sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Riquezas e misérias

Interessante comparação entre a vida dos índios da Flórida e dos miseráveis franceses, feita por Marc Lescarbot em sua Histoire de la Nouvelle France, publicada em 1617. Um reflexão bastante atual para nossa sociedade consumista...

"De resto, esses povos são tão felizes em seu modo de vida, que eles não quereriam trocá-lo pelo nosso. E nisto é a condição do povo miúdo daqui tão miserável (deixo de lado a questão da religião) que eles não conseguem nada sem incríveis penas e trabalho, e aqueles têm abundância de tudo que lhes é necessário para viver. Se eles não se vestem em veludo e cetim, a necessidade não jaz aí, antes diria que a cupidez por tais coisas e outras superfluidades que nós desejamos ter são os carrascos de nossa vida. Pois para obter tais coisas, aquele que não tem sequer sua janta, precisa de maravilhosos artifícios, nos quais frequentemente a consciência fica comprometida. Mas ainda alguns sequer têm esses artifícios: pois um deseja trabalhar e não acha de que se ocupar; outro trabalha, e seu labor é ingrato; e daí mil pobrezas entre nós. E entre esses povos todos seriam ricos se eles tivessem a graça de Deus, pois a verdadeira riqueza do mundo, é ter contentamento. A terra e o mar lhes dão abundantemente o que necessitam, o que empregam sem procurar modos temperar as carnes, nem tantos molhos que frequentemente custam mais caro que o próprio peixe. E para tê-los é necessário penar. Que se não têm tantos aparatos quanto nós, por outro lado podem dizer que não temos liberdade para caçar os cervos e outros animais da floresta, como eles; nem esturjões, salmões e mil outros peixes em abundância".

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O advento do puxa-saco virtual

Recentemente tenho constatado a imensa quantidade de funcionários públicos bajuladores nas mais diversas redes sociais, dispostos a tecer os mais rasgados e patéticos elogios a pessoas que ocupam cargos comissionados na administração pública.

É um campo de observação muito interessante para aqueles que estudam a Idade Moderna, revelando curiosas (e desconcertantes) permanências culturais. Tal postura lembra muito a subserviência engendrada pela economia das mercês, embora de modo tão caricato que chega a ser risível.

Aliás, a situação me remete a certo artigo de Bouza Alvaréz a respeito do papel da correspondência epistolar na Idade Moderna para formação de redes clientelares, facultando a aproximação a potenciais benfeitores. Cabe a ressalva de que à época o contexto social era muito diferente do nosso, tornando necessário a pessoas dignas participar de tais engrenagens. Fazia sentido nas monarquias de Antigo Regime; numa república democrática, é mostra de pusilanimidade. Acho lamentável ver funcionários públicos concursados agindo de modo tão servil.

Os meios agora são outros, a bajulação é eletrônica, mas as pessoas sórdidas continuam as mesmas...

Leituras - "O Coronel", de Osmarco Valladão e Manoel Magalhães

Dando um tempo da pauta grevista...

Acabo de ler uma maravilhosa HQ nacional, "O Coronel". Uma grata surpresa - fico muito feliz em ver o recente crescimento na divulgação dos quadrinhos brasileiros. No caso, uma excelente ficção científica, como é raro ver por aqui.

Passada em planetas distantes, a criativa trama traz um inusitado protagonista, o Coronel, uma arma dotada de inteligência artificial, responsável por comandar os soldados que a manejam. Manipulador e inflexível, o equipamento domina cruelmente seus subordinados. A página abaixo é uma das mais interessantes do álbum.



O livro é uma instigante fábula sobre a tecnologia, a violência e o exercício do poder. No entanto, me parece, mais que tudo, um vigoroso alerta contra os perigos da alienação e da obediência cega.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Educação Pública - Eu também tenho um sonho...

Que o reverendo Martin Luther King me perdoe o abuso, mas eu também tenho um sonho!

Eu sonho com uma educação pública de qualidade rasgando estradas para o Brasil do futuro, nos afastando das mazelas do passado.

Sonho com uma escola pública capaz de sanar os males de séculos de colonialismo e escravidão, de latifúndios, patriarcalismo, patrimonialismo e opressão, de tristes violências e amargas desigualdades.

Sonho com uma escola pública onde estudem os filhos de todas as classes sociais, tornando-se um lugar de encontro, troca, e mútua conscientização. Que em cada sala de aula estejam juntos o filho do engenheiro e do peão, do camelô e da advogada, do professor e do gari, da médica e da diarista, do cabo e do coronel. Que juntos consigam ver uns nos outros cidadãos dignos de respeito e solidariedade, lutando unidos por uma sociedade mais justa, harmoniosa e feliz.

Sonho com uma escola pública e laica, capaz de fortalecer um Estado laico e uma sociedade tolerante, composta por cidadãos respeitosos da pluralidade religiosa, sexual, cultural e política.

