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domingo, 30 de junho de 2013

Maracanã - Um crime contra o patrimônio cultural da humanidade

Dedicado aos meus queridos adoradores desse templo, Priscila, Caio, Tiago e Vinicius

Não gosto de futebol. Creio que isto só qualifique ainda mais minhas críticas.

Só estive duas vezes no Maracanã: uma vez, em 2001, com meus primos Caio e Alzimar, alvinegros doentes; a outra, em 2007, com minha esposa, vascaína fanática.

Na primeira vez em que pus meus pés no estádio, fui tomado por verdadeiro estupor, ante sua monumentalidade. A rampa, as arcadas, tudo ali parecia construído para uso de gigantes, não de seres humanos. Ao mesmo tempo, não se tratava de um gigantismo genérico, mas que falava de um momento muito específico de nossa história, enquanto país e cidade, assim como da arquitetura contemporânea. Uma grandiosidade rústica, ressoando talvez discursos arquitetônicos que andavam no ar, como o "brutalismo", de Le Corbusier.

Um Maracanã que era monumento das glórias e misérias do nosso país nesse longo século XX. Um estádio que nos falava não apenas da paixão do povo brasileiro pelo futebol, mas também do nacional-desenvolvimentismo pós-Vargas e do ufanismo nacionalista da Ditadura Militar, do crescimento econômico, do desenvolvimento tecnológico e da industrialização de nosso país, assim como das vivas contradições de nossa sociedade, que faziam com que um morador da Mangueira e outro do Leblon pudessem ali estar lado a lado por efêmeros 90 minutos de um domingo, para depois retornarem aos velhos preconceitos na segunda-feira.

Ontem pude ler as sensatas críticas do jogador Arbeloa. De fato, essa já era minha impressão sempre que passava em frente ao estádio durante suas recentes obras. Do trem. então, o panorama era lamentável. Contudo, vou além das críticas do craque espanhol. Não foi apenas um ato de vandalismo contra um estádio mítico e histórico. Não deformaram cruelmente apenas um templo do futebol. Destroçaram uma parte da história do povo brasileiro, apagaram as marcas de um século de nossas lutas e dores por entrar no mundo moderno. Isso ofende a todos nós, não apenas aos aficionados do esporte.

Onde estavam o IPHAN e a UNESCO durante todo esse processo?!

No entanto, o Maracanã continua sendo um monumento, acrescentando mais uma camada de significados e memória. A partir de agora, e por muito tempo, será o monumento das iniquidades cometidas contra o povo do Rio de Janeiro por Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Eike Batista, Fernando Cavendish e tantos outros, sob o olhar conivente da FIFA e de Dilma Rousseff. Um monumento para o futuro, a nos lembrar das violências contra toda a população carioca, das desapropriações criminosas ocorridas em todo o país, das tristes alianças políticas de nossa época, da emergência do Brasil como potência mundial e, mais ironicamente, do momento em que o futebol motivou a conscientização política do povo brasileiro, depois de tantas décadas de uso instrumental para alienação da população...

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Royalties para Educação e Saúde - e agora?!

Após longas discussões, negociações e o blablabla que já conhecemos, a Câmara dos Deputados acabou de aprovar - com alterações - projeto de lei discutindo a aplicação dos royalties do pré-sal à Educação. Ao fim, ficou decidido que 75% dos mesmos serão direcionados à Educação e 25% à Saúde. Também foram aprovadas alterações de caráter financeiro que seria difícil resumir aqui.

Também deve-se acrescentar que até a aprovação definitiva ainda há outros passos; precisamos aguardar ainda as intervenções do Senado e do Judiciário. Creio que ainda teremos que esperar prováveis alterações devido a questões de direito contratual relativas às condições de exploração dos poços. Apesar de tudo, imagino que o futuro do projeto, com maiores ou menores alterações, está garantido.

Trata-se, obviamente, de imensa conquista do povo brasileiro. No entanto, os caminhos da cidadania são longos e tortuosos. Não podemos descansar sobre os louros dessa vitória. A luta por Educação e Saúde de qualidade está apenas começando.

Não podemos esquecer que o dinheiro por si só não resolverá nada. É preciso que haja projetos políticos, acadêmicos, pedagógicos e sanitários consistentes para que esse dinheiro seja realmente bem empregado em iniciativas comprometidas com uma educação libertadora e um sistema de saúde humanizado.

