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sábado, 31 de dezembro de 2011

Teatro, aparência e poder

Escrevi esse pequeno texto como parte de minha dissertação de mestrado, mas acabei não utilizando. Resolvi postar por aqui. Por sua própria natureza de trecho inutilizado, ele começa abruptamente e não se encaminha a nenhuma conclusão, mas sei que os amigos tirarão suas próprias...
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.

As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.

É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.

No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.

A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.

Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Histórias de família - Tesouros escondidos

Quem nunca sonhou em caçar velhos tesouros esquecidos em algum lugar? Aqueles que, como eu, cresceram assistindo Os Goonies em inúmeras reprises televisivas com certeza já se imaginaram vasculhando cavernas cheias de armadilhas com mapas poeirentos nas mãos! De fato, esse tipo de história parece ter algo de muito cativante para a imaginação ocidental, desde muito antes de Robert Louis Stevenson publicar sua Ilha do Tesouro. Mesmo o povo de Laguna no início do século tinha sua cota de tesouros secretos...

Meu avô contava que em sua região natal corria a lenda de um tesouro perdido em pleno litoral catarinense. Dizia o povo de lá que escondidas em algum lugar perto de Laguna estavam as misteriosas "panelas de ouro dos jesuítas"... A historia dizia que antes de sua expulsão do Brasil, no século XVIII, os inacianos de Santa Catarina teriam deixado guardadas num lugar secreto das redondezas suas "panelas de ouro", um riquíssimo tesouro. A bem da verdade, nunca consegui entender muito bem como seria composto esse tesouro: seriam panelas feitas de ouro fundido? Ou teriam os astutos jesuítas guardado seus tesouros em panelas? No segundo caso, sempre me pareceu um lugar inusitado para se guardar uma fortuna! Por que não baús? Seria muito mais tradicional, afinal de contas... Meu avô achava mais provável a segunda opção, por razões que mencionarei adiante.

Ainda em meados do século XX as "panelas de ouro dos jesuítas" atraíam seu quinhão de aventureiros. Meu avô se lembrava de que durante sua infância houve algumas pessoas que chegaram a percorrer as matas da região em busca do cobiçado tesouro. Alguns desses Indiana Jones catarinenses vinham mesmo de cidades próximas. Apesar disso, a população de Laguna jamais viu as tão famosas panelas...

Há poucos anos encontrei um livro muito curioso, Tesouros do Morro do Castelo, de Carlos Kessel. Para minha surpresa, o livro falava sobre uma lenda muito parecida, que circulou no Rio de Janeiro até o desmanche do Morro do Castelo, em 1922. A versão carioca do "mito" falava também de um tesouro oculto pelos jesuítas antes de sua expulsão. Assim como no caso catarinense, o autor relata que muitas pessoas tentaram encontrar essa fortuna, como documentam notícias de jornais da época. Pelo visto, esses aventureiros provocavam tanta sensação no Rio quanto em Laguna, a despeito da siginificativa diferença de tamanho das duas cidades. Ainda mais instigante é que descobri, através desse livro, que histórias semelhantes sobre os supostos tesouros perdidos da Companhia de Jesus são comuns em muitos outros lugares do Brasil.

Tais lendas falam muito sobre o imaginário construído em nosso país desde a época colonial. Imaginário marcado pelo cobiçado ouro das Minas Gerais, mas também pela rica fortuna dos inacianos. Mitologia de santos do pau oco, piratas e contrabandistas, mas também de poderosos clérigos, que na sombria lenda pombalina se tornaram um "Estado dentro do Estado". Creio que uma análise aprofundada dessas histórias daria margem a um rico estudo de mitologia comparada, o que certamente escapa a nossas possibilidades aqui...

No entanto, o legendarium lagunense não vivia apenas de áureas panelas guardadas por cúpidos religiosos... Laguna escondia outros tesouros, menos feéricos, mas reais. Dizia meu avô que não era raro que durante obras nas velhas casas do lugar, construídas no século XVIII ou no XIX, fossem encontrados dentro das paredes recipientes, principalmente canecas de louça, abarrotados de antigas moedas de ouro. Essas ocasiões já eram pouco comuns quando meu avô era criança, mas meus bisavós, nascidos no final do século XIX, viram isso acontecer com maior frequência. É irônico pensar nessas economias familiares avaramente guardadas com tanto cuidado que caíram no esquecimento.

Não é difícil imaginar quanto esses acontecimentos afetavam o imaginário popular, principalmente numa pequena cidade. Creio que boa parte do fascínio pelas "panelas de ouro" vinha dessas humildes canecas; a realidade alimentava a lenda, incendiando a esperança e a ganância dos caça-tesouros de plantão... Meu avô atribuía a esses pequenos tesouros reais a opção pelas singulares panelas na invenção da lenda. Afinal, se os cidadãos comuns lagunenses haviam guardado suas pequenas fortunas em canecas, objetos cotidianos, apenas enormes panelas seriam artefatos do dia-a-dia suficientemente grandes para guardar a fabulosa riqueza da Companhia de Jesus....

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Lévi-Strauss e os estudantes brasileiros

Estou lendo Tristes trópicos, para minha tese. O livro tem várias passagens interessantes, mas uma delas me chamou bastante a atenção. No trecho em questão, Lévi-Strauss relata sua impressão sobre os estudantes universitários brasileiros, nos idos de 1934. Achei curioso perceber o quanto esse "tipo" ainda é muito comum nas nossas universidades. Acredito que não seja exclusividade nossa, mas não posso imaginar quão difundido em outros países seja esse gênero de estudante...

