domingo, 28 de agosto de 2011

Chaves, um sábio turco da Idade Média e brinquedos

(texto originalmente publicado em meu blog "A rota para o poente" em 13/02/2010)


Esta semana tive a oportunidade de adquirir no McDonald`s um gracioso bonequinho do Chaves. Além de ser muito bonitinho, com uma expressão hiper-simpática e vir devidamente acompanhado por seu barrilzinho, a miniatura caminha de modo bastante engraçado, movida por uma corda. Passei algum tempo estudando esse movimento, e apreciando a engenhosidade do mecanismo.

De fato,o mecanismo em si é belo por sua simplicidade. Funciona de modo semelhante ao pedal de uma bicicleta, mas de modo invertido, ou seja, o movimento circular da mola impulsiona suas pernas, enquanto em uma bicicleta são as pernas que impulsionam o movimento circular da roda traseira, através do pedal.

Essas observações me levaram a curiosas reflexões. Comecei a pensar sobre esse gênero de mecanismo, classificado como um sistema de biela-manivela, amplamente usado em boa parte das máquinas elaboradas pelo ser humano. Basicamente, é um mecanismo que serve para transformar movimentos retilíneos em circulares e vice-versa. O pedal da bicicleta ou o boneco do Chaves são bons exemplos disso. Poderiam ser citados ainda os motores em geral, as bombas hidráulicas, a maior parte das máquinas industriais, entre muitos outros. Não me aprofundarei mais nessas explicações, pois me faltaria o conhecimento necessário para tanto.

Pensando nisso, lembrei-me de um documentário que assisti faz algum tempo, sobre um engenhoso artesão, matemático e astrônomo turco, chamado Al-Jazari, que viveu entre os séculos XII e XIII. Segundo documentos encontrados recentemente, aparentemente Jazari inventou o "nosso" mecanismo biela-manivela. Seu intento era o de criar máquinas capazes de transportar água de modo automático e eficiente, geralmente tirando-a de corpos naturais de água como rios, lagos, etc e passando-a para aquedutos. Essa era uma funcionalidade de suma importância para a região onde Jazari vivia, dada a aridez de boa parte do Oriente Médio. O sistema biela-manivela parece ter chegado ao Ocidente por volta do século XV, sendo registrado num manuscrito alemão da época, aplicado ao funcionamento de moinhos.

Contudo, é ainda mais interessante pensar que esse mecanismo não é exatamente uma invenção de Jazari, mas uma adaptação (ainda que extremamente engenhosa) de um mecanismo muito mais antigo, a manivela, já conhecida dos antigos romanos e largamente empregada por eles desde o século III a.C., e ainda em uso entre os contemporâneos do sábio turco. Todavia, a própria manivela não era uma invenção romana, pois artefatos arqueológicos recentemente encontrados apontam para o uso desse mecanismo pelos celtas da Península Ibérica já desde o século V a.C., empregado em moedores manuais para grãos. Seriam os celtíberos seus inventores? Impossível dizer.

Todas essas divagações me levaram a refletir sobre a historicidade das menores coisas, a ligar-nos qual fios invisíveis a centenas de gerações humanas, distantes no tempo e no espaço. Ora, pensemos em todo esse longo percurso saindo desde a elaboração da (aparentemente) primeira manivela pelos celtíberos, 2.500 anos atrás, espalhando-se por intermédio dos romanos, que passariam aos árabes seu uso, sendo apropriada, adaptada e modificada por Al-Jazari, desenvolvendo o sistema biela-manivela, que por sua vez chegaria três séculos mais tarde à Europa, onde seria empregada de inúmeras formas através dos últimos quinhentos anos, utilizada hoje para fins que não passariam pela cabeça dos celtíberos, dos romanos, dos árabes, de Al-Jazari ou dos moleiros europeus... por exemplo, fazer uma miniatura do Chaves caminhar graciosamente pela mesa de minha sala numa madrugada de sexta-feira!

