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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

As mil faces de Jesus

Ainda em clima natalino, mais uma pequena reflexão sobre a figura de Jesus. É difícil afirmar com toda certeza se ele realmente existiu como personagem histórico. No entanto, é certo que ao longo dos séculos foi representado com as mais diversas aparências, refletindo as inúmeras travessias culturais que sua imagem realizou. Vejamos alguns exemplos...
 
 
Entre as principais fontes de iconografia paleocristã encontramos as catacumbas de Roma, onde os primeiros cristãos se reuniam. Nelas, é comum a representação de Jesus bastante próxima de um patrício romano, familiar àqueles que produziam essas imagens, bem como aos que as viam. Assim, temos um Jesus vestido - e barbeado - como um membro da elite romana.


Por outro lado, também era comum a assimilação de Jesus a divindades do panteão pagão, como Apolo ou Orfeu - caso da imagem acima. Tais associações não eram gratuitas, sendo bastante sugestivas das permutas entre a cultura romana, o judaísmo e o cristianismo nascente. No caso, o mito de Orfeu envolvia uma viagem de ida e volta ao mundo dos mortos, facilmente identificada à crença na ressurreição de Cristo.


No Império Bizantino a imagem de Jesus se manteve durante muito tempo próxima à iconografia paleocristã.


Embora pouco conhecida no Ocidente, a comunidade cristã da Etiópia é uma das mais antigas do mundo. Ao longo de séculos, desenvolveu suas próprias tradições e convenções para representar a imagem de Jesus. Para os cristãos etíópes, Jesus era evidentemente negro - e, no caso da imagem acima, bastante simpático.

 
Na Alta Idade Média começavam a se elaborar na Europa Ocidental as convenções que conhecemos melhor, em que Jesus passava a ser representado com traços germânicos, como é o caso nessa representação. Não obstante, havia ainda gande proximidade estilística às tradições paleocristãs e da Igreja Ortodoxa.
 

No mundo islâmico, Jesus também é reverenciado como um grande profeta. Algumas suratas do Alcorão são dedicadas a ele e sua mãe, Maria. Nessa imagem produzida no âmbito islâmico podemos ver um Jesus quase persa! Os anjos que o carregam com suas asas alegremente coloridas também são interessantíssimos...


No Renascimento encontramos representações que remetem às antigas assimilações entre Jesus e Apolo, acrescentando novas camadas às convergências entre as culturas greco-romana e judaico-cristã...

Ao longo de dois milênios a figura de Jesus foi objeto de inúmeras apropriações e interpretações, nos mais variados contextos culturais e religiosos, espelhando as diversas concepções elaboradas a seu respeito: profeta, deus encarnado, louco, filósofo... Existindo ou não, nos últimos vinte séculos Jesus se tornou uma parte significativa do imaginário humano.

Dedicado ao Igor, co-autor involuntário desse texto

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Invenções Natalinas

Atualmente o Natal é marcado por inúmeras tradições quase inevitáveis entre a maioria das famílias. No entanto, esses costumes nada têm de fixo e invariável, e mudaram muito ao longo do tempo. Como já lembrava o saudoso Eric Hobsbawn, a tradição anda sempre ao lado da invenção.

A própria data foi inventada pela Igreja Católica como forma de facilitar a cristianização de povos pagãos que nesse período do ano celebravam festivais religiosos pela chegada do inverno no hemisfério norte, como celtas, germânicos e eslavos. Particularmente, no dia 24 de dezembro era cultuado o Sol Invicto, divindade oriental bastante popular nos últimos séculos do Império Romano. Por outro lado, a Igreja Ortodoxa originalmente comemorava o Natal em 6 de janeiro, o que ainda acontece em alguns países da Europa Oriental.

Por sinal, a julgar pelas características climáticas da Palestina e a crer nas características do relato bíblico, me parece pouco provável que Jesus tivesse nascido naquelas condições em época invernal. Em Belém, geralmente há pelo menos um dia de neve em dezembro - vá se fazer um parto numa estrebaria ou sair com carneiros a pastar num frio desses! Pelo contrário, se tivesse de fazer uma aposta, diria que ele nasceu entre maio e agosto...

Durante séculos, a única tradição natalina realmente relevante em terras católicas (incluindo o Brasil) era a Missa do Galo. Já o Protestantismo rejeitou em seus primeiros tempos a comemoração do Natal como um hábito "papista". No século XIX a situação mudou, quando o Natal foi reinventado em terras reformadas. Boa parte das atuais tradições surgiram nessa época em países com grupos protestantes enraizados, como a Alemanha (árvore de Natal), Inglaterra (troca de presentes) ou EUA (peru).

Essas invenções só se popularizaram no Brasil em meados do século XX, com a industrialização do país e a exposição à cultura norte-americana, sob estímulo do comércio. As pessoas mais velhas de minha família vivenciaram de perto esse processo de transformação. Como minha avó me dizia hoje mesmo, o único hábito natalino em sua família era o consumo de bacalhau na ceia - sem Papai Noel, troca de presentes, árvore...

Mais ainda, as comemorações do Natal ganharam conotações indubitavelmente laicas, particularmente nos países onde não existe uma população cristã significativa. No Japão, por exemplo, é uma data onde os casais costumam trocar presentes e sair para um jantar romântico a dois - mesmo o aspecto familiar dos festejos é ignorado.

Também vale a pena sublinhar a exploração do Natal pelo Capitalismo; dezembro costuma ser o mês com maior índice de vendas. Por uma dessas sutis e infatigáveis mutações da história, o longuíssimo curso dos séculos transformou uma comemoração forjada para o proselitismo religioso em uma festividade laica com consequências econômicas incontornáveis...

Ante o consumismo que impera na época natalina, vale sempre a pena lembrar as palavras atribuídas ao aniversariante: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está teu tesouro aí estará também o teu coração".

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Leituras - "V de Vingança", de Alan Moore

Esta semana finalmente consegui adquirir e ler V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd, um dos maiores clássicos dos quadrinhos. Para quem não conhece, a HQ se passa nos anos de 1997 e 1998 - sendo que fôra publicada no início dos anos 80, ou seja, os autores projetavam um futuro próximo.

