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sábado, 30 de junho de 2012

Era uma vez em Lugdunum...

Estivemos ontem em Lugdunum, ou melhor, Lyon! A cidade foi o principal centro administrativo da Gália, durante o período posterior à conquista romana. Sobre a colina de Fourvière (corruptela de "Forum Vetus"), ainda é possível visitar as fabulosas ruínas do assentamento, além do excelente Museu Galo-romano.

A experiência de caminhar ali foi simplesmente indescritível. O melhor que posso fazer nesse sentido é postar algumas fotos... Afinal de contas, uma imagem diz mais que mil palavras!












domingo, 24 de junho de 2012

Aventuras na Bretanha - episódio I: Rennes

Ontem realizei um sonho: visitar a Bretanha francesa - também conhecida como "Pequena Bretanha" na Idade Média, em oposição à "Grã-Bretanha". Aguardava esse momento desde os 15 anos de idade... Meu primeiro "ataque" foi em Rennes, mas já tenho outras incursões programadas! A viagem foi tão emocionante que precisarei dividir o post em partes!

I - Na trilha dos celtas

Como se sabe, a Bretanha é um dos últimos centros de cultura celta ainda viva, especialmente devido à manutenção da língua bretã. Visitar Rennes, especialmente o Musée de Bretagne, foi uma experiência fantástica nesse sentido!

A fabulosa exposição permanente se propõe a apresentar cronologicamente a história da região através de inúmeros artefatos, desde a Pré-história aos dias atuais. Para um apaixonado pela cultura celta, foi uma experiência simplesmente indescrítivel. Particularmente instigante foi a possibilidade de seguir ao fio do tempo as transformações da cultura material na Bretanha e perceber o quanto uma herança celta e galo-romana se constituiu não exatamente através de permanências puras e simples, mas de um constante processo de reinvenção que continua até hoje.

Nesse sentido, o que mais atraiu minha atenção foi justamente observar as peculiaridades da arte bretã medieval, em perspectiva comparativa às obras que pude ver no Louvre. Nunca havia dedicado muita atenção à produção medieval de origem céltica, uma vez que sempre me interessei mais pela cultura celta da antiguidade, pelos "irredutíveis gauleses" contemporâneos de Astérix!

A arte da Bretanha na Idade Média é obviamente muito parecida com o resto da produção europeia da época, mas é nítido que sob as mesmas convergências e convenções estilísticas românicas ou góticas, a arte da região soube manter características perceptivelmente "célticas"; o mesmo vale para as expressões do período romano, com um inconfundível "traço" local. Indo além, encontramos um mesmo meneio céltico na época moderna e na contemporaneidade, particularmente no que diz respeito ao entalhe em madeira. Fiquei particularmente impressionado também com as capas de chuva de pescadores, usadas no século XX, que lembram muito os famosos "genii cuculati" da arte galo-romana.

No fim das contas, fica a dúvida: foi a Bretanha céltica que se apropriou de outras expressões culturais ou as tradições posteriores que se apropriaram de um substrato celta? Me parece que nenhuma das duas formulações dá conta adequadamente dessas longas e complexas interações culturais ao longo de dois mil anos...

Talvez nada sintetize melhor essas questões que essa emblemática combinação heráldica sobre a porta de um edifício do século XVII onde hoje funciona um liceu: o arminho da Bretanha e a Flor-de-lis da monarquia francesa lado a lado, em simétrica equivalência...


II - As impermanências do espaço

Há muito tempo atrás, Rennes era uma cidade murada, como a maioria das aglomerações urbanas europeias. Nessa época, a principal porta da cidade era a "Porte Mordelaise", diante da qual, segundo a tradição, os duques da Bretanha deviam prestar juramento de proteger a liberdade do povo bretão, como parte de sua sagração. Era também através dessa porta que aconteciam as entradas reais e episcopais na cidade, acontecimentos de grande importância para a sociedade de Antigo Regime.