"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer área que fosse, somente a teoria mais recente lhes parecia digna de ser retida. Cansados de todos os festins intelectuais do passado, que aliás eles conheciam apenas por ouvir dizer, pois não liam as obras originais, eles conservavam um entusiasmo sempre disponível para os pratos novos. Em seu caso, seria melhor falar de moda que de culinária: ideias e doutrinas não ofereciam a seus olhos um interesse intrínseco, eles as consideravam como instrumentos de prestígio dos quais era necessário assegurar o monopólio. Compartilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a vestir uma roupa já vista; arriscava-se a perder o rosto. Pelo contrário, uma concorrência encarniçada se fazia a grandes golpes de revistas de divulgação, de periódicos de sensação e de manuais, para obter a exclusividade do modelo mais recente no domínio das ideias. Produtos selecionados dos haras acadêmicos, meus colegas e eu nos sentíamos frequentemente embaraçados: formados para respeitar apenas as ideias maduras, nos encontrávamos ante o assalto de estudantes que ignoravam totalmente o passado, mas cujo informação estava sempre alguns meses à nossa frente. No entanto, a erudição, de que eles não tinham o gosto nem o método, lhes parecia ainda assim um dever; então, suas dissertações consistiam, não importando o tema, de uma evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides para acabar através de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo viscoso cuja obra tinha tanto mais mérito quanto sua obscuridade dava uma chance de que ninguém mais tivesse tido ainda a ideia de pilhá-lo".
Também é interessante sua citação sobre a formação de séquitos em torno de alguns professores:

"Cada um de nós media sua influência pelo tamanho da pequena corte que se organizava ao seu redor. Essas clientelas mantinham uma guerra de prestígio cujos professores queridos era os símbolos, beneficiários e vítimas".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O braçal trabalho dos cientistas

Em meu primeiro semestre de graduação tive de ler "Que é História?", de E. H. Carr. O autor comentava que na Idade Moderna o trabalho dos primeiros cientistas era frequentemente visto com desdém, por ser associado aos ofícios manuais, atribuídos à plebe. Essa informação me causou grande estranhamento na época, não devido ao menosprezo pelos manopera comum ao Antigo Regime, que já me era familiar. O que então me pareceu surpreendente foi essa associação entre a pesquisa científica e o trabalho braçal, tão diferente da concepção que temos hoje do cientista, enquanto intelectual, pioneiro do conhecimento. Desde então, me tornei mais familiar à ideia, através de leituras realizadas nesses últimos anos. Contudo, essa semana, pude finalmente compreender com toda a clareza!

A noite estava estrelada, ostentando uma belíssima Lua. Me lancei às atividades de astrônomo amador. Foi então que percebi o quanto necessitava me deslocar, movimentar o telescópio para um lado e outro, mexer daqui, dali e dacolá, puxar e empilhar cadeiras, sentar no chão ou me acocorar... Tudo isso para conseguir focalizar devidamente os corpos celestes que pretendia observar. De fato, por mais intelectual que tal atividade possa parecer, me dei conta da quantidade de trabalho braçal que ela envolve!

Comecei a pensar em outros casos, imaginando os primeiros anatomistas abrindo cadáveres... Que pensaria um aristocrata vendo Vesalius com um avental imundo de sangue, como um açougueiro? Ou os primeiros microbiologistas? Certamente a figura de Spalanzani fervendo caldos para cultura de bactérias, suando esbraseado pelo calor de um fogareiro não devia parecer muito lisonjeira a um fidalgo penteado, perfumado e bem vestido! Enfim, a própria imagem de um laboratório dessa época devia parecer aos nobres uma desagradável mistura de oficina, cozinha e açougue...

A questão é ainda mais marcante se pensarmos nas concepções sobre essência e aparência comuns ao imaginário do período. Como vários historiadores apontam, para a cultura de Antigo Regime, a aparência de algo deveria expressar de modo claro e inequívoco a sua essência. Um cientista suado, sujo, esfalfado seria, naturalmente, um trabalhador braçal, com toda a carga pejorativa associada aos ofícios mecânicos.

Parece-me elucidativo citar uma curiosa passagem escrita por Da Vinci, proclamando a superioridade do pintor sobre o escultor. Embora as ideias se refiram ao campo da Arte, parecem-me facilmente transponíveis ao das Ciências, mesmo porque as artes também eram consideradas ofícios manuais.

Segundo resume a historiadora da Arte Elisa Byington no livro O projeto do Renascimento, Leonardo afirmava que a escultura seria inferior porque "fazia suar, gerava mais cansaço físico e exigia menos esforço mental na sua realização". Descrevia ainda o escultor vivendo "em uma casa suja com a cabeça coberta por pó de mármore 'feito um padeiro'" (grifo meu). O pintor, ao contrário, "podia realizar seu trabalho bem trajado e sentado com grande conforto, segurando um pincel leve e usando cores agradáveis" (grifo meu). Não é difícil imaginar o que ele diria de Galileu Galilei fazendo ginástica ao telescópio...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sobre a arte da pechincha e a invenção dos preços

No último domingo fui à Feira da Providência, adquirir novas quinquilharias e badulaques para minha coleção de artesanato. Acabei esbarrando no stand da Síria, onde vivi uma experiência, digamos, singular. Eu minha esposa vimos uma linda mesa em marchetaria. Perguntamos o preço a um vendedor, que respondeu em sofrível inglês. Como não demonstramos interesse e esboçamos movimento para sair, ele ofereceu um preço menor; começamos a negociar, mas tivemos dificuldade para compreender seu inglês. Perguntei se ele falava francês e - voilà! - apareceu outro vendedor, francófono. A negociação continuou, mas logo este último chamou um terceiro, e começaram a discutir entre si detalhes sobre o pagamento... em árabe. Logo havia outros ao nosso redor, e nos vimos em verdadeira Babel! No fim das contas, trouxemos a mesa por cem reais a menos. Infelizmente não sou muito versado nas artes da pechincha, pois creio que poderia tê-la comprado por muito menos!