Felizmente o mundo ao fim dos anos 90 era muito diferente do que Moore e LLoyd imaginavam. O "futuro" apresentado na história é bastante sombrio. No fim dos anos 80, uma terrível guerra nuclear destruíra boa parte do mundo ocidental. Na Europa, apenas a Inglaterra escapara da catástrofe. No entanto, o país se encontrava entregue à desordem e ao caos. Um grupo fascistóide, "Nórdica Chama", chega ao poder, instalando um Estado policial racista, homófobo e repressor, onde toda liberdade é sacrificada em nome da ordem e da segurança.

Eis que surge V, um homem misterioso, cuja máscara lembra Guy Fawkes, que no século XVII tentara explodir o Parlamento no chamado "Gunpowder Plot" (atualmente efígies de Fawkes são destruídas anualmente num rito semelhante à nossa "Malhação do Judas"). V inicia um movimento de contestação, marcado por intervenções literal e simbolicamente "bombásticas" - começando pela explosão do Parlamento.

Seria impossível dar conta da trama complexa com suas reviravoltas, seus ricos personagens e sua contundente análise das relações entre medo, poder e liberdade. A arte de LLoyd é fantástica, dando à trama um clima retrô, quase como um film noir. O texto de Moore é sempre sensacional, especialmente as falas de V. Transcrevo alguns dos belíssimos discursos proferidos pelo personagem. Garanto que após a leitura vocês correrão para as livrarias!

"Não se deve contar com a maioria silenciosa, pois o silêncio é algo frágil. Um ruído alto... e está tudo acabado.

O povo está amedrontado e desorganizado demais. Alguns podem ter tido a oportunidade de protestar, mas foram como vozes gritando no deserto.

O barulho é relativo ao silêncio que o precede. Quanto mais absoluta a quietude, mais devastadoras as palmas.

Nossos governantes não ouvem a voz do povo há gerações, Evey, e ela é muito mais alta do que eles se recordam".

"A anarquia está sola sobre o mundo.

A ordem involuntária gera insatisfação, mãe da desordem, prima da guilhotina. Sociedades autoritárias são como a formação de crostas de gelo. Intrincadas, mecanicamente precisas e, acima de tudo, precárias. Sob a frágil superfície da civilidade, o caos se convulsiona e há locais onde o gelo é traiçoeiramente fino.

A autoridade, quando detecta o caos pela primeira vez em seus calcanhares, fará as coisas mais vis para preservar a fachada de ordem, mas, como sempre, ordem sem justiça, sem amor ou liberdade, não pode deter a derrocada de seu mundo para o holocausto.

A autoridade admite dos papéis: o torturador e o torturado. Ela transforma as pessoas em manequins amorfos que temem e odeiam, enquanto a cultura mergulha no abismo.

A autoridade deforma completamente a educação das crianças, tornando seu amor um arremedo...

O colapso da autoridade permeia o leito, as diretorias, a igreja e a escola. Tudo é mal gerido. A igualdade e a liberdade não são luxos a serem levianamente desprezados. Sem elas, a ordem não pode persistir antes de alcançar grandes profundezas".

"A anarquia deve abraçar o estrondo das bombas e canhões, todavia, deve amar ainda mais a doce música".

"Com a ciência, as ideias podem germinar num leito de teorias, formas e práticas que auxiliam seu crescimento... Mas nós, como jardineiros, devemos estar atentos, porque algumas sementes são de ruína... E os botões mais iridescentes são geralmente os mais perigosos".

"A anarquia ostenta duas faces, a criadora e a destruidora. Destruidores derrubam impérios, fazem telas com os destroços, onde os criadores erguem mundos melhores.

Os destroços, uma vez obtidos, tornam as ruínas irrelevantes. Fora com os explosivos, então!

Fora com os destruidores, eles não têm lugar em nosso mundo melhor. Brindemos a todos os nossos bombardeiros, a nossos bastardos mais desprezíveis e odiosos. Bebamos a sua saúde, e depois não os vejamos mais".

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poder e corrupção na França quinhentista

O texto que segue faz parte do segundo capítulo de minha tese de doutorado. A história do almirante Chabot lembra muitas outras que conhecemos bem...

"Em 1541, Philippe Chabot de Brion, almirante de França e governador da Borgonha seria acusado, julgado e condenado por malversação e prevaricação – parte das acusações se relacionava ao exercício do cargo de almirante.

Chabot nascera em uma família de pouca expressão política, da aristocracia da Saintonge. No entanto, em sua infância foi criado junto com Francisco de Angoulême, futuro rei Francisco I, que regulava sua idade; na juventude, tornou-se seu companheiro de armas. Tais circunstâncias foram determinantes de sua posterior ascensão social, alavancada por seu régio companheiro de brincadeiras. Sua participação ao lado de Francisco I na batalha de Pavia foi parte importante desse processo. Segundo Hamon, toda a fortuna e poder posteriormente conquistados por Chabot dependiam quase inteiramente do favor régio – o que também tornava sua posição bastante frágil ante a possibilidade de cair em desgraça.

Como almirante de França, foi um grande incentivador das navegações normandas e da exploração do Novo Mundo. Sob sua proteção foram organizadas três expedições ao Brasil, chegando mesmo a investir 4000 libras e um navio em uma delas. Mantinha estreita ligação com o poderoso armador Jean Ango, a quem logo retornaremos.

Nada disso impedia o almirante de tomar atitudes ambíguas, como mostram os autos de seu processo. Em 1540, motivado por queixas contra Chabot, Francisco I instaurava uma comissão especial para investigar e julgar o seu caso, fora da alçada de qualquer parlamento do reino. A comissão era composta por juízes convocados de diversas partes da França, o que da idéia da mobilização em torno do caso. O conjunto de seu processo é composto por cinco documentos, cuja minuta pode ser atualmente consultada na Bibliothèque Nationale de France.