Particularmente no que tange à Educação, essas verbas não podem servir para a compra irresponsável de tablets, notebooks, netbooks e outros tantos equipamentos de rápida obsolescência, servindo a projetos tanto mirabolantes quanto faltos de conteúdo pedagógico realmente inovador.

Não devem servir para o pagamento de subornos morais aos docentes, sustentando "aprovações automáticas" dissimuladas.

Tampouco queremos que sejam empregadas para a imposição de métodos de ensino duvidosos oferecidos por fundações e organizações alheias aos anseios político-pedagógicos daqueles que todos os dias lutam na sala de aula por um Brasil mais consciente e cidadão.

Em suma, não podem ser sequestrados para nossas conhecidas políticas de padronização de métodos e fabricação de resultados falaciosos.

Não podemos ser ingênuos: sem nossa vigilância e participação essas verbas serão empregadas no reforço da educação tecnicista, tecnocrática, burocrática, centralista e autoritária que já conhecemos. Cabe a todos, e principalmente a nós professores, dialogar com as autoridades competentes e, se necessário for, enfrentá-las com garra, criatividade e astúcia. Desejamos destituí-las ou afrontá-las gratuitamente? Não, queremos apenas ser ouvidos.

Precisamos pensar caminhos para nossa atuação docente. Precisamos erguer nossa voz, mostrar nossos anseios e nossos projetos. Somos profissionais da educação, com experiência do cotidiano escolar e formação acadêmica adequada. Por sinal, muitos de nós temos primorosa formação, estudamos em instituições universitárias de prestígio nacional ou internacional, desenvolvemos atividades de pesquisa científica, contribuímos com a produção intelectual de nosso país publicando trabalhos de reconhecida qualidade e detemos títulos que comprovam nossa elevada competência. Infelizmente, nem sempre encontramos condições de trabalho adequadas para dar pleno proveito a nossas consideráveis qualificações. Não somos patetas incapazes, condenados a acatar passivamente as determinações unilaterais do primeiro economista ou burocrata comissionado a um cargo de confiança qualquer. Unidos, podemos e devemos transformar o "Reino de Costintinopla" na "República Unida dos Professores, Diretores, Alunos e Comunidade Escolar"...

Vale a pena tentar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Reforma Política já!

Há 29 anos, o Brasil clamava: "Diretas já"!

Hoje é necessário erguer um novo grito: "Reforma Política já"!

Com Dilma, ou sem Dilma.

Com constituinte ou sem constituinte.

Com ou sem plebiscito, mas de preferência com ele!

Sejamos de direita, esquerda ou centro; sejamos partidários, apartidários ou suprapartidários.

A Reforma Política é o melhor caminho para se transformar essa democracia na autêntica voz do povo brasileiro. Essa voz tem de ecoar de Norte a Sul, de Leste a Oeste, nos campos e nas cidades!

Superando nossas diferenças, ergamos essa bandeira: ela é nossa melhor chance de construir um Brasil melhor nos anos por vir.

A Reforma Política vale muito, muito mais que vinte centavos.

Vamos às ruas apoiar a Reforma Política!

Mostremos ao nosso congresso, a todos os responsáveis pelo Executivo, Legislativo e Judiciário que esse é o nosso desejo.

Que todos eles percebam que nos move um desejo maior: participar ativamente, ter vez, voz e voto nas decisões importantes do nosso país!

Reforma Política já!!!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Greve geral" - opinião e sugestões

Caros amigos,

o evento do Facebook "Greve geral" já conta com milhares de confirmações de participação. Devo dizer que essa proposta me parece completamente equivocada. Muita coisa tem sido dita a respeito do evento e de seu organizador, um tal Felipe Chamone, inclusive acusações de vinculação a partidos e de posicionamentos "fascistas", "direitistas", etc.

Me dei ao trabalho de investigar a situação e, honestamente, acho tais acusações infundadas. Me parece que o proponente do evento é até uma pessoa bem intencionada, mas já pelo texto na comunidade e outras intervenções suas é possível perceber que se trata de pessoa pouca habituada a discussões políticas de qualquer espécie e de opiniões extremamente superficiais e canhestramente formuladas. Diria que mais um dos nossos "chapolins" da hora presente. Não creio que seja pessoa capaz de articular um movimento dessa magnitude de modo competente.

Contudo, deixemos de lado qualquer argumento ad hominem; analisemos o movimento, não a pessoa.

Primeiramente, como se pode ver na própria página do evento, a pauta do evento é um emaranhado mal costurado de propostas vagas e imprecisas. Antes de se fazer uma "greve geral", é preciso pensar muito bem quais são os motivos e as reivindicações em jogo.