Como todos sabem, o episódio não tem nada de muito espantoso, considerando a proverbial fama dos comerciantes do mundo islâmico, onde esse tipo de negociação é praticamente uma regra de etiqueta. Me senti num verdadeiro estereótipo de mercado árabe de filme das mil e uma noites! No entanto, essa pequena "aventura" me suscitou reflexões sobre alguns velhos e conhecidos temas, mais especialmente a "invenção" dos preços e a reificação das relações econômicas.

Uma das referências mas evidentes nesse sentido é o bom e velho Marx com seus célebres conceitos de valores de uso e troca, sobre os quais considero desnecessário tecer maiores comentários. Particularmente, minha curiosa negociação me fez pensar no quanto o processo de elaboração dessa conceituação enquanto ferramenta analítica é especificamente ocidental e contemporâneo. De fato, não me parece que Ibn Khaldun teria necessitado dela para pensar sobre as sociedades magrebinas da Idade Média,por exemplo; pelo contrário, essa diferenciação lhe seria provavelmente aparente, talvez mesmo evidente.

Por outro lado, nós necessitamos explicitar distinções desse gênero, pelas condições específicas com que nossa cultura experimenta a economia. Desde o século XVIII a sociedade ocidental tem presenciado insistentes e incessantes esforços por parte de pensadores e instituições visando à construção de uma imagem reificada da economia, onde se perde justamente a dimensão do mundo econômico como universo de relações estabelecidas entre grupos e indivíduos. A economia que vemos retratada nos periódicos, telejornais e muitos livros é um ser autônomo, dotado de vida própria e regido por princípios claramente identificados, supostamente previsíveis. Romper com a velha noção de "mão invisível" nem sempre é fácil para nós...

Justamente o que despertou minha atenção a partir dessa recente experiência é o quanto o contrário pode ser evidente em outro contexto cultural. A etiqueta oriental de negociação pressupõe justamente o contrário de nossa noção reificada de economia. Pelo contrário, a invenção do preço, suas dimensões relacionais e negociadas são por demais explícitas nesse contexto. Igualmente aparentes se tornam as relações de poder envolvidas em qualquer negociação (remetendo a Hegel e sua "dialética do senhor e do escravo"...). Nessa perspectiva, a ficção de uma economia autônoma e autorregulada se tornaria provavelmente uma ideia difícil de sustentar. Imagino com que dificuldade Aladim ou Ali Babá leriam Adam Smith...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Histórias de família - Os fantasmas de meu avô

Tive a imensa sorte de nascer em uma família fortemente marcada pela transmissão de conhecimento de geração para geração através da tradição oral, além de inúmeros objetos passados como relíquias através de décadas. Por exemplo, tenho em minha parede um velho relógio de pêndulo com quase 150 anos de idade, importado da Alemanha sob encomenda para o casamento do avô de meu avô (seria meu tataravô?). Embora não funcione mais, já viu passar cinco gerações da família!

Cresci ouvindo meu avô e minha avó contando anedotas, episódios e casos dos mais variados tipos, desde situações cômicas a histórias tristes. Relatos de amores proibidos, guerras e revoltas, tesouros escondidos e assombrações. Enfim, fui educado numa tradição oral quase "tribal", sempre realimentada nas conversas familiares. Com toda certeza, essa vivência teve grande relevância em minha inclinação ao culto de Clio. Pretendo agora compartilhar com meus amigos esses tesouros de família...

Duas narrativas que me fascinaram quando criança foram as histórias de "fantasmas" contadas por meu avô, Waldo. Ele nasceu em Laguna, Santa Catarina, em 1925, e teve uma infância muito pitoresca. Ele contava que durante anos, em sua meninice, um cemitério da cidade fôra considerado mal assombrado... à noite as pessoas viam de longe luzes estranhas aparecendo sobre o campo santo... Não é necessário dizer que essas "aparições" provocavam medo em muitos. Até que em meados da década de 1930 andou por lá um cientista vindo da Alemanha, pesquisando alguma coisa na região (não sei exatamente o quê...). Quando soube da história, ele logo concluiu do que se tratava: fogo-fátuo, um fênômeno natural comum em lugares onde há corpos em decomposição, como brejos, pântanos ou cemitérios. A putrefação libera gase como fosfina (PH3) e metano (CH4), que entram em combustão ao contato com o oxigênio do ar. Aliás, as interpretações sobrenaturais sobre o fogo-fátuo abundam em diversas culturas da América, Europa e África. Até em Laguna... O episódio impressionou vivamente a meu avô, que o lembraria para o resto da vida. Posso imaginar a decepção que a explicação deve ter provocado em muitos habitantes da cidades, enquanto outros lagunenses devem ter permanecido céticos em relação à solução científica do fenômeno... Por sinal, me parece um episódio muito ilustrativo daquilo que Weber denominou Weltentsauberung, o famoso "desencantamento do mundo".

Outra história interessante e engraçada se passou anos mais tarde, por volta de 1942. Nessa época meu avô estudava na Escola de Grumetes, atual Colégio Naval, em Angra dos Reis. Muitos jovens grumetes estavam então impressionados com as frequentes aparições de um errante vulto branco sobre um morro próximo dos alojamentos. Obviamente, muitos pensavam que era um fantasma. Um corajoso sargento resolveu então desvendar o mistério. Munido de um revólver e um pedaço de pau subiu no morro e ficou à espreita, aguardando a aparição... Quando a assombração finalmente surgiu, o sargento saiu de seu esconderijo ao encontro do espectro, gritando: "Se for fantasma é tiro, se for homem é paulada!" O fantasma logo respondeu, apavorado: "Sou gente, sou gente!", tirando o lençol que o encobria. Era um dos grumetes, metido a engraçado, que saía escondido para assustar os colegas. Imagino que tenha se divertido bastante ao ouvir os relatos dos camaradas. Pobres rapazes, o verdadeiro fantasma que iriam enfrentar era a II Guerra Mundial! Mas essa é outra história...