A quantidade de acusações contra Chabot é impressionante, assim como sua grande variedade, sem falar em sua dispersão por todos os cantos da França. Por exemplo, em 1530 fizera cobranças indevidas aos nobres da Borgonha, supostamente para o resgate do delfim aprisionado na Espanha. Deixou de realizar reparos ordenados pelo rei nas praças fortes da Borgonha, embora tenha recebido o dinheiro correspondente; pior ainda, cobrou impostos de cidades da região com a mesma finalidade. Era igualmente acusado de desvios de verbas destinadas à compra de munição e obras públicas na Borgonha. No Languedoc, cometera irregularidades na venda de cargos públicos, majorando preços - inclusive em alguns parlamentos. Desviara pagamentos de soldados e tomara peças de artilharia pertencentes à coroa para uso pessoal. Venda indevidamente congés para transporte de trigo, “mesmement du temps de la grande famine qui estoit audit pays [Borgonha]”.

Além dessas malversações, era ainda acusado de abusos na administração da justiça. Havia queixas de ter tolerado como governador da Borgonha, “meurtres et homicides” cometidos por pessoas de seu séquito, apesar de ter recebido queixas. Mandou libertar indevidamente um tal Chastenier, preso e condenado pela justiça, que estava na prisão real de Chalons; fez o mesmo com um certo Maschault, e o processo menciona “plusieurs autres cas semblables”. Permitiu que membros de sua criadagem castigassem fisicamente um “pauvre laboureur” que dera uma pedrada em um falcoeiro de Chabot que havia roubado suas galinhas; como sublinham os autos, o caso deveria correr na justiça real, julgado pelos magistrados, pois ninguém devia “se entremesler au faict de la justice ordinaire”. Manteve pessoas em prisão privada por injúrias ditas contra ele. Também usara seus poderes para confiscar terras em benefício próprio, inclusive empregando documentos falsos.

Essa é apenas uma amostra dos desmandos cometidos por Chabot em suas inúmeras atribuições. Havia ainda queixas referentes a seu cargo de almirante de França. Em 1536 e 1537 teria cobrado indevidamente seis libras por cada barco pesqueiro da Normandia – apesar de ter sido instruído pelo rei a não fazê-lo. Para tanto, teria vendido a esses pescadores salvos-condutos, tendo para isso tratado com o almirante de Flandres, sem conhecimento e permissão do rei. Como agravante, existiam acordos prévios entre Francisco I e Carlos V que garantiam a livre circulação dos pescadores em suas costas em tempos de paz".

Ao fim do processo, contrariando a decisão dos juízes, Chabot foi inocentado por ordem direta do rei, em nome dos grandes serviços que outrora havia prestado ao monarca... "Plus ça change, plus c`est la même chose"!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sobre senhores e escravos

"O homem não é livre nem quando escravo nem quando senhor".
Joaquim Nabuco

Embora a frase de Nabuco se referisse ao contexto específico da escravidão no Brasil, me pergunto o quanto ela tem de universal - ou pelo menos, o quanto se aplica ao nosso presente. Creio que em grande medida, os políticos, magnatas, "celebridades" e demais detentores de poder e influência são eles mesmos vítimas das quimeras banais e vazias com que manipulam as massas. São prisioneiros do consumismo e dos desejos que fomentam; vivem na mesma superficialidade e falta de significado que os demais, sob o azorrague de suas ambições vazias e mesquinhas.

Os senhores rastejam na mesma lama que os escravos, embalados em tristes alucinações de liberdade...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Direitos humanos no Brasil - uma síntese interessante

Trecho muito interessante de "Uma História do Brasil", do brasilianista Thomas E. Skidmore. Vale esclarecer que os parágrafos a seguir se situam num capítulo sobre o regime militar.  Grifos meus.

"Embora a elite tenha sempre preferido ver seu país como fundamentalmente não-violento, esta é uma leitura muito imprecisa da história brasileira. A escravidão, por exemplo, fora baseada na brutalidade física que incluía mutilação, espancamentos impiedosos e execução, e havia se mantido no Brasil até 1888 (o trabalho forçado de índios amazônicos continuou por ainda mais tempo), durando mais do que em qualquer outro lugar nas Américas. No Brasil do início da década de 1960, maus-tratos físicos por parte da polícia eram prática corrente em relação a cidadãos comuns, o que em parte era uma herança da violência que cercava a escravidão. Mas era também inerente à manutenção da sociedade altamente hierárquica que a República brasileira herdara. Desde o início da República em 1889 o governo recorreu repetidamente à declaração de estado de sítio, permitindo, assim, a suspensão das garantias judiciais. Durante os protestos populares contra a vacinação compulsória no Rio em 1904, por exemplo, as multidões eram bombardeadas por artilharias. Mais de trezentos dos detidos foram então deportados, sem nenhum procedimento judicial, para campos distantes no Amazonas. Táticas de internamento semelhantes foram empregadas na esteira da revolta naval de 1910.

Maus-tratos policiais em relação à elite, por outro lado, eram raros, mesmo porque os policiais eram membros das classes que não pertenciam à elite e temiam seus superiores sociais. Exemplos de comportamento diferenciado eram fáceis de encontrar. Qualquer preso que tivesse um diploma de curso superior, por exemplo, tinha por lei (criada pelo Código Penal de 1941) direito a melhores acomodações carcerárias do que os presos comuns. Qualquer membro da elite que tivesse problemas com as autoridades podia contar com rápida ajuda de sua rede de contatos. Um indicador básico da aplicação desigual da justiça era a complacência patente para com criminosos de colarinho branco como trapaceiros da bolsa de valores, que raramente sofriam alguma punição significativa, enquanto os suspeitos comuns podiam geralmente esperar o pior.

Esse sistema de justiça diferenciada era bem entendido por todos os brasileiros. Ele reforçava a estrutura social hierárquica que era fechada mas não impermeável. Quando o Brasil crescia economicamente, sua elite expandia-se, mas essa mobilidade não alterava a hierarquia em si.

