu fazer com que fossem extintas todas as leis baseadas na discriminação racial que existiam nos EUA. Não é preciso muito para começar, apenas a força de um exemplo, um único exemplo oferecido por uma pessoa que se recusa a ceder diante da injustiça.



A desobediência civil bota as autoridades diante de um impasse. Só existem três atitudes que o poder instituído pode tomar em relação àquele que desobedece: ignorar, punir ou ceder. No começo, muitas vezes, os gestos de desobediência são simplesmente ignorados.

Depois, quando se tornam incômodos demais, são punidos de diversas formas: agressão verbal, difamação, represálias financeiras (como descontos ou cortes salariais), força bruta (lacrimogênio, spray de pimenta, bala de borracha, cassetete, bala de chumbo etc), encarceramento e, eventualmente, execução. Nessas horas, é difícil se manter fiel ao princípio de não-violência, mas é necessário, caso não desejemos nos tornar algo pior do que aqueles que enfrentamos. É preciso lembrar que aqueles que lutam contra monstros muitas vezes também se tornam monstros, se não tiverem fidelidade a seus princípios. Isso é ainda mais complicado quando consideramos que, às vezes, se faz necessário persistir na resistência firme e não-violenta durante semanas, meses ou até anos. No entanto, como dizia Gandhi, por mais que a violência às vezes pareça rápida, os ódios que ela gera podem se prolongar por décadas ou séculos, criando malefícios que duram muito mais tempo que seus supostos benefícios imediatistas.

Por fim, a desobediência civil eventualmente atinge uma massa crítica em que o número de pessoas unidas pela causa e se torna tão grande e tão forte em sua firme determinação de continuar lutando apesar das represálias, fazendo com que a justiça da causa se torne evidente para todos, que só resta uma alternativa às autoridades injustas: ceder.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A "exquerda" que a direita gosta


Para a "exquerda" (ops, esquerda), a Dilma e/ou o PT sempre estão prestes a executar um brilhante xeque-mate daqui a muitas, muitas, muitas... muitas jogadas...

Os líderes sempre sabem o que fazem, não é verdade? Caso contrário, eles não seriam líderes. O Führer, digo, o líder (eu aqui trocando as línguas, vejam só - deve ser porque eu sou um poliglota elitista da Zona Norte) sempre sabe o que faz.

PMDB? Eduardo Cunha? Alianças estranhas? "Cidadania pelo consumo"? Joaquim Levy? Kátia Abreu? Não, essas coisas não existem, claro que não. Nem pensar! Nem que a vaca tussa! Tudo invenção da imprensa golpista, obviamente, sempre. Apesar da crise. Que crise?

Toda aliança é boa, principalmente quando o líder de infinita sabedoria escolhe. O líder sabe. O líder vê coisas que nós não vemos. Claro que não. O líder sabe que precisa ceder agora, e depois ceder de novo, e então ceder mais um pouquinho - e aí seremos cobertos por aquela gloriosa chuva de bênçãos e conquistas sociais, como o maná que cai dos céus. Porque as soluções sempre vêm de cima. Aleluia!

Os banqueiros gostam do governo? Qual é o problema? Agradar agora é crime?! Você é golpista?! Você é coxinha? Seu golpista! Batedor de panelas de inox! Confesse: você é um racista, homofóbico, que não gosta de ver pobres no aeroporto. Essa é única razão possível para criticar o governo. Não existem outras. Não, não. Você não passa de um cretino preconceituoso que gosta de bater panelas de inox na sua varanda gourmet. Aposto que você é um homem-branco-heterossexual-de-classe-média. Um estuprador em potencial! O seu problema é que você não percebe que esse governo ERRADICOU a miséria em nosso país, excetuando uns poucos mendigos nas grandes cidades. Você não aceita que agora um pobre pode comprar uma televisão de 170 polegadas em 348 parcelas no cartão de crédito. É claro que é isso, só pode ser! Pensa que me engana?!

Somos um país socialista, você ainda não percebeu? É que os líderes são tão espertos que ninguém percebeu ainda a implantação de nosso regime socialista-stalinista-bolivariano-pós-neo-ultra-liberal. Tirando a imprensa golpista.