O tradicional relógio dos Tavares!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Devaneios histórico-astronômicos

Depois de longuíssimas semanas de espera, finalmente chegou meu ansiosamente aguardado telescópio e comecei minhas atividades de astrônomo amador. Trata-se, obviamente, de um aparato para principiantes. Mas apenas para os padrões atuais, pois é superior aos primeiros telescópios empregados no século XVII pelos pioneiros da astronomia moderna. O fascínio da observação astronômica é indescritível. E, além de uma janela para o céu, também me fez ver com novos olhos a história da ciência.

Um dos aspectos que me chamou a atenção nesse sentido é a dificuldade do manuseio do instrumento; apontar o telescópio para a estrela que se quer observar (ou mesmo a Lua) não é tarefa tão fácil quanto parece... Pelo contrário, minhas primeiras tentativas de observar estrelas foram tão frustrantes que cheguei a pensar que seria impossível. Fiquei imaginando o quanto deve ter sido difícil para Galileu, Kepler e outros de sua época, afinal, ao contrário de mim, eles eram pioneiros que criaram ex nihil a arte da observação celeste. Quanta perseverança, fadiga, talvez mesmo fé, não lhes teria sido necessário? Difícil saber, difícil mesmo imaginar... Por outro lado, eles não precisavam enfrentar metade da poluição luminosa que temos hoje em dia!

Outra questão curiosa é a fragilidade dos dados empíricos obtidos através de um telescópio como esse. As interferências são inúmeras: um vento mais forte pode fazer as estrelas bailarem no céu ou água correr sobre a Lua, devido a efeitos de refração! É fácil corrigir mentalmente esses desvios, tendo uma base teórica prévia. Mas como fazê-lo sem ela? Igualmente, não é difícil perceber que uma estrela é um distante Sol, sabendo disso de antemão; sem esse conhecimento, todavia, parece muito questionável. Era exatamente nesse solo movediço, nesse terreno incerto, que os primeiros astrônomos se aventuravam. Não é à toa que muitos se mostravam resistentes ou reticentes em relação às revelações propostas pela astronomia. Não era meramente questão de fanatismo religioso. Ao contrário do que costumamos pensar na era Hubble, esses primeiros telescópios deixavam larga margem para as dúvidas.

Essa experiência só tem tornado mais evidente para mim o quanto a grande revolução do conhecimento da natureza na modernidade deve à abordagem matemática capaz de tornar inteligíveis esses dados empíricos. Mais revolucionário que o telescópio foi o olhar projetado através dele...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Qual é o tamanho do Brasil?

Há pouco tempo parei para refletir mais detidamente sobre uma situação com que tenho me deparado com certa frequência em meus poucos anos de exercício do magistério: ao comentar sobre as dimensões de nosso país, inúmeros alunos já manifestaram a firme convicção de que o Brasil é territorialmente pequeno. Sempre que encontro esse tipo de opinião esclareço que nosso país tem dimensões continentais, que é o quinto maior do mundo, que a Europa inteira caberia na superfície do Brasil e que, por exemplo, ele é nada menos que quinze vezes e meia maior que a França, maior país da Europa Ocidental, e por aí vai... A maioria deles fica muito surpresa com essas informações; mesmo aqueles que já sabiam que o Brasil é um país grande ficam espantados ao se darem conta de que ele é realmente ENORME.

Até poucos meses atrás simplesmente botava isso na conta da ignorância desses alunos. Entretanto, recentemente comecei a me indagar sobre o fundo ideológico por trás desse aparentemente banal desconhecimento sobre a área do Brasil. De fato, como tantas crianças chegam à conclusão de que nosso país é "pequeno"? Aliás, que significaria verdadeiramente ser um país "pequeno"?

Creio que em grande parte essa atitude seja derivada da exposição desses jovens à imagem comumente veiculada na mídia e frequentemente apropriada pela maioria de nossa população, entre os mais variados graus de instrução: o Brasil é um país miserável, com precárias condições de vida, assolado pela corrupção, tecnologicamente dependente, vítima do imperialismo capitalista, terra de corrupção, e muitos outros  etceteras e tais... Enfim, a velha imagem auto-depreciativa que nós brasileiros nos tornamos especialistas em construir e que os meios de comunicação de massa não cansam de alardear com seu sensacionalismo moralista barato. Diante desse quadro tão dramaticamente pintado com pinceladas de auto-complacência e tintas à base de complexo de inferioridade, que opinião meus caros alunos poderiam construir sobre as dimensões do território nacional? A de um país "pequeno", refletindo de modo muito eloquente a suposta condição subalterna do Brasil.

Assim como a maior parte de nosso povo, meus alunos estão cegos ao importante momento que temos vivido, fruto de muitos anos de transformações históricas ao longo do século XX, que cada vez mais vêm consolidando a posição de potência emergente de nosso país no plano mundial. Poucos percebem que, mais que um país grande, o Brasil é cada vez mais um agente de peso nesse mundo global e multipolar em construção.

Enfim, concluo por outro questionamento: a quem interessa um Brasil "pequeno"?

domingo, 13 de novembro de 2011

Ainda sobre a ocupação da USP

A brutalidade policial em si é profundamente lamentável, não há nada que a justifique, mesmo contra o pior dos traficantes, assassino ou estuprador. No entanto, a comoção pela violência contra os estudantes de classe média da USP me lembra outros momentos da hipocrisia elitista de nosso país. Cito um eloquente trecho de Thomas Skidmore em "Uma História do Brasil", sobre a Ditadura Militar, tão veementemente citada nessas últimas semanas...