 Porte Mordelaise vista "de fora"
 Porte Mordelaise vista "de fora" (detalhe)
Porte Mordelaise vista "de dentro"

O conjunto das muralhas de Rennes foi obra dos séculos, iniciando-se no século III d.C., com as crises do Império Romano, que tornaram necessárias estruturas de proteção da cidade, vulnerável ante episódios de violência de saqueadores famintos. Ao longo da Idade Média esse complexo defensivo aumentaria gradativamente, até o século XV. Após mais de um milênio de trajetória, as defesas de Rennes em sua máxima extensão contavam com doze portas e dezesseis torres.

No entanto, o desenvolvimento da artilharia pesada e principalmente a união do Ducado da Bretanha à coroa francesa tornaram tais edificações inúteis, sendo demolidas ou simplesmente se desmantelando com o passar dos séculos. Atualmente restam apenas a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne (abaixo).
Também a Tour Duchesne tem uma curiosa história: durante séculos foi local dos jogos de "papegaut" em Rennes. Costume surgido na Idade Média,  esses jogos eram competições de companhias de arqueiros, onde uma ave de madeira ou papelão - o "papegaut" - era afixada no alto de um mastro ou de uma torre. Todos os arqueiros tentavam acertar o alvo, e o primeiro que conseguisse recebia o título de "roy du papegaut" e um prêmio invejável: um ano de isenção de impostos! Posteriormente o costume foi incorporado às companhias de arcabuzeiros, caindo em desuso apenas no século XVIII. Poucas cidades, entretanto, obtinham o "privilège de papegaut".

Como se vê, a porta e a torre não eram lugares ordinários, marcando eventos importantes para a cidade ou para o Ducado da Bretanha, que reforçavam seu prestígio social e importância política. Contudo,  muita coisa mudou... Pedindo informações, ninguém sabia o que era a "Tour Duchesne", ou melhor, ninguém reconhecia o topônimo. A torre tão importante, símbolo de um privilégio da cidade, se tornou apenas uma edificação anônima...

Por outro lado, a experiência de cruzar a Porte Mordelaise me pareceu muita curiosa, por um motivo: ela perdeu completamente seu significado original! Afinal de contas, o ato de passar sob seus arcos significava entrar na cidade, não apenas em seu sentido físico e material, mas também simbólico; significava provavelmente gozar da segurança, do prestígio e do privilégio ligado ao interior da enceinte de Rennes. Não é difícil imaginar o quanto de alívio sentiam as pessoas que adentravam o recinto amuralhado numa época em que a região era infestada por bandos de salteadores que não hesitavam em atacar mesmo próximo às muralhas da cidade!

No presente, a distinção entre "dentro" e "fora" deixou de existir, uma vez que a cidade cresceu e a própria muralha enquanto divisor espacial perdeu seu sentido original. Assim como a ausência "densa" da Bastilha é testemunho de transformações sociais significativas, a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne se tornaram testemunhos da ausência "sutil" de uma relação humana com o espaço urbano que se perdeu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Olhares congelados

Tenho pensado muito sobre janelas.

Sempre fui fanático por elas, devo dizer. Sempre que chego a um ambiente novo, boa parte de minha atenção vai para o que se pode ver através da janela. No entanto, subindo as escadarias de Notre Dame, comecei a me dar conta de algo muito interessante: de certo modo, uma janela é um olhar congelado no tempo...

Precisamente ao ver essa janela, comecei a me perguntar: o que alguém via dessa janela, na Idade Média? De lá para cá, quantas pessoas já pararam aqui para olhar o panorama da cidade de Paris? Mas esse foi apenas o começo de uma reflexão, aprofundada visitando o Chateau de Vincennes.
Bom exemplo são as janelas do "chemin de ronde" (acima), o caminho percorrido pelas sentinelas para vigilância do castelo. Comecei a me questionar não apenas a experiência daqueles que estiveram à janela olhando, mas do processo criativo que produziu a janela a ser olhada. Essas janelas foram originalmente concebidas como postos privilegiados para a defesa do castelo, sendo testemunhos de uma concepção estratégica do terreno circundante. Construir uma janela é também dirigir olhares para algo que está em determinada direção. Toda janela traz embutida uma especificidade do olhar, uma perspectiva própria.