Na verdade, os líderes são tão estupidamente-puxa-brilhantes que eles manipulam a imprensa golpista, que denuncia de mentirinha o nosso regime socialista-stalinista-bolivariano-pós-neo-ultra-liberal de vanguarda. É tudo um grande teatrinho, seu bobo!

Sábio é o homem que segue seu líder, pois ele é ainda mais sábio. Precisamos do líder para dizer o que é melhor para nós. Amém!

Já tivemos a "Copa das Copas". Em breve, teremos a "Olimpíada das Olimpíadas". Viva! Muda mais! Uau! Puxa! Caramba! Re-uau! Dilmãe!

Ninguém segura esse país. Ele é um país que vai pra frente, devagar e sempre. Ame-o. Ou deixe-o.

Deixe-o, principalmente, se você for da "esquerda que a direita gosta". Deixe-o, se você é um professor de ensino básico, que merece apanhar da PM do Sérgio Cabral, que merece ter seu salário descontado pelo digníssimo prefeito Eduardo Paes. Aqueles, lembra, para os quais o presidente Lula, nosso sapientíssimo salve-salve líder fez campanha eleitoral em 2000 e sempre. Violento é o Beto Richa, apenas. Violência, só do PSDB. Somos UM Rio! Ame-o ou deixe-o.

Cada um recebe o que merece, tirando aqueles que receberam, mas não mereciam, e aqueles que mereciam, mas não receberam.

Brasil. Curta-o, compartilhe-o. Ame-o ou deixe-o. Quem não votou na Dilma, votou no Aécio. É claro!

Em breve, seremos uma PÁTRIA EDUCADORA, talvez até uma pátria educada - pela boa didática do lacrimogênio, do spray de pimenta e do casse-tête (como sou poliglota, prefiro apanhar em bom francês). Vejam os americanos, que amam sua pátria. Eles respeitam sua bandeira. Cada americano é uma bandeira de seu país. A Pátria será educadora, ou não será! Ame a Pátria. Ou deixe-a.

Como dizem os bons camaradas da "vanguarda" sindical, "para ter conquistas, é preciso dar vinte passos atrás, para depois dar mais vinte passos atrás, para depois dar um passo à frente" - ou será que me enganei?! Com passinhos de formiguinha, chegaremos, obviamente, no formigueiro.

O que são 16 anos diante da Eternidade? Tudo virá no tempo de Deus, o Messias está sempre chegando. Para sempre daqui a pouco. A longo prazo, todos estaremos mortos - mas quem se importa? O importante é que temos uma liderança segura, que nos levará ao futuro, onde quer que ele esteja.

Pensando melhor, precisamos cada vez mais de uma "esquerda sem futuro", a esquerda que a direita não gosta...

domingo, 13 de setembro de 2015

Leituras - "O cachorro e seu menino", de Eva Ibbotson

Literatura infanto-juvenil é coisa muito séria. Precisamos oferecer a nossas crianças e jovens obras de boa qualidade, para a formação das pessoas sensíveis e críticas de que nosso mundo tanto necessita.

Nesse sentido, O cachorro e seu menino, da austríaca radicada na Inglaterra Eva Ibbotson, é altamente recomendável, reunindo boa história e escrita sofisticada. A trama é muito simples: Hal é um menino rico, que deseja ardentemente ter um cachorro. No entanto, sua frívola mãe não quer um animal que estrague sua impecável e luxuosa casa. O livro narra as aventuras de Hal para permanecer ao lado de Pintado, seu amigo de quatro patas. A narrativa alterna momentos cômicos, comoventes, melancólicos, irônicos ou ternos, sem jamais pender para o histriônico ou o piegas. Para maiores detalhes, leia o livro!

O que vale destacar aqui é a maestria literária com que Eva Ibbotson desenvolve essa trama tão simples. Com linguagem sutil, delicada e acessível ao público infantil, a autora traça profundas reflexões e críticas sobre a sociedade de consumo e a superficialidade e efemeridade das relações humanas no tempo em que vivemos, sem jamais soar grandiloquente ou entregar ao pequeno leitor uma moral embrulhada para viagem, deixando à criança espaço para pensar por contra própria. Essas críticas são magnificamente conduzidas através dos inúmeros personagens, nobres ou sórdidos, que aparecem ao longo da trama, sempre elaborados de modo convincente, caracterizados através de suas motivações e desejos profundos. A riqueza de caracterização dos personagens quase faz pensar num Tolstói para crianças! Vale também ressaltar que essa postura crítica e irônica da autora jamais se faz de modo cínico, ácido ou mordaz, sempre temperada por boas doses de compaixão, compreensão e bom humor.