"A elite sempre fora capaz de permanecer na ignorância do verdadeiro funcionamento do sistema de justiça criminal, o que mudou com a guinada altamente autoritária em 1968, uma vez que o movimento de guerrilha era liderado principalmente por jovens insatisfeitos da elite, não por trabalhadores. [...] As forças de segurança interrogavam todos os suspeitos da guerrilha com os métodos que eram normais para criminosos comuns mas não praticados com a elite. [...] Elite e não-elite tinham o mesmo tratamento. Quando relatos desse tratamento brutal vazavam, as famílias das vítimas da elite ficavam verdadeiramente chocadas."

Impressões sobre a ocupação da USP

De saída aviso que não pretendo aqui defender nenhum dos lados, nem discutir qual dos dois tem ou não razão. Nenhuma simpatia para com os estudantes nem para com as forças do governo. Tampouco pretendo falar da mídia tendenciosa mais do que já se falou ou seria possível falar. Pelo contrário, pretendo situar essa discussão num nível "metapolítico", propor o problema, não a solução; esta é uma simples provocação. Como assim?

Vamos direto ao ponto: o que mais tem me chocado ultimamente no Brasil, particularmente nesse caso, é a superficialidade do debate político articulado em nosso país. E não só pela grande mídia, mas pelas pessoas em geral. E digo mais, não pelo "povão" pouco instruído. Esses, infelizmente fazem o que podem, dentro das possibilidades que sua parca educação lhes faculta. O que me incomoda é ver pessoas com considerável grau de instrução expressando opiniões constrangedoras por sua superficialidade.

O que vi no caso USP foi uma polarização em torno de heróis e vilões. Os estudantes eram maconheiros ou paladinos da democracia, sem meios termos. Por sinal, achei a atuação desses estudantes patética pela inabilidade de articular um discurso que fosse muito além do brado em torno de palavras de ordem que já se tornaram verdadeiros clichês políticos em nossa sociedade, como "cidadania", "liberdade" ou "democracia". Por sinal, "Democracia" me parece a mais bela palavra inventada pelo léxico ocidental. No entanto, anda tão gasta, enxovalhada, surrada, que não diz muita coisa; o termo parece ter se tornado moedinha de cinco centavos, circula muito, valendo pouco. Que "democracia" é essa que todos almejam? Por outra, será que todos almejam a mesma "democracia"? Brevemente pretendo desenvolver melhor essa ideia em outro texto.

Voltando ao tema central, acho que o discurso político no Brasil, quiçá no mundo, conservador ou radical, sofre de anemia hoje. O debate se resume a uma fina casca, com uma polpa pouco suculenta. Espremido, rende pouco. Parece-me que, cada vez mais, na "era das imagens", a polêmica se resume a slogans, grafitados em muros ou compartilhados em redes sociais. Discussão política de verdade não se faz (apenas) com slogans e ideias baratas jogadas num vídeo de Youtube. Precisamos ir além dos moralismos e sensacionalismos políticos banais e piegas. Afinal de contas, como já dizia uma frase muito espirituosa cujo autor não lembro agora, "nada mais perigoso que um idiota com iniciativa"...

sábado, 15 de outubro de 2011

Leituras - "A ilha do dia anterior", de Umberto Eco

Um dos melhores romances históricos que já li. Passado no século XVII, o livro narra a história de Roberto Pozzo di San Patrizio, senhor della Griva, jovem fidalgo italiano que após um naufrágio chega a num navio abandonado numa ilha do Pacífico Sul. Ali divide seu tempo entre a busca de um intruso misterioso e as memórias de sua vida. A partir desses elementos o autor constrói uma narrativa não-linear que nos leva através de um passeio pela cultura seiscentista, passando pela infância de Roberto no Piemonte, sua participação no cerco à fortaleza de Casale, suas aventuras na Paris de Richelieu, além de uma viagem pelos oceanos entre excêntricos passageiros de um navio.

O romance adota inúmeros estilos de escrita ao longo de suas páginas mimetizando de forma curiosa e criativa as peculiaridades da literatura barroca. Através de inúmeros personagens marcantes o livro evoca as características mais variadas da época, com grande destaque para as mais diversas extravagâncias intelectuais; Eco lembra que este foi o século de Descartes e Galileu, mas também uma época de literatura exuberantemente exótica, de esoterismo delirante, de utopias mirabolantes e, principalmente, que as fronteiras a separar umas das outras eram muito tênues.

"A ilha do dia anterior" é uma verdadeira viagem pelo "Grand siècle", um livro que abre as portas para uma compreensão profunda e empática da mentalidade de uma época ao mesmo tempo muito semelhante e diferente da nossa...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Chapolim Colorado no reino de Clio

No último post discuti algumas possibilidades de abordagem do Chaves numa perspectiva historiográfica. Hoje é a vez do Polegar Vermelho. "Oh, e agora, quem poderá me ajudar"?

A princípio, me parece que as aventuras do Chapolim Colorado constituem um universo ainda mais rico para a pesquisa do historiador, por diversos motivos. Como meus movimentos são friamente calculados, explorarei apenas alguns deles.

Uma possibilidade bastante instigante é utilizar os episódios "históricos" de Chapolim para estudar História e Memória na cultura popular. Afinal de contas, como sabemos, Chapolim é um grande contador de histórias, tendo já narrado as façanhas de Cristóvão Colombo, Leonardo da Vinci, Júlio César, entre muitos outros. Aliás, não podemos esquecer que geralmente essas histórias não são narradas isoladamente. Pelo contrário, os relatos de Chapolim são sempre feitos em função dos problemas vivenciados por algum personagem, geralmente desempenhando uma utilidade exemplar, numa perspectiva de "historia magistra vitae", o que por si só já daria um interessante estudo sobre os usos da História na cultura contemporânea. Também não podemos esquecer das inexplicadas viagens no tempo realizadas pelo Vermelhinho, que permitiriam abordagem semelhante, caso de suas aventuras no Velho Oeste, entre piratas, etc.