No fim, os homens de todos os tempos e lugares estão ligados até pelas mais ínfimas coisas.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Uma breve História da civilização ocidental... segundo meus alunos - Humor

Prof. Luiz Fabiano de Freitas Tavares

Devemos começar o texto a partir de certas reflexões metodológicas. Inicialmente, a História é conhecimento dos mais questionáveis, uma vez que ninguém estava lá para contar. Ainda assim, podemos conhecer parcialmente o passado, pesquisando em meios confiáveis como a Internet ou assistindo filmes e novelas[1]. Deve-se observar, todavia, que alguns especialistas afirmam que a História propriamente dita só começou em meados do século XX, uma vez que até então não existia televisão, e nada que aconteceu antes pode ser considerado histórico ou importante, dada a impossibilidade de sua transmissão televisiva[2].
Alguns dizem que no começo, havia apenas Adão e Eva. Outros sustentam que os homens surgiram do macaco, e eram semelhantes a minotauros, pois tinham corpo de homem e cabeça de índio. De qualquer forma, o fato é que os homens pré-históricos viviam felizes, falando uga-uga e caçando dinossauros (ou, de vez em quando, sendo caçados por eles). A Pré-história foi marcada pela criação de espantosos instrumentos, como a bicicleta de pedra com rodas quadradas ou os automóveis propulsionados pelos pés dos passageiros[3]. Além disso, eles tinham o exótico hábito de andar pelados no ônibus cheio, esfregando-se uns nos outros[4].
Contudo, esse estilo de vida harmonioso estava ameaçado por perigos vindos do espaço sideral. Repentinamente, um meteoro caiu do espaço, arrasando com os dinossauros e deixando os humanos em profunda tristeza. Algum tempo mais tarde, os extraterrestres viriam transformar inteiramente a vida na terra.
Os alienígenas chegaram sem aviso prévio, em discos voadores, fundando uma civilização no Egito antigo. Os antigos egípcios tinham um rei chamado Faroeste, e todos eram seus escravos. Os seres de outro planeta construíram pirâmides grandiosas e criaram múmias amaldiçoadas que andam com as mãos esticadas e atacam aqueles que encontram pelo caminho. Hoje, felizmente, todas estão mortas e ficam nos museus. Também é importante salientar que os egípcios chamavam suas rainhas de cleópatras.
Outro povo que se destacou na época foram os gregos. A principal cidade da Grécia era Esparta, lar dos espartalhões, que, com um exército de apenas trezentos bravos soldados enfrentou as tropas de Xerxes, um cara do Mal. Deve-se destacar ainda a figura de Alexandre, o Grande, que se tornou notória por sua homossexualidade, sabendo-se muito pouco sobre seus demais feitos, embora alguns de nossos especialistas afirmem que ele era gay, mas era muito forte[5].
Esses povos costumavam ter muitos deuses, forma de religião conhecida como poloteísmo. No entanto, um dia, Zeus, o chefe deles, depois de consulta com uma numeróloga, passou a se chamar Deus, levando à extinção dos demais deuses e ao surgimento do monoteísmo.
Apesar das evidentes conquistas da civilização, as pessoas dessa época padeciam de um grave mal, Deus ainda não inventara um método eficiente para a alma subir. Para tanto, ele fez nascer Jesus Cristo, filho de um humilde carpinteiro, José Cristo e sua esposa, Maria Cristo. Após o padecimento de Jesus Cristo na cruz, Deus finalmente solucionara o problema da subida das almas.
O triste episódio da crucificação seria acompanhado pela malhação de Judas, o homem que havia mandado matar Jesus. Judas foi enforcado e espancado pelos apóstolos de Jesus, dando origem a uma célebre tradição. Jesus foi morto numa sexta-feira, 13 de outubro, de modo que todo dia 13 de outubro cai numa sexta-feira[6]. Contudo, Jesus deixava descendentes, pois tinha se casado com Maria Madalena (presumivelmente Maria Madalena Cristo em seu nome de casada) e teve muitos filhos com ela, embora esses filhos devam estar muito velhos atualmente.
