quarta-feira, 19 de março de 2014

Moda e Arte

Trechos de A linguagem das coisas, de Deyan Sudjic

"Moda não é arte. Mas nunca antes a moda se esforçou tanto para sugerir que poderia ser.

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A pergunta a fazer não é tanto: moda é mesmo design?, mas sim: o que a moda fez com o design? E, aliás: o que fez com a arte, a fotografia e a arquitetura?

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A moda, segundo os puritanos, é o que costumava ser chamado de arte menor. Mas, para o bem ou para o mal, não há nada de menor na moda, que injeta sexo, status e celebridade diretamente na veia. E foi essa combinação que conferiu uma quantidade enorme de poder, tanto financeiro quanto cultural, a seus controladores. Juntando tudo isso, não surpreende que a moda tenha ficado simplesmente muito grande e muito poderosa para ser descartada como um frívola questão secundária. A moda tem a capacidade de apertar todos os botões da vida contemporânea.

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Miuccia Prada usa a linguagem do design de forma mais sofisticada do que muitos de seus  concorrentes. [...] Certamente é provocador, mas no fim não passa de uma tentativa de fazer a Prada se destacar da concorrência para vender mais ternos por mais dinheiro - se bem que uma tentativa baseada na análise dos signos convencionalmente usados para sugerir moda, e em sua inversão".

domingo, 16 de março de 2014

A estranha vida dos ocos

O mundo está cheio de ocos.

Eles constituem 90% da população mundial ou mais. Não espanta: eles são fabricados em massa, produção industrial por maquinário publicitário. A fachada às vezes muda, mas por dentro são todos iguais.

Os ocos são movidos por dinheiro e dívidas; isso faz parte do design, eles são fabricados apenas para consumir, gastar, fazer dívidas e exibir o dinheiro que não têm, do berço ao túmulo, pelo máximo de gerações possíveis. Aliás, não importa o nível de renda, todo oco é endividado, porque nunca há dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos ocos, que brotam a cada novo surto publicitário. Ele não sai do shopping sem uma nova ambição oca; sua droga favorita é o cartão de crédito.

São escravos do pior tipo: pensam que são livres - estamos na era do grilhão virtual.

Os ocos não gostam de pensar, satisfeitos em fazer parte de uma mente coletiva burra. Pensar é um perigo para o oco: ele pode desconfiar que é oco, consome coisas ocas, segue padrões ocos e tem uma cabeça oca. E aí ele tem que optar: muda? Continua oco? E o que pensará o resto da gente oca? Melhor cortar o mal pela raiz, não pensar nunca, ou pensar só pela metade - para ter a ilusão de que pensa alguma coisa. Por sinal, ele pode se lembrar que os ocos não são imortais, que amanhã ele será um oco velho e, depois de amanhã, um oco morto.

Mas no fundo, o oco é apenas um eco de outros ocos, eles vivem para a reverberação mútua e mecânica, para ser o oco dos ecos, o eco dos ocos, o eco do eco do oco dos ocos.

Os ocos mais funcionais são grandes glosadores, sabem imitar com tamanha originalidade que até parecem pensar de verdade.

Mas não confunda. Há ocos em todo canto, no mundo inteiro, em todas as classes sociais, da favela a Manhattan.

Há ocos de todos os níveis de escolaridade, categoria profissional e filiação espiritual: ocos analfabetos, ocos médicos, ocos lixeiros, ocos doutores, ocos evangélicos, ocos espíritas, ocos de direita, ocos bacharéis, ocos professores, ocos pedreiros, ocos engenheiros, ocos católicos, ocos de esquerda, ocos com MBA (e haja oco com MBA - quanto mais oco, mais ele precisa acumular MBAs), ocos artistas, ocos "intelectuais" (também são muitos), etc, etc, etc...

Ocos gostam muito de títulos, que exibem e exigem como rótulo, ajudam a saber o que "pensar" de cada um. Nesse sentido, nada pior que um oco com pós-doutorado.

E quem governa os ocos? Outros ocos, é claro! Ocos gostam de mandar e obedecer, especialmente quando a coerção é suave. Assim oco que manda pode pensar que é bonzinho e oco que obedece pode pensar que é livre. Alguns ocos são políticos, muitos não suportam política, e outros precisam pensar - e dizer, e berrar - que são "politizados".

O oco do século XXI adora viajar, apenas para poder ecoar os clichês de outros oco-turistas investidos de maior autoridade. O oco viajante volta de qualquer lugar com uma renovada bagagem de lugares-comuns, baseados nas quase experiências que tiveram. Ele nunca encontra nada digno de interesse, porque seu olhar já está pronto antes de pisar no aeroporto. Ele já sabe o que vai ver, o que vai dizer do que verá e, principalmente, passará longas horas de sua quase-viagem postando dúzias de fotos dessa quase-aventura, para que todos seus quase-amigos saibam como ele está quase (mas apenas quase) se divertindo. A diversão propriamente dita será quantificada depois, pelo número de curtidas na sua foto.

Mas quem é oco? Eu sou oco. Você também. Não nos enganemos.

Parafraseando Buda, todos somos ocos - só varia a medida. Uns são mais, outros menos; alguns quase totalmente, outros quase nada. Mas podemos ser menos ocos a cada dia que passa...