Além disso, ir para uma manifestação de rua é uma coisa relativamente simples. Uma greve legítima é algo MUITO diferente. Existe legislação regulamentando os direitos à greve, ou seja, é uma iniciativa que deve corresponder a inúmeros requisitos legais. Digam o que quiserem, vivemos em um Estado de direito e as leis são as regras do jogo democrático. Como bem dizia Gandhi, as leis só devem ser seriamente desrespeitadas quando moralmente afrontosas e iníquas; não é o caso das leis sobre greves, apesar de suas limitações.

Deve-se acrescentar o seguinte: quem determinou quando começa a greve? Quem decidirá quando ela termina? Quem negociará as reivindicações? Junto a que órgãos governamentais ou entidades patronais? O Sr. Felipe Chamone?! Uma greve, em todos os seus aspectos deve ser conduzida através de decisões coletivamente votadas por uma assembleia. É a lei. E todos queremos respeitar as leis, não é? Ou iremos pisoteá-las como certos políticos que tanto criticamos?

Por fim, como já podemos ver, greve é coisa muito séria, e para que qualquer manifestação popular funcione, é necessário um mínimo de pertinência e coerência terminológica e legal. O que está sendo proposto não é uma "greve geral", por todos os motivos citados. Creio que o termo mais adequado seria um "boicote geral" - pois, até onde eu saiba, um boicote não é regido por leis específicas.

Em suma, qualquer iniciativa política é válida, e cabe a cada um decidir se participará ou não. Mas o exercício pleno da cidadania exige maturidade, reflexão e discernimento. Não podemos seguir impensadamente a primeira bandeira que se levanta no horizonte, sob pena de nos tornarmos "cegos conduzindo cegos".

Quanto a mim, "tô fora" dessa "greve geral"!

domingo, 23 de junho de 2013

A composição dos manifestos - uma perspectiva em microescala

Quantidade não é qualidade.

Tenho visto muitas pessoas perdendo tempo em debates esteréis sobre QUANTAS pessoas havia nas ruas do Rio na última semana. Honestamente, considero uma discussão perfeitamente irrelevante para nossas necessidades atuais. Basta dizer que havia MUITÍSSIMAS pessoas, em quantidade significativa e incontornável. A cifra exata, para mais ou para menos, além de impossível de definir precisamente, não nos esclarecerá de modo considerável.

Pelo contrário, creio que seja urgente uma reflexão mais atenta a respeito das forças sociais componentes dessas manifestações, de modo a compreender (um pouco) melhor a resultante que temos visto nas ruas e nas diferentes mídias, incluindo obviamente a Internet e as redes sociais.

Obviamente é impossível definir as motivações de cada um dos milhares que têm participado dessa movimentação. No entanto, devemos refletir sobre a pluralidade que marca essa participação política. Pluralidade muito bem vinda, por sinal. Que fique bem claro, não lamento a falta de clareza atual. No entanto, me parece que sua permanência indefinida levará a um esvaziamento dessas manifestações.

Também deixo claro que não desejo que os participantes se unam em um único discurso e sob uma única bandeira. Antes de tudo, porque seria impossível - sejamos realistas. Em seguida, porque acho muito mais rico politicamente que haja pluralidade e diversidade. Me desagradaria profundamente que surgisse daí alguma ideologia monopolizante, à direita ou à esquerda. Além do mais, qualquer discurso capaz de unificar e agradar a TODOS seria necessariamente um discurso superficial e empobrecido. É importante que em lugar de um movimento único tenhamos muitos movimentos paralelos atuando de modo simultâneo e convergente. Aceitar a diversidade de posturas e opiniões, sem desqualificar ou desmerecer posicionamentos conscientes de qualquer natureza é uma mostra de maturidade democrática. Acho que podemos chegar lá.

Também não quero desvalorizar nossos "Chapolins ideológicos" da hora presente. Acho excelente que pessoas anteriormente despolitizadas se interessem pela vida política de nosso país. Elas não devem ser rechaçadas como um incômodo. Devemos sim dialogar com elas, de modo a promover a educação política de nossa nação. No entanto, evitemos posturas arrogantes. Há pessoas despolitizadas e mal informadas que ainda assim têm pontos de vista muito interessantes e ricos. Devemos ouvi-las e ajudá-las a transformar essas contribuições em algo mais consistente.