A eleite sempre fora capaz de permanecer na ignorância do verdadeiro funcionamento do sistema de justiça criminal, o que mudou com a guinada altamente autoritária em 1968, uma vez que o movimento de guerrilha era liderado principalmente por jovens insatisfeitos da elite, não por trabalhadores. Os nacionalistas radicais militantes, descontentes com o golpe, eram o principal material recrutado para a oposição armada. Muitos deles vinham de organizações de jovens católicos de esquerda e de grupos políticos universitários (predominantemente da elite em sua origem). As forças de segurança interrogavam todos os suspeitos da guerrilha com os métodos que eram normais para criminosos comuns mas não praticados com a elite. Um deles era o pau-de-arara, em que a vítima era pendurada nua numa vara horizontal e submetida a espancamento e choques elétricos. Um outro consistia em submergir a vítima em água suja e disparar uma arma bem sobre sua cabeça quando o corpo vinha à tona. Para casos particularmente difíceis, isto é, quando a confissão ou a prova incriminadora não estava próxima, a eletricidade era aplicada nos órgãos genitais, ouvidos e outros orifícios do corpo. Elite e não-elite tinham o mesmo tratamento. Quando relatos desse tratamento brutal vazavam, as famílias das vítimas da elite ficavam verdadeiramente chocadas. Mesmo filhos de generais enfrentaram o horror da tortura.

Essa repressão indiscriminada fez com que muita gente na elite reconsiderasse seu apoio ao governo militar. A ameaça à segurança justificaria realmente a barbaridade do governo? Eles não haviam imaginado que se chegaria a isso.

Lentamente, as instituições da elite começaram a reagir. A mais bem situada era a Igreja Católica, cujos bispos estavam chocados com os maus-tratos dispensados a membros de seu clero. Mesmo bispos conservadores que haviam endossado entusiasticamente o golpe agora denunciavam a tortura. Uma segunda instituição da elite que reagiu, ainda que lentamente, foi a Ordem dos Advogados do Brasil. Os poucos advogados criminalistas que defendiam prisioneiros políticos e sabiam em primeira mão da tortura tentavam, agora, levar seus colegas à ação. Os advogados, a nata da elite, começaram a descobrir um novo sentido para o domínio da lei. Contudo, nem a Igreja, nem os advogados tinham poder contra os militares. O melhor que podiam fazer era divulgar mensagens discretas entre a elite ou passar informações para amigos no exterior.

Mesmo entre os militares havia sinais de intranquilidade. A maioria dos oficiais aceitara a linha oficial (admitida interna mas nunca publicamente) de que a tortura era usada imediatamente após a prisão para obter informação "quente" que "salvaria" vidas. Mas os torturadores às vezes continuavam seu trabalho por semanas ou mesmo meses depois da prisão da vítima, quando já não havia nenhum propósito tático para tal brutalidade. O comando militar negava de forma categórica qualquer excesso, embora informalmente oficiais deixassem claro que "guerra é guerra". A curto prazo, não havia recurso contra os torturadores; mas havia uma questão mais ampla: se o governo militar terminasse, a elite brasileira reconheceria que a tortura fora de fato a última expressão de um sistema repressivo mantendo a hierarquia social que a beneficiava há tanto tempo?"

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Leituras - "A África explicada aos meus filhos", de Alberto da Costa e Silva

Depois de uma longa ausência provocada pelas obrigações da academia e do magistério, eis que retorno à oficina.

Na última semana li essa interessantíssima obra, para amenizar minha ignorância sobre a história da África; meus alunos agradecem! Trata-se de um belo passeio pela África guiado por um de nossos melhores especialistas na história e cultura desse continente. O livro é estruturado como um diálogo com perguntas e respostas. Embora voltado ao público jovem, é muito esclarecedor para os ignorantes como eu; creio que mesmo os bons conhecedores da história africana encontrem algum proveito na leitura. Além disso, ao final a obra apresenta boas sugestões bibliográficas para aprofundamento do tema.

A abordagem de Costa e Silva é particularmente interessante pela ênfase na diversidade das culturas e da experiência histórica dos povos africanos. Também discute de modo primoroso as relações da África com outros continentes ao longo do tempo pelo Atlântico ou pelo Índico, oferecendo uma perspectiva mais ampla sobre a trajetória africana, notadamente em seus intercâmbios com a América e o Brasil.

Mas o que torna o livro realmente saboroso são os vívidos exemplos apresentados pelo autor em sua vasta erudição. As mais diversas práticas políticas, culturais, sociais, artísticas e econômicas são expostas de modo dinâmico, compondo um vasto retrato da África em suas paisagens e sua gente. Essa vibrante conversa nos faz sentir como se contemplássemos os séculos do continente se desenrolando diante de nossos olhos em suas lutas e conquistas, alegrias e tristezas, glórias e misérias.

Há trechos memoráveis, que deixarei ao leitor o prazer de descobrir. Concluo citando seu lapidar parágrafo final:

"É raro um brasileiro cujos bisavós já viviam no Brasil que não tenha pelo menos um antepassado africano. A África está, portanto, no sangue da grande maioria do nosso povo. E, ainda que disto muitos não tenham consciência, na alma de quase todos".

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Lançamento de meu novo livro, "A ilha e o tempo"

Nesta última sexta-feira foi realizado o lançamento de meu terceiro livro, "A ilha e o tempo - Séculos e vidas de São Luís do Maranhão - 1612-2012", publicado pelo Instituto Geia.


A publicação foi fruto da vitória no Prêmio IV Centenário de São Luís, promovido pelo Instituto Geia, escolhido por unanimidade pela comissão julgadora presidida pelo historiador José Murilo de Carvalho. O lançamento aconteceu em São Luís.

O grande desafio de escrever esse livro foi dar conta dos riquíssimos 400 anos de história de São Luís de forma leve e dinâmica. Optamos por contar essa história através da vida de alguns de seus personagens. Cada capítulo é centrado na trajetória de uma ou mais pessoas e sua experiência em São Luís.

A redação desse trabalho foi um grande tour de force, mas também um grande prazer, além de uma oportunidade única de reflexão sobre as relações do ser humano com o tempo e o espaço. Não à toa iniciei o texto com uma epígrafe de Italo Calvino em Cidades invisíveis: "De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas"...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Batman, a Revolução Francesa e o preço da violência

Quando vi "The Dark Knight Rises" pela primeira vez fiquei muito decepcionado com o filme, que não chegou sequer aos pés dos dois anteriores. Há duas semanas resolvi assisti-lo novamente, mas dessa vez o filme me sensibilizou de outra forma. O motivo? Nesse meio tempo visitei em Paris a "Conciergerie" - prisão onde ficaram os presos políticos da Revolução Francesa.