Eva Ibbotson faleceu em 2010, aos 85 anos, deixando uma extensa e premiada obra. Fiquei interessadíssimo em conhecer outros livros da autora. Recomendo O cachorro e seu menino para todas as crianças leitoras - inclusive aquela criança que existe dentro de cada adulto!

sábado, 12 de setembro de 2015

Livros queimados e outros atos de barbárie

Extrato do discurso do Capitão Beatty no visionário Fahrenheit 451, clássico de Ray Bradbury, que em 1953 imaginava um futuro onde a função dos bombeiros (firemen) não seria apagar incêndios, mas queimar livros...

"Todo bombeiro, cedo ou tarde, passa por isso. Eles só precisam compreender, saber como as rodas giram. Precisam conhecer a história de nosso ofício. Essa história não é contada para os recrutas, como costumavam fazer. Uma grande lástima. [...] Hoje, só os bombeiros-chefes se lembram disso. [...]

Você pergunta: quando tudo começou, esse nosso trabalho, como surgiu, onde, quando? Bem, eu diria que ele realmente começou por volta de uma coisa chamada Guerra Civil, embora nosso livro de regras afirme que foi mais cedo. O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema, no início do século vinte. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. [...]

E porque tinham massa, ficaram mais simples. [...] Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, aqui, ali, por toda parte. Elas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos, cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. O cinema e o rádio, as revistas e os livros, tudo isso foi nivelado por baixo, está me acompanhando? [...]

Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tablóides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. [...]

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta até o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais. [...]

Acelere o filme, Montag, rápido. Clique, Fotografe, Olhe, Observe, Filme, Aqui, Ali, Depressa, Passe, Suba, Desça, Entre, Saia, Por Quê, Como, Quem, O Quê, Onde, Hein?, Ui! Bum! Tchan! Póin, Pim, Pam, Pum! Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo! [...]

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? [...] O zíper substituiu o botão e o homem não tem muito tempo para pensar ao se vestir pela manhã; uma hora filosófica e, por isso, melancólica. [...] A vida se torna um grande tombo de bunda no chão, Montag; tudo é pum, rá e uau! [...]

Tirar tudo dos teatros, exceto os palhaços, e instalar nas salas paredes de vidro e nelas fazer passar muitas cores alegres, como confetes, sangue, vinho tinto ou branco. Você gosta de beisebol, não gosta, Montag? [...] Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras. A mente bebe cada vez menos. Impaciência. Rodovias cheias de multidões que vão pra cá, pra lá, a toda parte, a parte alguma. Os refugiados da gasolina. Cidades se tornam motéis, as populações em surtos nômades, de um lugar para o outro, acompanhando as fases da lua, vivendo esta noite no quarto onde você dormiu hoje até o meio-dia e eu a noite passada. [...]

Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México. Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de tevê não pretendem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais. Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos. Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever! Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3D, é claro. Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profisssionais.

-Sim, mas onde entras os bombeiros nisso tudo? - perguntou Montag.

-Ah - Beatty inclinou-se, varando a rala névoa de fumaça de seu cachimbo. - Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra "intelectual", é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente "brilhante", era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles, nem por um minuto. E assim, quando as casas finalmente se tornam à prova de fogo, no mundo inteiro [...], já não há mais necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação de nosso compreensível e legítimo senso de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu. [...]

Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos nesse país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão. [...]

Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo. [...]

Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido".