Dito isso, vamos à nossa análise da composição dos manifestos. As observações que seguem derivam do que tenho visto e ouvido de pessoas próximas, com que tenho contato diretamente, seja pessoalmente ou por meios eletrônicos. É o espaço amostral de que disponho para análise. Por isso mesmo, trata-se de uma "perspectiva em microescala".

Procurarei aqui identificar não tanto grupos ou categorias de pessoas, classificando-as de modo rígido. Na verdade, quero principalmente identificar um repertório de atitudes. Por sinal, dificilmente alguém enquadrar-se-á numa atitude única, mas em várias. Trata-se de categorias complementares, e não excludentes.

E lá vai nosso repertório:

Os Politizados Partidários - são aqueles que já algum tempo participam de modo ativo da vida política do país, mostrando-se comprometidos com as plataformas políticas de algum partido específico, seja de esquerda ou de direita (sim, porque ser politizado não é sinônimo de ser de esquerda).

Os Politizados Apartidários ou Suprapartidários - são as pessoas que têm o hábito cotidiano de pensar e debater sobre política e possuem posturas conscientes e bem embasadas sobre a vida política do país, sem cultivar vínculos com nenhum partido específico. (OBS: me situaria nessa categoria).

Os Antipartidários - são contrários à própria existência de partidos políticos, de modo um tanto vago. Me parece um fermento político pernicioso, cego à necessidade de pluralidade ideológica.

Os Insatisfeitos - pessoas pouco politizadas e muito irritadas com a situação do país. Querem demonstrar sua insatisfação, mas não apresentam bandeiras muito concretas, e sim um sentimento de descontentamento difuso.

Os Raivosos - mais que insatisfeitos, têm raiva, um ódio visceral aos políticos, à situação do país, etc. Articulam um discurso vingativo e revanchista. Querem ver políticos presos, destituídos, punidos das mais variadas formas. Querem ver o circo pegar fogo.

Os Empolgados - pessoas que nunca ligaram muito para política, céticas em relação a alternativas, mas que agora estão entusiasmadas pela possibilidade de encontrar novas possibilidades e meios de atuação coletiva. É um grupo muito positivo, que pode enriquecer muito a qualidade do movimento.

Os Deslumbrados - têm um olhar um tanto narcisista sobre o movimento, encantados com a quantidade de pessoas, com o povo nas ruas, etc e sentem um orgulho indisfarçável por participar. Apreendem o conjunto da situação sob um viés predominantemente estético: tudo é tão lindo!

Os Festivos - participam como se fosse uma farra, como se estivessem num estádio ou num bloco de carnaval. Vão mais pelo modismo, pela azaração e para postar fotos... O clima desses participantes é um tanto ao estilo "Rock In Rio - Eu vou!"

Os Violentos ideológicos - praticam atos de vandalismo e de depredação por orientação ideológica, baseados em discursos consistentes de revolta armada, revolução pela força, etc. Quem fez graduação em História ou áreas afins conhece o tipo.

Os Violentos indignados - pessoas que adotam atitudes agressivas como forma de explosão raivosa contra o sistema, agindo de modo quase catártico.

Os Criminosos oportunistas - gente que está se aproveitando da situação para saquear lojas ou destruir símbolos de status dos quais se vêm excluídos. Sua atuação tem estreita relação com as pulsões consumistas cotidianamente cultivadas por nossa sociedade.

sábado, 22 de junho de 2013

"V de Vingança" ou "C de Chapolim"?

Dedicado aos amigos Roger Marques e Tiago Ribeiro


As apropriações culturais mais interessantes são quase sempre fruto de manobras criativas e imprevisíveis. É o caso do percurso trilhado pela obra V de Vingança ("V for Vendetta", no original).

A máscara de Guy Fawkes (rebelde inglês do século XVII) durante séculos foi objeto de execração em comemorações anuais na Inglaterra, ao estilo da nossa "malhação do Judas". No início dos anos 80, o quadrinista britânico Alan Moore se apropriou da imagem para a impactante caracterização do personagem V, numa obra que criticava o contexto das reformas neoliberais empreendidas na "Era Thatcher". Cerca de três décadas depois, a máscara de V/Guy Fawkes foi tomada como símbolo de manifestações populares contra o mesmo sistema neoliberal, em sua fase mais avançada, em que os sinais de deterioração sociais decorrentes se tornam nítidos ao redor do mundo. Até onde sei, essa apropriação da imagem começou em Nova York, com o movimento de ocupação em Wall Street. Depois de tímidas aparições em solo brasileiro, chega com toda força a nossas ruas.