Numa das salas da Conciergerie é possível consultar os nomes e categoria de todos aqueles que foram condenados à guilhotina durante a Revolução Francesa e estiveram presos ali. O que mais me impressionou foi a multidão de condenados vindos das camadas mais baixas da sociedade, artesãos e camponeses. Apenas uma ínfima parte dos guilhotinados pertencia à aristocracia. A Revolução, feita em nome "dos pobres", como gostava de dizer Robespierre, matou principalmente esses mesmos pobres...

Em nome da segurança da República, a mesma República se tornava insegura para cada um de seus cidadãos, vulneráveis às denúncias maliciosas, aos processos sumários e à paranóia generalizada. No fim, como se sabe, os próprios líderes se tornaram vítimas da fúria que desencadearam.

Fiquei pensando sobre como adotar o caminho da violência para a mudança social pode ser algo realmente trágico. A tormenta logo se torna incontrolável, consumindo a tudo e todos, numa voragem insana. É justamente esse clima de pesadelo que a "revolução" conduzida em Gotham City por Bane no último filme de Batman consegue evocar. As falas do personagem ecoam justamente certo moralismo falacioso contra a corrupção que fazem pensar o quanto os discursos políticos banalizadores são perigosos. Por sinal, segundo o diretor Chris Nolan, o roteiro foi originalmente inspirado em "Um conto de duas cidades", de Charles Dicken, narrativa passada na Revolução Francesa.

Creio que o maior desafio para o nosso século será a busca de meios pacíficos para superar o marasmo político em que nos encontramos. O preço da violência é muito alto, por mais sombria que seja a situação.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O gigante de Luís XIV

Depois de um mês sem postar, eis-nos de volta à pátria-mãe gentil! As últimas semanas foram tão apertadas devido à conclusão das pesquisas em Paris que não tive tempo para postar. Nos próximos meses tentarei dar conta de todos os posts que ainda pretendo escrever...

Nesse último mês fomos finalmente visitar o palácio de Versailles. Embora o palácio em si seja fantástico, o que há de realmente especial são seus jardins. É interessantíssima a concepção dos jardins divididos em inúmeros "bosquets" planejados para usos variados e com temáticas próprias. De todos, o que me causou mais viva impressão foi o "bosquet de Encelade", dedicado à figura mitológica de Enceladus.

Como vim a descobrir, Enceladus é um dos gigantes que participou da Gigantomaquia, combate legendário entre os deuses gregos e os gigantes criados por Gea - fertilizada pelo sangue de Cronos mutilado - para vingar a expulsão dos titãs.

A derrota de Enceladus possui inúmeras versões, sendo a mais difundida a de que foi atravessado pela lança de Palas Atena. O detalhe comum a todas as versões é que ao fim dos combates Enceladus foi soterrado sob as pedras que formam o Etna; diziam que as erupções do vulcão eram provocadas pela respiração do gigante.

A escultura em questão mostra grande eloquência nos gestos do gigante parcialmente soterrado, erguendo uma pedra para atirar contra os deuses, num último ato de insolência. Não é difícil entender de que modo a estátua se enquadra no programa mitológico de Versailles, centrado na celebração de Apolo, confundido com o Rei Sol. De fato, Versailles deve muito à Fronda, revolta conduzida pela alta nobreza francesa ainda durante a menoridade de Luís XIV, contra a crescente centralização monárquica.

Todavia, me parece ainda mais curioso pensar no "uso prático" da escultura, ou melhor, no modo como foi experimentada pela corte francesa ao longo da Idade Moderna, até a Revolução. Para os nobres que tinham a oportunidade de transitar pelos jardins de Versailles a imagem certamente devia ter algum impacto, sendo um constante lembrete do poder da monarquia e do destino daqueles que ousavam se erguer contra a coroa. Nesse sentido, mais que mera alegoria da Fronda, o gigante é também a imagem idealizada de todo e qualquer movimento contrário à autoridade real - provavelmente, quanto mais afastados cronologicamente da Fronda propriamente dita, mais os nobres podiam interpretar a estátua sob esse caráter genérico, tornando-se menos referência ao passado concreto que às possibilidades do presente.

Ironicamente, contudo, o gigante de chumbo mostrava ainda seu potencial dominado, exalando uma coluna d`água de mais de vinte metros de altura, assim como o Enceladus mitológico se manifestava nas erupções do Etna. E de fato, em 14 de julho de 1789, o gigante se ergueu de sua prisão...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Camadas do sagrado

Estivemos ontem em Genebra. Devo dizer que, 500 anos depois de Calvino a cidade me parece andar mais pelo lado do "espírito do Capitalismo" que da "ética protestante"... Por sinal, definitivamente, os preços em Genebra seguem à risca o espírito do dito cujo!

Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...

No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.

Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.

É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.

Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.

Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.

Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.

Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.



No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.

No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.

O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?

Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.

Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América.  Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...

O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.

Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ticiano, Rubens e araras

Há duas semanas estive em Madri, e - obviamente - no Museu do Prado, que fica além de qualquer descrição. A bem dizer, gostei mais do Prado que do Louvre...

Entre inúmeros tesouros, achei interessantíssimo comparar duas telas reproduzindo Adão e Eva, pintadas pelo italiano Ticiano e pelo flamengo Rubens, datadas respectivamente do século XVI e XVII. A obra de Rubens é reprodução do original de Ticiano, abaixo.

Como se pode ver, a reprodução pintada posteriormente por Rubens não foi objeto de grandes transformações, excetuando-se pequenas alterações formais, mas apenas uma em relação ao conteúdo: a inclusão de uma arara na cena, sobre a árvore à esquerda...

A bem dizer, a "participação especial" da arara não deve ser considerada uma novidade; desde o século XVI Dürer já havia utilizado animais tropicais em cenas da história sacra. No entanto, o que me pareceu muito curioso nessa reprodução elaborada por Rubens foi justamente o fato de ser uma reprodução que - à exceção da arara - permaneceu intocada em seus detalhes, ou seja, de alguma forma, o pintor sentiu certa necessidade de incluir esse novo elemento na cena.

Obviamente não é fácil imaginar o que se passava na imaginação de Rubens, sua motivação íntima para a deliberada inclusão da ave americana na cena originalmente representada por Ticiano. Em todo caso, a "arara de Rubens" parece um ótimo exemplo do quanto o Novo Mundo se torna essencial à Europa ao longo da Idade Moderna, se infiltrando vigorosamente no imaginário do Velho Mundo.