Além desses episódios "históricos" não podemos esquecer dos literários, que trazem versões chapolinescas de clássicos da literatura como Fausto, "Juleu e Romieta", Pigmaleão, etc. Esses episódios me parecem muito instigantes como fontes para o estudo das relações entre cultura popular e erudita, fornecendo material para Chartier nenhum botar defeito!

Por outro lado, existem outros aspectos instigantes a investigar, como os inúmeros episódios de Chapolim que fornecem alguma representação de situações contemporâneas à época de produção do seriado, especialmente da Guerra Fria, notadamente das corridas armamentista e espacial, como é o caso dos episódios com tramas de espionagem, viagens espaciais, ou armamentos e inventos mirabolantes, como o "extrato de energia volatium" ou o "debilizador potencial". Mas... "Palma, palma, não priemos cânico"! É importante lembrar que essas alusões ao contexto coetâneo nunca são diretas e explícitas, o que, na verdade, só torna seu estudo ainda mais interessante. Além disso, as referências são sempre distorcidas, exageradas, como convém à linguagem humorística, obviamente. Contudo, o que tornaria mais rica essa análise é justamente o caráter periférico de Chapolim, como produção mexicana, oferecendo uma perspectiva diferente do que podemos encontrar num filme de James Bond, por exemplo.

Nesse sentido convém destacar talvez a possibilidade de pesquisa mais significativa em torno do Chapolim. Não podemos esquecer que "El Chapulin Colorado" é um super-herói, notadamente um super-herói latino; por sinal, o único bem sucedido comercialmente, o que diz muita coisa. Afinal de contas, as aventuras de super-heróis são um gênero tipicamente ianque que não costuma encontrar muito sucesso em produções estrangeiras, apesar do evidente sucesso do material exportado dos EUA, como as bilheterias de cinema da última década comprovam fartamente. Uma análise detalhada da figura do Chapolim, de seus poderes, equipamentos, vilões, tramas e valores pode ser muito enriquecedora em termos da reflexão sobre as identidades na América Latina, sobre o modo como nós latino-americanos nos vemos, de que maneira o Chapolim simboliza nosso papel no mundo, etc. Afinal de contas, o papel dos super-heróis é justamente encarnar valores, como estão aí para comprovar Superman ou Capitão América. Por sinal, uma pesquisa como essa deveria necessariamente discutir outra curiosa figura, o Super Sam, "Oh, yeah"! O cotejo entre o Polegar Vermelho e sua contraparte ianque certamente daria oportunidade a reveladoras análises.

Esses dois posts foram apenas uma breve aproximação ao tema. Há muito a se aprofundar e pretendo explorar melhor o universo CH sob as luzes de Clio em outras ocasiões. Aliás, fica a dica para quem se interessar pelo tema; há um vastíssimo território por descobrir! "Não contavam com minha astúcia! Sigam-me os bons"!

domingo, 9 de outubro de 2011

Chaves & Chapolim - Objeto de estudo da História Cultural

Se você já torceu o nariz só lendo o título, só posso lhe dizer uma coisa: "você não vai com a minha cara"? Como meus caros amigos sabem, sou fã incondicional da obra de Roberto Gomez Bolaños, o Chespirito. O tema desse post é uma reflexão que venho desenvolvendo há alguns anos. Na verdade, causa-me estranheza a falta de trabalhos nesse sentido; por sinal, considero-a sintomática dos preconceitos que ainda grassam na academia. Afinal de contas, as séries em questão são um grande sucesso em TODOS os países da América Latina há nada menos que 36 ANOS, sem esquecer que com uma mínima renovação de episódios ao longo de todos esses anos. Não é necessária muita sensibilidade historiográfica para se perceber que há aí algum fenômeno cultural bastante significativo, que escapa ao mero efeito de massificação cultural. Contudo, como sabemos, as pesquisas voltadas para a produção artística de "alta cultura" são sempre vistas com mais benevolência, mesmo que as obras em questão não tenham um alcance social muito amplo. É preferível falar de filmes "de arte" que de cinema pipoca, como tem descoberto meu camarada Rogério Marques, que se aventura a percorrer sendas menos batidas.

Mas voltemos ao tema do post. Ultimamente têm sido publicados alguns livros sobre Chaves. Embora curiosos, a meu ver apenas um tem valor acadêmico apreciável, "Foi sem querer querendo", de Luís Joly, Fernando Thuler e Paulo Franco, fruto de uma pós-graduação em Comunicação Social. Na área de História, nada. Pretendo aqui ventilar algumas sugestões sobre como Chaves e Chapolim podem proporcionar vasto campo de estudos, sendo riquíssimas fontes primárias. Na verdade, Chapolim ficará para outra ocasião, pois há muito, muitíssimo a se falar. "Pois é, pois é, pois é"!

O universo de Chaves é um esplêndido microcosmo que representa de forma estilizada, distorcida e refratada uma complexa constelação de relações muito comuns nas grandes cidades latinoamericanas. De fato, a vila do Chaves é muito interessante pelas dinâmicas relacionais que apresenta, carregadas de tensão e ambiguidade.