Por exemplo, Raymond du Temple, arquiteto do Chateau de Vincennes, construído para o rei Carlos V, foi habilíssimo programador de espaços. Sua grande cartada foi, certamente, a escada do rei, dando acesso aos visitantes.
O projeto era brilhante, correspondendo perfeitamente ao momento de consolidação da monarquia francesa. Essa escada de aparato convidava o visitante a subir lentamente, contemplando através de seus balcões a magnífica e grandiosa fachada do castelo, preparando sutilmente o encontro com o rei. Talvez, por um contágio do olhar, o monarca parecesse tão admirável quanto sua bela fortaleza. Ao mesmo tempo, quão diferentes os modos de ver incitados pelas grandes janelas da escada e as pequenas vigias do "chemin de ronde"! Raymond du Temple era também um exímio construtor de olhares...

Enfim, a janela é frequentemente portadora de uma intencionalidade, seja ela militar, pragmática, estética, religiosa ou mesmo política. Nesse sentido, a janela é testemunho de uma determinada perspectiva, de uma específica interpretação do espaço circundante e do olhar que se quer projetar sobre esse mesmo espaço.

No entanto, é essencial lembrar algo banal: que não se trata obviamente uma imagem congelada, afinal de contas o espaço muda constantemente ao redor da janela. Também é desnecessário dizer que me parece muito difícil (e provavelmente pouco útil) realizar uma "historiografia das janelas"... Ainda assim, vale a pena debruçar-se sobre uma janela antiga, qualquer janela, e imaginar, se perguntar o que seria possível ver dali em outros tempos e, principalmente, por que ela foi construída sob esse ponto de vista. Em suma, tentar enxergar a realidade através desse "olhar congelado"...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A densidade da ausência

Na última semana estive na Place de la Bastille. Como se sabe, a fortaleza foi destruída durante a Revolução Francesa. Hoje restam apenas as pedras que marcam o contorno da construção. Apenas uma placa comemorativa explicita esses vestígios, por sinal difíceis de distinguir com todo o trânsito da praça. Não fossem essas lembranças, pareceriam apenas pedras comuns no chão...

 Ao lado, outra placa, em agradecimento "a nossos pais de 1789", dedicada pelos "estudantes de 1880".
É difícil definir a sensação de estranheza experimentada num lugar que ao mesmo tempo foi, simbolicamente, o epicentro da contemporaneidade, o ponto de partida do estranho mundo em que vivemos hoje, mas que não guarda muitas lembranças visíveis do que era a Bastilha em 1789, à ocasião daquele fatídico 14 de julho.

Por estranho que pareça, o que se sente ali é uma ausência incomensuravelmente densa, como um objeto invisível mas poderoso, um centro gravitacional que só pode ser percebido por seus efeitos; como um buraco negro, talvez, ou como uma radiação de fundo. É como se a Bastilha destroçada nunca tivesse deixado de estar ali; mais complexo ainda, é como se ela só exista significativamente exatamente porque deixou de existir. Um paradoxo: ela só está ali porque não está ali.

Como uma espécie de "matéria escura", uma massa colossal de simbolismo invisível, que faz gravitacionar a seu redor inúmeros outros monumentos significativamente ligados direta ou indiretamente à própria Revolução, como a Torre Eiffel (comemorativa do centenário), o Arco do Triunfo (marcando as vitórias do exército revolucionário), entre tantos outros (Invalides, Conciergerie, etc).

De fato, talvez seja tão importante porque sua ausência represente a posteriori a própria "destruição" do Antigo Regime. De qualquer forma, me parece inevitável que a Bastilha perdeu sua existência material apenas para adquirir um outro tipo de existência muito mais poderosa, onipresente e incontornável: a existência simbólica. Tornou-se um monumento tecido de ausência.