Por sinal, como muitos de seus contemporâneos, Rubens parece ter ficado fascinado pela natureza da América, como o demonstra a série de quadros Os cinco sentidos, executada em parceria com Jan Brueghel. As cinco alegorias também se encontram hoje no Prado. É interessante observar que, em cada um desses quadros figuram animais do Novo Mundo, especialmente aves tropicais e um mico.

Cotejar os dois quadros é muito instigante porque, de certa forma, os dois se mostram indícios de um longo processo de construção e estabelecimento da sociedade ocidental dos dois lados do Atlântico, processo durante o qual a Europa foi central durante boa parte do tempo, mas que, desde o século passado, tem se tornado cada vez mais periférica em relação a uma América cujo papel mundial cresce incessantemente...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fora do prumo...

Nessa semana estivemos em Rouen. Ficamos apaixonados pelos prédios da cidade construídos em "colombage", usando grandes toras de carvalho extraídas das florestas da região. É um tipo de construção típica da Bretanha e da Normandia. Como as fotos mostram, a construção ia muito de improviso...


 Essa parece que fico esprimidinha...

 Segundo meu amigo Igor, engenheiro civil, trata-se de uma patologia da edificação chamada de recalque diferencial.
 Apesar da cara medieval, esses prédios são em sua maioria dos séculos XVI, XVII e XVIII.
 Talvez ainda mais interessante seja essa igreja construída em homenagem a Joana D`Arc, no local onde ela foi queimada. Construída no século XX, o arquiteto teve a excelente ideia de se inspirar nas características arquitetônicas da cidade para construir um prédio propositadamente torto. Excelente exemplo de apropriação e "reciclagem" da História...

domingo, 1 de julho de 2012

Da arte de visitar museus

Desde bem pequeno sempre fui apaixonado por museus, uma das coisas que devo agradecer imensamente a minha família. Francamente, não lembro quando fui a um museu pela primeira vez, nem onde. Essa semana estive justamente pensando sobre o quanto essa experiência sempre renovada tem sido crucial em minha formação, e por outro lado, o quanto meu modo de visitar museus foi se transformando ao longo do tempo, conferindo sempre novos sentidos a essa vivência.

Quando criança, sentia essas visitas como algo mágico, envolto em profundo encantamento. Lembro sempre do quanto fiquei fascinado pelo barco chinês de brinquedo que pertenceu a D. Pedro II, peça de beleza inigualável, no Museu Histórico Nacional. Como descrever a inveja que à época senti do pequeno imperador por possuir um brinquedo tão fabuloso? Durante muito tempo, na minha ingenuidade infantil sonhei com a possibilidade de que alguma fábrica de brinquedos contemporânea - mais especificamente, a Estrela - tivesse a genial ideia de relançar o barquinho no mercado... Durante toda minha infância entretive essa relação de fascínio com os museus que visitava, relação muito mais empática e emotiva que intelectual, obviamente. Fico feliz de constatar que ainda hoje essa emoção não se tornou totalmente estranha: ainda sinto bater mais forte o coração ao encontrar determinadas peças, como o calendário de Coligny ou a estátua do almirante Chabot... Esses encontros, esperados ou inesperados, são sempre fascinantes.

Durante minha adolescência essa relação começou a passar por um longo processo de transformação, motivado especialmente pelo sonho de me tornar arqueólogo, lá pelos 13 anos de idade - quando desisti de ser detetive da Interpol! Com essa idade passei a consumir avidamente qualquer material sobre História que me caísse nas mãos - de livros, enciclopédias e revistas a filmes ou música clássica. Iniciava-se uma intensa fase de bricolagem intelectual, em que tentava simplesmente acumular de modo pouco crítico leituras e informações - quanto mais melhor! Obviamente os museus se tornaram um lugar privilegiado nesse sentido. Do olhar encantado, passei a um olhar fortemente analítico, conscientemente treinado, centrado em esforços de identificação, classificação (estilística, cronológica, geográfica...) e memorização. Foi nessa época que comecei a ler com rigor quase monástico todas as tabuletas que encontrava pela frente, detendo-me com atenção a literalmente cada peça: numa vitrine  com 40 artefatos, eu examinaria detidamente cada um deles! Foi nessa época que comecei a andar sozinho pela cidade, e visitar museus era uma de minhas diversões favoritas. Ia quase uma vez por mês ao Museu Nacional de Belas Artes! Não era incomum que eu visitasse duas vezes as exposições que mais me interessavam; cada visita dessas era atividade para muitas horas... As exposições permamentes se tornaram particularmente íntimas, objeto de uma contemplação longa e "vagabunda", quanto mais íntimo eu me tornava desses acervos...

Aos poucos essa experiência foi mudando de rumo, já no final de minha adolescência. Comecei a desenvolver um olhar cada vez menos classificatório e mnemônico, ao mesmo tempo mais crítico e mais sensível aos significados sociais, políticos, culturais e estéticos das peças. De certo modo, comecei a vivenciar a visita a museus como um encontro com fontes primárias, o que se acentuou muito mais com o ingresso na faculdade de História.

Desde então, meu olhar sobre os museus tem mudado muito. Creio que tenho construído uma relação mais autônoma com as exposições, à medida em que meus próprios conhecimentos me permitem hoje compreender algo consultando menos sistematicamente as placas, textos ou diagramas. De fato, atualmente me detenho muito menos sobre cada peça individualmente, mesmo porque qualquer acervo tem densidades variadas, com peças mais ordinárias, passíveis de uma apreensão em grupo, por assim dizer, e outras mais instigantes, que solicitam maior atenção - de certo modo, uma alternância entre olhar quantitativo ou qualitativo. Por outro lado, certa maturidade intelectual me dá maior segurança para decidir o que corresponde mais profundamente aos meus interesses e questionamentos pessoais - somada à óbvia constatação de que uma apreensão integral e definitiva do museu será sempre impossível. Além disso, tenho desenvolvido certa curiosidade "meta-museológica", cada vez mais aguçada: me questiono sobre a composição retórica da exposição visitada e sobre os discursos que ela subentende,  mas também sobre a própria história peculiar de cada museu, sua fundação e suas transformações, enfim, seu "devir institucional". De certo modo, agora mesmo, no momento da escrita desse post, me dou conta de que tenho tido cada vez mais uma relação dialética com os museus e seus acervos...