Com certeza, Alan Moore deve estar muito satisfeito com essa trajetória. Ouso dizer que Guy Fawkes também, com a eclosão de seu legado simbólico, após tantos séculos.

No entanto, vale observar que muitas pessoas estão usando a imagem de modo um tanto vazio. Provavelmente não leram a história em quadrinhos e talvez nem tenham assistido o filme. Usam a máscara de V, mas articulam discursos totalmente incongruentes com as críticas elaboradas pela obra de Moore. Muitos talvez nem saibam de onde o símbolo saiu. Por outro lado, há aqueles que talvez até tenham lido - usam fantasias completíssimas inclusive - mas apenas balbuciam palavras de ordem banais e propostas superficiais.

Enfim, o que temos visto por aí combina muito pouco com V, personagem coerente, analista preciso da realidade, dono de um discurso orgânico e planejador astuto e sagaz. Enfim, nada a ver com muitos setores que têm frequentado as ruas brasileiras, defendendo plataformas ocas, repetindo bordões e entoando cantorias de significado duvidoso.

Enfim, estão mais perto do desorientado Chapolim Colorado que do metódico V.

Como sabem quase todos que cresceram no Brasil nos anos 80 e 90, o nosso querido herói latino nem sempre age de modo muito consistente. De fato, mete os pés pelas mãos, "esclarecendo" em seguida que seus movimentos são friamente calculados...

Pior ainda, apesar de seus nobres sentimentos, o ingênuo Chapolim é facilmente ludibriado. Pior ainda, o Polegar Vermelho adere a qualquer causa sem pedir maiores esclarecimentos. Em diversos episódios o vemos ajudando cientistas malucos a realizar experimentos inescrupulosos, bandidos a saquear casas, espiões a roubar documentos, e por aí vai... Muita gente tem andado por nossas ruas levantando bandeiras que não sabem exatamente de onde saíram nem aonde querem ir. De fato, não conto com a astúcia dessas pessoas.

Enfim, fica o recado: "Chapolins" de todo o Brasil, fiquem atentos e usem melhor suas anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo - e não colabore com ele!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Impressões sobre a "Revolta dos 20 centavos"

Apenas algumas notas avulsas sobre os recentes acontecimentos:

-É bom ver o pessoal saindo da apatia. Mas não nos enganemos com a força dos números. Havia milhares de pessoas, mas é LITERALMENTE IMPOSSÍVEL saber exatamente com que causas cada um ali estava comprometido. Nesse momento, a euforia é compreensível, mas a reflexão é imprescindível. É preciso pensar com seriedade até onde essa movimentação pode nos levar. Essa efervescência pode nos conduzir a realizações maravilhosas ou a desastres monstruosos. Há que ter esperança, há que ter otimismo, mas a prudência também se faz necessária.
 
-Na hora que corre, mais vale a dúvida sábia que a certeza enganosa.
 
-Seria falacioso pensar em um movimento; na verdade, já se tornou óbvio que existem muitos movimentos diferentes acontecendo em caráter de simultaneidade, operando numa efêmera convergência; por sinal, as linhas de fratura já estão aparentes.
 
-Cuidado com as adesões precipitadas. Como sempre, há manipuladores de plantão prontos para tirar proveito dessa mobilização. Não somos ingênuos o suficiente para duvidar que nesse exato momento inúmeras mentes nos mais variados escalões do governo, nos mais diversos partidos políticos, nos grupos empresariais, nos grupos de comunicação, DENTRO E FORA DO BRASIL, planejando como lidar com a situação presente e como aproveitá-la para atingir suas próprias finalidades (sejam elas quais forem).
 
-Aos que participaram pessoalmente das manifestações, tenham  a sensatez de evitar a postura de donos da verdade e "testemunhas oculares" da História. Num fenômeno dessa magnitude, o que se pode "ver com os próprios olhos" é quase nada. Ninguém, absolutamente ninguém tem como adotar uma perspectiva complexa, completa e abrangente a partir do pouco que viu. Antes de acusarmos A, B ou C de mentirosos, cabe lembrar que cada um só conseguiu ver uma ínfima parte de tudo que estava acontecendo. Como dizia Sócrates, "a verdade não está com os homens, está entre os homens".
 
-A terra está fértil. Agora, precisamos escolher que sementes plantar. É necessário usar criatividade, estudar tenazmente quais são as esferas em que cada um de nós pode dar sua contribuição. A ação precisa ir muito além das ruas. Ela precisa encontrar seus espaços em todas as instituições públicas e privadas. Particularmente nós, servidores públicos, devemos assumir uma postura mais ativa em nossos espaços institucionais de atuação profissional. A boa e velha desobediência civil pode ser um caminho útil. Lembrem-se de Gandhi. Lembrem-se de Luther King. Recusar-se a cumprir ordens iníquas é um bom começo.
 