Esse período de amplo florescimento da cultura ocidental seria interrompido pelas invasões das tribos bárbaras, como os Gordos ou os Frangos, iniciando a Idade Média, período assim denominado devido à estatura mediana da população. Existem, contudo, divergências, e alguns especialistas acreditam que o nome se deve ao fato de a Idade Média não ter sido nem muito longa, nem muito curta, logo tendo uma duração média. Deve-se destacar a importante atuação do imperador Carlos Morgan na expansão do reino dos Frangos. Essa época veria também o surgimento de estranhas criaturas, como dragões, fadas ou bruxas, embora a maioria dos dragões tenha se tornado extinto pela caça predatória dos cavaleiros.
Ao fim da Idade Média temos o surgimento da Idade Moderna. Nesse período se iniciariam as grandes navegações, graças à invenção dos navios a vela, apesar dos riscos da última se apagar durante a viagem. Esse movimento seria tragicamente marcado pela guerra entre os índios e os humanos, uma vez que os últimos detinham tesouros cobiçados pelos primeiros. Apesar disso, os humanos venceram a guerra. A primeira coisa que fizeram foi vestir os índios; a segunda, escravizá-los.
No século XVIII surgiria o movimento filosófico do Ilusionismo, cabendo salientar as significativas contribuições do célebre filósofo Voltará. Acredita-se que Voltará se correspondia com Rolsseao por e-mail ou MSN. É certo, contudo, que ambos tinham adicionado Condorcete no Orkut. Os pensadores ilusionistas eram capazes das mais sofisticadas reflexões e das maiores proezas da prestidigitação. Não à toa, num piscar de olhos, eles realizaram o mais fabuloso truque de mágica: transformaram a Idade Moderna em Idade Contemporânea.
Não há muito que dizer sobre a Idade Contemporânea, exceto que nela aconteceu uma grande guerra contra os nazistas e Hifler, que, tal como Xerxes, eram caras do Mal. A guerra foi vencida pelos caras do Bem quando lançaram uma bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima. Na verdade, seu alvo era Tóquio, mas havia grande nevoeiro e os pilotos do avião erraram o alvo. Por fim, os caras do Mal “peidaram na farofa”, servindo-nos da perspicaz observação do insigne David.
Embora seja algo que escape ao puro rigor acadêmico, concluímos esse trabalho falando sobre o futuro, citando as profecias de São Rodolfo de Quintino:
Você acredita que Jesus vai voltar? Jesus vai voltar, e quando ele voltar vai ser muito sinistro. Vai começar geral morrendo, as parada explodindo, os carro tudo batendo! E quem tiver feito m...., tá f......., os traficante, os ladrão, essas p..... toda. É, neguinho, quando Jesus voltar, o bagulho vai ficar neurótico[7]!


[1] Como observa J. Pedro, podemos citar como bom exemplo de novela com temática histórica, Os mutantes.
[2] Devemos essas brilhantes conclusões às brilhantes pesquisas de M. Jesus.
[3] Sobre essas invenções consultar LANTZ, Walter. Pica-pau e HANNAH, John e BARBERA, Joseph. Os Flinstones.
[4] Sobre essas orgias pré-históricas no sistema de transporte coletivo, recomendamos os recentes trabalhos de I. Fernandes.
[5] Cf. MILLER, Frank. 300 e os recentes estudos de outros especialistas.
[6] Embora essa observação seja claramente contraditada pelos fatos é obsessivamente defendida pelos trabalhos de H. Vinícius.
[7] O texto foi objeto de censura em algumas partes, dadas as peculiaridades do discurso de São Rodolfo de Quintino, pouco afeito às práticas proféticas convencionais, visando a preservação do decoro acadêmico. Deve-se destacar ainda as evidentes dificuldades do ilustre profeta em dominar o uso de qualquer forma de concordância verbal ou nominal.