Peço perdão aos que tenham achado maçante essa egocêntrica digressão - enfim, aos que se interessaram suficientemente para chegar até aqui... Mas termino perguntando-lhes: e vocês, como visitam os museus? Quero ouvir seus comentários!

sábado, 30 de junho de 2012

Era uma vez em Lugdunum...

Estivemos ontem em Lugdunum, ou melhor, Lyon! A cidade foi o principal centro administrativo da Gália, durante o período posterior à conquista romana. Sobre a colina de Fourvière (corruptela de "Forum Vetus"), ainda é possível visitar as fabulosas ruínas do assentamento, além do excelente Museu Galo-romano.

A experiência de caminhar ali foi simplesmente indescritível. O melhor que posso fazer nesse sentido é postar algumas fotos... Afinal de contas, uma imagem diz mais que mil palavras!












domingo, 24 de junho de 2012

Aventuras na Bretanha - episódio I: Rennes

Ontem realizei um sonho: visitar a Bretanha francesa - também conhecida como "Pequena Bretanha" na Idade Média, em oposição à "Grã-Bretanha". Aguardava esse momento desde os 15 anos de idade... Meu primeiro "ataque" foi em Rennes, mas já tenho outras incursões programadas! A viagem foi tão emocionante que precisarei dividir o post em partes!

I - Na trilha dos celtas

Como se sabe, a Bretanha é um dos últimos centros de cultura celta ainda viva, especialmente devido à manutenção da língua bretã. Visitar Rennes, especialmente o Musée de Bretagne, foi uma experiência fantástica nesse sentido!

A fabulosa exposição permanente se propõe a apresentar cronologicamente a história da região através de inúmeros artefatos, desde a Pré-história aos dias atuais. Para um apaixonado pela cultura celta, foi uma experiência simplesmente indescrítivel. Particularmente instigante foi a possibilidade de seguir ao fio do tempo as transformações da cultura material na Bretanha e perceber o quanto uma herança celta e galo-romana se constituiu não exatamente através de permanências puras e simples, mas de um constante processo de reinvenção que continua até hoje.

Nesse sentido, o que mais atraiu minha atenção foi justamente observar as peculiaridades da arte bretã medieval, em perspectiva comparativa às obras que pude ver no Louvre. Nunca havia dedicado muita atenção à produção medieval de origem céltica, uma vez que sempre me interessei mais pela cultura celta da antiguidade, pelos "irredutíveis gauleses" contemporâneos de Astérix!

A arte da Bretanha na Idade Média é obviamente muito parecida com o resto da produção europeia da época, mas é nítido que sob as mesmas convergências e convenções estilísticas românicas ou góticas, a arte da região soube manter características perceptivelmente "célticas"; o mesmo vale para as expressões do período romano, com um inconfundível "traço" local. Indo além, encontramos um mesmo meneio céltico na época moderna e na contemporaneidade, particularmente no que diz respeito ao entalhe em madeira. Fiquei particularmente impressionado também com as capas de chuva de pescadores, usadas no século XX, que lembram muito os famosos "genii cuculati" da arte galo-romana.

No fim das contas, fica a dúvida: foi a Bretanha céltica que se apropriou de outras expressões culturais ou as tradições posteriores que se apropriaram de um substrato celta? Me parece que nenhuma das duas formulações dá conta adequadamente dessas longas e complexas interações culturais ao longo de dois mil anos...

Talvez nada sintetize melhor essas questões que essa emblemática combinação heráldica sobre a porta de um edifício do século XVII onde hoje funciona um liceu: o arminho da Bretanha e a Flor-de-lis da monarquia francesa lado a lado, em simétrica equivalência...


II - As impermanências do espaço

Há muito tempo atrás, Rennes era uma cidade murada, como a maioria das aglomerações urbanas europeias. Nessa época, a principal porta da cidade era a "Porte Mordelaise", diante da qual, segundo a tradição, os duques da Bretanha deviam prestar juramento de proteger a liberdade do povo bretão, como parte de sua sagração. Era também através dessa porta que aconteciam as entradas reais e episcopais na cidade, acontecimentos de grande importância para a sociedade de Antigo Regime.

 Porte Mordelaise vista "de fora"
 Porte Mordelaise vista "de fora" (detalhe)
Porte Mordelaise vista "de dentro"

O conjunto das muralhas de Rennes foi obra dos séculos, iniciando-se no século III d.C., com as crises do Império Romano, que tornaram necessárias estruturas de proteção da cidade, vulnerável ante episódios de violência de saqueadores famintos. Ao longo da Idade Média esse complexo defensivo aumentaria gradativamente, até o século XV. Após mais de um milênio de trajetória, as defesas de Rennes em sua máxima extensão contavam com doze portas e dezesseis torres.

No entanto, o desenvolvimento da artilharia pesada e principalmente a união do Ducado da Bretanha à coroa francesa tornaram tais edificações inúteis, sendo demolidas ou simplesmente se desmantelando com o passar dos séculos. Atualmente restam apenas a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne (abaixo).
Também a Tour Duchesne tem uma curiosa história: durante séculos foi local dos jogos de "papegaut" em Rennes. Costume surgido na Idade Média,  esses jogos eram competições de companhias de arqueiros, onde uma ave de madeira ou papelão - o "papegaut" - era afixada no alto de um mastro ou de uma torre. Todos os arqueiros tentavam acertar o alvo, e o primeiro que conseguisse recebia o título de "roy du papegaut" e um prêmio invejável: um ano de isenção de impostos! Posteriormente o costume foi incorporado às companhias de arcabuzeiros, caindo em desuso apenas no século XVIII. Poucas cidades, entretanto, obtinham o "privilège de papegaut".