-Já temos bastante movimento; precisamos agora de mais pensamento. Meditar e agir caminham juntos. Fica o convite para todos os intelectuais brasileiros. Historiadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, linguistas, artistas, jornalistas, contribuam com suas análises, opiniões, questionamentos. Divulguem suas ideias através de todos os meios a seu alcance. Escrevam textos! Façam desenhos! Gravem vídeos! Enfim, se expressem. É hora de semear. Há muitos anos não vemos um momento tão propício para a intelectualidade sair de trás dos muros da academia e dialogar com as multidões. Abandonando velhos ranços, dediquemo-nos ardorosamente às tarefas de educar e divulgar conhecimento.
 
-O império inquestionado da grande mídia acabou. Viva! Contudo, não convém subestimá-la ainda...
 
-As redes sociais e demais ferramentas de comunicação são instrumentos importantes. No entanto, não podemos esquecer por um momento sequer que as organizações que as proporcionam são grupos privados, com donos, acionistas e objetivos próprios. Elas são essenciais agora, mas a longo prazo é necessário pensar em outras alternativas viáveis, em outros canais de convergência.
 
-O diálogo é condição sine qua non para que possamos encontrar novos caminhos. Gritar é bom; conversar é melhor ainda. É necessário saber falar e saber ouvir.
 
-Temos que mudar nosso país, mas também precisamos enxergar dentro de nós mesmos o que precisa ser mudado em benefício da coletividade.
 
-Evitemos posturas maniqueístas. Não há heróis ou vilões, bandidos ou mocinhos. Apenas pessoas. Algumas delas são bem intencionadas. Outras agem de má fé. Algumas são críticas. Outras ingênuas. Algumas sabem o que querem. Outras não. Cada um faça o melhor a seu alcance.
 
-Ante a falta de clareza e a cacofonia de discursos, abster-se de participar das manifestações de rua é uma escolha política mais que válida.

Gandhi ensinando a lidar com as forças opressoras...

"A não-violência não consiste em renunciar a toda luta real contra o mal. A não-violência, tal como eu a concebo, é, ao contrário, uma luta contra o mal ativa e mais real que a da lei de talião, cuja natureza própria é desenvolver, com efeito, a perversidade. Considero que lutar contra o que é imoral pressupõe uma oposição mental e, consequentemente, moral. Busco neutralizar completamente a espada do tirano, não a trocando por um aço melhor, mas iludindo sua expectativa de encontrar em mim uma resistência física. Ele encontrará em mim uma resistência de alma que escapará à sua força. Tal resistência o deslumbrará e o obrigará a inclinar-se. E o fato de inclinar-se não humilhará o agressor, mas o enaltecerá. Podemos dizer que isto seria um estado ideal. E o é!"

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Palavras de Gandhi aos manifestantes do Brasil

"O erro não se torna verdade por se fundir e multiplicar facilmente. Do mesmo modo a verdade não se torna erro pelo fato de ninguém a ver".

"Só podemos vencer o adversário com o amor, nunca com o ódio".

"Unir a mais firme resistência ao mal com a maior benevolência para com o malfeitor. Não existe outro modo de purificar o mundo".

"O método da não-violência pode parecer demorado, muito demorado, mas eu estou convencido de que é o mais rápido".

"Oponho-me à violência pois quando ela parece produzir o bem, tal bem não tem senão resultado transitório, enquanto que o mal produzido é permanente".

(Fonte: Gandhi - O apóstolo da não-violência; Editora Martin Claret)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prometeismo político

Honestamente, ando cansado de tanta polarização descerebrada nos debates atuais.

Seja à "esquerda", "direita" ou ao "centro" há pouca disposição para o diálogo, para o questionamento e, ainda mais importante, para o autoquestionamento.

De fato, creio que seria justamente o autoquestionamento a via para nos tirarmos dessas discussões horizontais e rasteiras, bem como nos livrarmos de tantos rótulos vazios.

Não quero estar à "esquerda".

Tampouco quero estar à "direita".

O "centro" me entedia.

Aceito apenas o Alto, nada menos que o Alto.

Prefiro as dores e dúvidas do Cáucaso às banais "certezas" das planícies...

Semper plus ultra!