Uma das relações que mais me fascina na série é aquela mantida entre Seu Madruga e Prof. Girafales, magistralmente sintetizada no famoso discurso de apresentação da peça das crianças no Festival da Boa Vizinhança, onde Girafales fala sobre Seu Madruga com uma fabulosa mistura de menosprezo, complacência e, talvez, uma ponta de inveja (vide citação nos comentários do post). Os diálogos entre os dois personagens são frequentemente marcados por certa reverência de Seu Madruga ao conhecimento e posição social do professor, apesar de certo desrespeito latente e dissimulado; por outro lado, é nítida a atitude de superioridade de Prof. Girafales, sem falar de seu ostensivo e explícito desprezo por Madruga, mal disfarçado pelas regras de civilidade. No entanto, essa relação tem seu reverso, e muitas vezes, sempre reticente e encabulado, Girafales recorre aos conselhos de Madruga, que diz ser um homem "mais vivido". A relação entre os personagens se baseia toda nas distâncias culturais, no abismo a separar cultura oral e letrada, instrução formal e aprendizado empírico, erudição e malandragem. De fato, sua inserção no mundo do trabalho diz muito: um é o funcionário público especializado e qualificado, o outro o biscateiro faz-tudo, sem emprego ou renda fixa, devendo seus famigerados 14 meses de aluguel... Um episódio onde essas distâncias culturais são exploradas de modo muito interessante é aquele onde os dois ensinam Chaves e Quico a "violar tocão"; as diferentes posturas e métodos dos dois em suas aulas mostram atitudes diversas em relação à cultura musical.

Outra relação interessante é a de Chaves e Seu Barriga, onde a tônica dominante é a benevolência do dono da vila em relação ao menino de rua. Sem dúvida, esta tem muito de ideológico. Barriga é um homem rico, que vive de rendas, mas ao mesmo tempo é bonachão e sempre que possível ajuda Chaves de alguma forma. Além disso, tolera estoicamente os meses de aluguel atrasado de Seu Madruga sem despejá-lo. Essas relações exploram as ambiguidades das relações de classe na América Latina de modo igualmente ambíguo. Nesse sentido é bom lembrar que todos se compadecem da condição miserável de Chaves, muitas vezes fazem algo para mitigar suas necessidades, mas jamais algo definitivo. Por sinal, Dona Florinda o emprega em seu restaurante, mas como trabalhador informal, não fosse a valorosa atuação da União dos Trabalhadores Pró-Juventude, da Associação Pró-Direitos Femininos e do Diretório Nacional dos Veteranos em Restaurantes (os outros significados para as siglas dessas respeitáveis instituições vocês já conhecem); aliás, no fim das contas, não é Chaves que conquista seus direitos, mas Dona Florinda, conscientizada, que os concede, de cima para baixo. Soa familiar, hermanitos?

Há muitas, muitas outras possibilidades a explorar, mas por hoje é só. "Sigam-me os bons"!

sábado, 24 de setembro de 2011

Leituras - "Sócrates, Jesus, Buda" de Frédéric Lenoir

Fascinante, um dos melhores livros que li neste ano. Interessantíssimo para pessoas de qualquer religião ou falta dela. O livro traça um estudo comparativo entre a vida e o pensamento desses três personagens, sob os mais diversos aspectos, apontando suas convergências, diferenças e complementaridades.

Com grande habilidade, o autor discute criticamente as fontes sobre a trajetória dos três, de forma impecável, além de esboçar as diversas interpretações elaboradas sobre os personagens ao longo dos séculos, em diversas tradições filosóficas e teológicas diferentes. Também os contextualiza historicamente de modo muito rico e esclarecedor, demonstrando as relações entre seus ensinamentos e ações e as dimensões políticas, econômicas e culturais do mundo em que viviam.

É importante destacar que o autor não se preocupa em determinar "verdades" religiosas a partir do pensamento de Buda, Sócrates ou Jesus; sua proposta é principalmente a de realizar um passeio filosófico entre o pensamento dessas três grandes figuras. Lenoir vence inúmeros desafios, elaborando uma obra que é ao mesmo tempo historicamente precisa, filosoficamente profunda, desprovida de preconceitos e temperada com grande sensibilidade.

"Sócrates, Jesus, Buda" está disponível em português em edição da Objetiva.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Tintin - História em quadrinhos

Doze anos atrás li meu primeiro álbum de Tintin, "L`Oreille Cassée", comprado na Bienal de 1999, no stand da Livraria Francesa. Paixão imediata, nos dois anos seguintes realizei o tour de force de comprar a coleção inteira, com seus 23 álbuns, todos importados da Bélgica, com minha parca mesada, em heróica batalha contra o Euro galopante em sua sinistra ascensão. Dois anos de agonizante espera, de dois meses por cada encomenda...

Mas quem é, afinal, Tintin? Com o perdão dos trocadilhos, um dos personagens mais interessantes da História dos quadrinhos, cujas histórias misturam elementos de aventura, suspense, crítica e comédia. Criado em 1929 pelo belga Hergé, Tintin é um curioso "jornalista" que aparece exercendo o ofício em apenas duas de suas aventuras. De fato, o autor afirmaria em entrevista que a profissão era apenas pretexto; na verdade, Tintin era um cavaleiro errante... Aliás, esse é apenas um dos mistérios em torno do personagem, cujo nome verdadeiro ("Tintin" é apenas apelido), local de nascimento, idade, passado, etc nunca são mencionados. O próprio Hergé falaria sobre essa proposital falta de "concretude" de sua criatura. Com efeito, Tintin é tanto mais vibrante porque ideal, um personagem tão vago que literalmente qualquer um pode se identificar com ele.

Por que falar de Tintin num blog sobre História? Bem, por que suas aventuras são uma janela muito especial para a História do século XX. Publicadas entre 1929 e 1976, as histórias levam Tintin ao redor do mundo, nos cinco continentes, passando por países reais e fictícios, como a Sildávia, a Bordúria, San Teodoros, Nuevo Rico, Khemed, entre muitos outros. Boa parte dessas narrativas envolve Tintin em misteriosas tramas que retratam situação políticas e econômicas internacionais importantes desse período. Citando apenas alguns exemplos, "L`Affaire Tournesol" aborda de forma muito curiosa a Guerra Fria e a corrida armamentista; "Au pays de l`or noir" trata da questão do petróleo nos anos 70; "Tintin et les Picaros" trata de modo contundente das ditaduras militares na América Latina. É importante observar, todavia, que muitas vezes essa abordagem se dá de modo estilizado, quase histriônico, mas sempre inteligente.