Como se vê, a porta e a torre não eram lugares ordinários, marcando eventos importantes para a cidade ou para o Ducado da Bretanha, que reforçavam seu prestígio social e importância política. Contudo,  muita coisa mudou... Pedindo informações, ninguém sabia o que era a "Tour Duchesne", ou melhor, ninguém reconhecia o topônimo. A torre tão importante, símbolo de um privilégio da cidade, se tornou apenas uma edificação anônima...

Por outro lado, a experiência de cruzar a Porte Mordelaise me pareceu muita curiosa, por um motivo: ela perdeu completamente seu significado original! Afinal de contas, o ato de passar sob seus arcos significava entrar na cidade, não apenas em seu sentido físico e material, mas também simbólico; significava provavelmente gozar da segurança, do prestígio e do privilégio ligado ao interior da enceinte de Rennes. Não é difícil imaginar o quanto de alívio sentiam as pessoas que adentravam o recinto amuralhado numa época em que a região era infestada por bandos de salteadores que não hesitavam em atacar mesmo próximo às muralhas da cidade!

No presente, a distinção entre "dentro" e "fora" deixou de existir, uma vez que a cidade cresceu e a própria muralha enquanto divisor espacial perdeu seu sentido original. Assim como a ausência "densa" da Bastilha é testemunho de transformações sociais significativas, a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne se tornaram testemunhos da ausência "sutil" de uma relação humana com o espaço urbano que se perdeu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Olhares congelados

Tenho pensado muito sobre janelas.

Sempre fui fanático por elas, devo dizer. Sempre que chego a um ambiente novo, boa parte de minha atenção vai para o que se pode ver através da janela. No entanto, subindo as escadarias de Notre Dame, comecei a me dar conta de algo muito interessante: de certo modo, uma janela é um olhar congelado no tempo...

Precisamente ao ver essa janela, comecei a me perguntar: o que alguém via dessa janela, na Idade Média? De lá para cá, quantas pessoas já pararam aqui para olhar o panorama da cidade de Paris? Mas esse foi apenas o começo de uma reflexão, aprofundada visitando o Chateau de Vincennes.
Bom exemplo são as janelas do "chemin de ronde" (acima), o caminho percorrido pelas sentinelas para vigilância do castelo. Comecei a me questionar não apenas a experiência daqueles que estiveram à janela olhando, mas do processo criativo que produziu a janela a ser olhada. Essas janelas foram originalmente concebidas como postos privilegiados para a defesa do castelo, sendo testemunhos de uma concepção estratégica do terreno circundante. Construir uma janela é também dirigir olhares para algo que está em determinada direção. Toda janela traz embutida uma especificidade do olhar, uma perspectiva própria.

Por exemplo, Raymond du Temple, arquiteto do Chateau de Vincennes, construído para o rei Carlos V, foi habilíssimo programador de espaços. Sua grande cartada foi, certamente, a escada do rei, dando acesso aos visitantes.
O projeto era brilhante, correspondendo perfeitamente ao momento de consolidação da monarquia francesa. Essa escada de aparato convidava o visitante a subir lentamente, contemplando através de seus balcões a magnífica e grandiosa fachada do castelo, preparando sutilmente o encontro com o rei. Talvez, por um contágio do olhar, o monarca parecesse tão admirável quanto sua bela fortaleza. Ao mesmo tempo, quão diferentes os modos de ver incitados pelas grandes janelas da escada e as pequenas vigias do "chemin de ronde"! Raymond du Temple era também um exímio construtor de olhares...

Enfim, a janela é frequentemente portadora de uma intencionalidade, seja ela militar, pragmática, estética, religiosa ou mesmo política. Nesse sentido, a janela é testemunho de uma determinada perspectiva, de uma específica interpretação do espaço circundante e do olhar que se quer projetar sobre esse mesmo espaço.

No entanto, é essencial lembrar algo banal: que não se trata obviamente uma imagem congelada, afinal de contas o espaço muda constantemente ao redor da janela. Também é desnecessário dizer que me parece muito difícil (e provavelmente pouco útil) realizar uma "historiografia das janelas"... Ainda assim, vale a pena debruçar-se sobre uma janela antiga, qualquer janela, e imaginar, se perguntar o que seria possível ver dali em outros tempos e, principalmente, por que ela foi construída sob esse ponto de vista. Em suma, tentar enxergar a realidade através desse "olhar congelado"...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A densidade da ausência

Na última semana estive na Place de la Bastille. Como se sabe, a fortaleza foi destruída durante a Revolução Francesa. Hoje restam apenas as pedras que marcam o contorno da construção. Apenas uma placa comemorativa explicita esses vestígios, por sinal difíceis de distinguir com todo o trânsito da praça. Não fossem essas lembranças, pareceriam apenas pedras comuns no chão...

 Ao lado, outra placa, em agradecimento "a nossos pais de 1789", dedicada pelos "estudantes de 1880".
É difícil definir a sensação de estranheza experimentada num lugar que ao mesmo tempo foi, simbolicamente, o epicentro da contemporaneidade, o ponto de partida do estranho mundo em que vivemos hoje, mas que não guarda muitas lembranças visíveis do que era a Bastilha em 1789, à ocasião daquele fatídico 14 de julho.

Por estranho que pareça, o que se sente ali é uma ausência incomensuravelmente densa, como um objeto invisível mas poderoso, um centro gravitacional que só pode ser percebido por seus efeitos; como um buraco negro, talvez, ou como uma radiação de fundo. É como se a Bastilha destroçada nunca tivesse deixado de estar ali; mais complexo ainda, é como se ela só exista significativamente exatamente porque deixou de existir. Um paradoxo: ela só está ali porque não está ali.

Como uma espécie de "matéria escura", uma massa colossal de simbolismo invisível, que faz gravitacionar a seu redor inúmeros outros monumentos significativamente ligados direta ou indiretamente à própria Revolução, como a Torre Eiffel (comemorativa do centenário), o Arco do Triunfo (marcando as vitórias do exército revolucionário), entre tantos outros (Invalides, Conciergerie, etc).

De fato, talvez seja tão importante porque sua ausência represente a posteriori a própria "destruição" do Antigo Regime. De qualquer forma, me parece inevitável que a Bastilha perdeu sua existência material apenas para adquirir um outro tipo de existência muito mais poderosa, onipresente e incontornável: a existência simbólica. Tornou-se um monumento tecido de ausência.