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Esperando a guerra



Extraído de O sentido da vida (1889), de Édouard Rod

Para que agir? Para que empreender o que quer que seja? E como amar os homens, nesta época conturbada na qual o amanhã não é senão uma ameaça? Tudo isso que começamos, nossas ideias que amadurecem, nossas obras vislumbradas, aquele pouco de bem que teríamos podido fazer, não será carregado pela tempestade que se prepara? Por toda parte o terreno treme sob nossos pés, e nosso horizonte vai se cobrindo de nuvens que não nos serão benéficas. [...] A cada dia pensam-se as probabilidades de guerra do amanhã, e elas, dia-a-dia, tornam-se mais cruéis.
O pensamento retrocede diante de uma catástrofe que aparece no pináculo do século como o término do progresso de nossa era e, contudo, é preciso habituar-se: há vinte anos todas as forças do saber exaurem-se para inventar instrumentos de destruição e dentro em pouco bastarão alguns tipos de canhão para abater um exército; colocam-se em armas, não mais, como antes, milhares de pobres-diabos cujo sangue era pago, mas povos inteiros que estão a ponto de se estrangularem mutuamente; rouba-se deles o tempo (obrigando-os a servir), para roubar-lhes mais seguramente a vida; a fim de prepará-los para o massacre, atiça-se seu ódio, persuadindo-os de que são odiados; e homens dóceis deixam-se lograr, e logo se verão atirando-se uns sobre os outros, com ferocidade de bestas, turbas furibundas de pacíficos cidadãos a quem uma ordem inábil colocará nas mãos o fuzil, sabe Deus por que ridículo incidente de fronteira ou por que mercantis interesses coloniais! Marcharão, como ovelhas ao matadouro, mas, sabendo aonde vão, sabendo que deixam suas mulheres, sabendo que seus filhos sofrerão fome, ansiosos e ébrios pelas sonoras e mentirosas palavras trombeteadas em seus ouvidos. Marcharão sem se rebelar, passivos e resignados, enquanto são a massa e a força, e poderiam, se soubessem entender, estabelecer o bom-senso e a fraternidade, em vez das selvagens práticas da diplomacia. Marcharão, tão enganados, tão iludidos, que acreditarão ser o massacre um dever e pedirão a Deus para abençoar seus apetites sanguinários. Marcharão, pisoteando as colheitas que semearam, incendiando as cidades que construíram, com cantos de entusiasmo, com gritos de alegria, com músicas de festa. E seus filhos erigirão estátuas àqueles que melhor tiverem massacrado!
A sorte de toda uma geração depende da hora em que algum fúnebre homem político der o sinal, que será seguido. Sabemos que os melhores de nós serão forçados e que nossa obra será destruída. Sabemos e trememos de cólera, e nada podemos fazer. Ficamos presos na rede dos gabinetes e das papeladas, cuja destruição provocaria uma agitação por demais violenta. Pertencemos às leis que fizemos para nos proteger e que nos oprimem. Nada somos além de objetos dessa contraditória abstração, o Estado, que torna cada indivíduo escravo em nome da vontade de todos, que, tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão obrigados a fazer.
Se a geração que deverá ser sacrificada fosse ao menos apenas uma! Mas existem outros interesses em jogo.
Os oradores assalariados, os ambiciosos aproveitadores das más inclinações das multidões e os pobres de espírito, a quem a sonoridade das palavras engana, têm a tal ponto exacerbado os ódios nacionais que a guerra de amanhã colocará em perigo a existência de toda uma etnia: um dos elementos que constituíram o mundo moderno está ameaçado, aquele que será vencido deverá moralmente desaparecer e, qualquer que seja este, se verá uma força aniquilada [...] Se verá uma Europa nova se formando, sobre tais bases, tão injustas, tão brutais, tão sanguinolentas, embrutecida por tão monstruosa mancha, que não pode ser ainda pior do que a de hoje, mais iníqua, mais bárbara e mais violenta.
Assim, cada qual sente pesar sobre si um imenso desencorajamento. Agitamo-nos num beco sem saída, com fuzis apontados para nós de todos os telhados. Nosso trabalho parece o dos marinheiros que executam a última manobra quando o navio começa a afundar. Nossos prazeres assemelham-se aos do condenado a quem se oferece uma iguaria de seu agrado, quinze minutos antes do suplício. A angústia paralisa nosso pensamento, e o maior esforço que ele é capaz de calcular – soletrando os vagos discursos dos ministros, alterando o sentido das palavras dos soberanos, mudando as palavras atribuídas aos diplomatas e que os jornais divulgam desordenadamente: se será amanhã ou depois de amanhã, neste ano ou no próximo, que nos degolarão. De modo que em vão se buscaria na História uma época mais incerta e mais repleta de angústias...