Sonho com uma escola pública que seja lugar de pesquisa e produção intelectual, formando homens e mulheres inteligentes, questionadores e criativos, formando lideranças positivas para o futuro de nosso país: cientistas, artistas, intelectuais, políticos, empreendedores sociais, sindicalistas, sacerdotes.

Sonho com uma escola pública que forme cidadãos aptos a viver plenamente a aventura da democracia, a fazer escolhas sábias nas urnas e fora delas, prontos a enfrentar todas as lutas políticas do cotidiano, onde as encontrarem.

Sonho com uma escola pública que seja um porto seguro para todos aqueles que enfrentam as mais dolorosas experiências, de violências, negligências e abandonos familiares, capaz de proteger e reerguer esses pequenos cidadãos e suas famílias para um futuro melhor.

Sonho com uma escola pública que forme pessoas comprometidas com a busca de si mesmos, com a realização de seu potencial, com o desejo de ser mais, escapando às sombrias garras do consumismo e da futilidade.

Não é um sonho impossível. É um projeto realizável. Mas para se tornar realidade, precisa do compromisso de todos: educadores e alunos, famílias, governos e demais cidadãos. Enfim, toda a sociedade precisa fazer sua parte.

É uma luta árdua, mas vale a pena, vale todas as penas. E é por isso que seguimos lutando!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Educação e transformação da sociedade - pensamentos

"Quem tem muito pouco, ou quase nada, merece que a escola lhe abra horizontes".
Emília Ferreiro

"Não há democracia efetiva sem um verdadeiro poder crítico".
Pierre Bourdieu

"Se a Educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda".
Paulo Freire

"Na sala de aula, o professor precisa ser um cidadão e um ser humano rebelde".
Florestan Fernandes

"Se não encontrarmos respostas adequadas a todas as questões sobre Educação, continuaremos a forjar almas de escravos em nossos filhos".
Célestin Freinet

"A tendência democrática da escola não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada cidadão possa se tornar governante".
Antonio Gramsci

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre professores e corujas


Repensar e recriar símbolos é sempre útil e necessário.

Um dos símbolos mais difundidos do ofício de professor é, sem dúvida, a coruja. Geralmente pensamos em corujas como aves bonitinhas, fofinhas e graciosas. De fato, o são. Mas há muito escondido sob essa simples aparência.


A relação entre a coruja e o magistério é bastante antiga, derivando do simbolismo em torno de Palas Atena, na Grécia. Como se sabe, um dos principais atributos de Atena é o patronato à sabedoria e à filosofia. A associação entre a deusa e a ave parece ter sido comum desde as mais arcaicas representações da divindade. Por quê?

Provavelmente a assimilação entre o animal e Palas se deve a uma das mais conhecidas características da coruja: ela consegue enxergar na escuridão, devido a uma série de adaptações na morfologia de seus olhos e no funcionamento de seu sistema nervoso central. Quem leu Homero sabe que também Atena recebia constantemente o epíteto de "aquela de olhos glaucos". Não é difícil perceber a analogia entre sabedoria e olhar penetrante, vinculando as duas. Daí ao magistério, vai pouca distância...


No entanto, poucas vezes pensamos no papel da coruja na cadeia alimentar. Corujas são predadores crepusculares e noturnos, temíveis aves de rapina. Há diferenças entre as variadas espécies, mas compartilham alguns traços gerais. Caçam pequenos mamíferos, peixes ou outras aves. Sua fisiologia é particularmente bem preparada para caçar e matar, indo além da visão apurada: sua audição é extremamente precisa; suas asas possuem uma aerodinâmica que permite que se abatam sobre a presa de modo silencioso; a plumagem tem cores discretas, que a camuflam no ambiente; suas garras estão entre as mais potentes das aves de rapina, aptas a esmagar e estraçalhar presas; seu bico funciona como uma tesoura, capaz de destrinchar rapidamente a carne de suas vítimas.


Também Palas Atena tinha caráter guerreiro. Representava sabedoria, mas também coragem e os aspectos estratégicos da guerra. Não à toa era frequentemente retratada armada e encouraçada, pronta para o combate, inspirando os mortais nas lides bélicas. Também aí ave e deusa se confundiam...


Nesse sentido, a coruja e a divindade podem ser símbolos para o magistério em luta, para os professores que "caçam" melhores condições de trabalho, que "batalham" por uma sociedade mais justa. Como corujas, precisamos enxergar na escuridão. Devemos ter ouvidos perspicazes, para denunciar os discursos insidiosos. Precisamos de garras fortes para estrangular a ignorância.

Que nossas palavras, como o bico da coruja, possam rasgar as iniquidades que assolam nossa profissão. Que nossas asas se abram para voar em liberdade, rumo a um futuro mais belo, mais feliz e mais harmonioso...

Seja a coruja nosso totem, símbolo e força!