Ainda mais interessante é observar a evolução das concepções políticas de Hergé. Nos três primeiros álbuns da série, o autor é francamente anti-comunista ("Tintin au pays des soviets"), entusiasticamente colonialista ("Tintin au Congo") ou simplesmente pouco crítico ("Tintin en Amérique"). A grande virada teria lugar em meados dos anos 30, quando a amizade com o chinês Tchang Tchong-Jen, estudante de artes em Bruxelas, o levaria a questionar muitos de seus (pre)conceitos. A partir daí as histórias seriam cada vez mais críticas em relação à atuação política dos europeus no mundo, aos problemas da sociedade capitalista e até, em "Tintin au Tibet", ao racionalismo cientificista ocidental.

Além disso, as aventuras de Tintin são um espetáculo gráfico, uma verdadeira enciclopédia visual do século XX. Hergé tinha grande preocupação com a pesquisa iconográfica, e seus colaboradores percorriam não apenas arquivos e bibliotecas, mas partiam mesmo em viagens internacionais para obter material fotográfico de referência, tornando os livros visualmente riquíssimos.

Enfim, as aventuras de Tintin constituem um universo vastíssimo, impossível de esgotar em poucas horas ou linhas. Só há uma solução: ler tudo! Quem lê em francês poderá se deliciar com as edições originais da Casterman, gastando alguns bons euros. Uma alternativa cômoda para o bolso ou para quem não lê em francês é a tradução da Companhia das Letras. Procure nas livrarias, mesmo que só para dar uma olhada!

Tintin em Xangai ("Le Lotus Bleu")

A mais bela das aventuras ("Tintin au Tibet")

Um "típico" Carnaval latino ("Tintin et les Picaros")

Tintin em sua época colonialista ("Tintin au Congo")

Tintin e seus amigos

No calor do Marrocos ("Le crabe aux pinces d`or")

sábado, 17 de setembro de 2011

Citando... Ítalo Calvino

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."

Ítalo Calvino, em Cidades invisíveis

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leituras - "Imperialismo ecológico", de Alfred W. Crosby

Depois de algumas semanas de posts "requentados", eis um saído do forno. Li esse livro dois meses atrás, e fiquei muito impressionado pela originalidade da abordagem. Apesar do título parecer um tanto sensacionalista, é um trabalho muito sério.

Resumindo muito sua problemática, a obra discute o impacto ecológico das grandes navegações em diversos ecossistemas ao redor do mundo. Sua análise se concentra principalmente na importância para esse processo do que ele chama "biota portátil", um conjunto de espécies levadas pelos europeus ao redor do mundo, desde seres humanos, animais domésticos, plantas de cultivo e ervas daninhas, vírus e bactérias. Abordando, obviamente, aspectos biológicos, mas também culturais, políticos e econômicos, o autor mergulha profundamente no estudo dessas transformações, arrastando-nos a um passeio através de séculos e continentes, da fria Groenlândia dos vikings à exótica Nova Zelândia dos maori, passando pelas planícies e montanhas da América do Norte, pelos pampas sul-americanos, pela longínqua Austrália e muitos outros lugares.

Deve ser destacado seu trabalho com as fontes, ao mesmo tempo sólido e sutil, numa pesquisa ancorada aos mais inesperados vestígios encontrados em documentos oficiais, relatos de viagem, memórias, folclore. Em momentos, a partir de breves passagens em um relato, Crosby extrai curiosos indícios sobre as transformações da vegetação, ou de observações sobre testamentos de uma região infere perspicazmente sobre a situação da fauna local em determinada época. Trabalho de mestre.

Por fim, mas não menos importante, o livro fascina pela prosa agradabilíssima, elegante e bem-humorada. A suposta aridez do tema, que outros autores provavelmente teriam abordado de forma soporífera e cansativa, sob a pluma de Crosby ganha dimensões extremamente humanas e envolventes, através das inúmeras referências literárias, divagações curiosas, anedotas ilustrativas e uma aguda percepção do cotidiano, dimensionando de modo palpável essas titânicas mudanças que são o tema central do livro.

Obviamente discordo de algumas conclusões do autor, que me pareceram um tanto apressadas e de certa reificação de alguns temas, aliás, perfeitamente cabíveis em se tratando de uma abordagem pioneira como essa, que não teve muitos seguidores, apesar de publicada pela primeira vez há quase trinta anos.

O livro é publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na coleção Companhia de Bolso.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Consumerismo

(Originalmente publicado em meu blog A rota para o poente, em 03/02/2010; inclui pequenas alterações)

Estive lendo recentemente sobre o conceito de "consumerismo", mais uma novidade pós-moderna. Não à toa, conheci a ideia através de um artigo escrito por uma publicitária, cujo nome tenho a sorte de não lembrar. Mas afinal, que vem a ser consumerismo?

Segundo a autora, é o modo de atuação social característico do homem pós-moderno. Enquanto o homem da modernidade seria movido pelas "utopias revolucionárias",o indivíduo da pós-modernidade age de modo mais cool, praticando o consumo consciente, a saber, comprando apenas produtos que não agridam ao meio-ambiente, produzidos por empresas com responsabilidade social etc. Ou seja, alguém que age de modo consumerista, não consumista...

Me espanta primeiramente a passividade desse paradigma de indivíduo. No fim das contas, que tipo de mudança social pode-se visar através do dito consumerismo? Que as corporações ajam do modo que lhes convenha, restando-nos meramente a opção de exercer alguma pressão sobre elas através das nossas compras. O homem deixa de ser cidadão para tornar-se mero consumidor. Pior ainda, a (suposta) capacidade de decisão do indivíduo passa a ser medida segundo seu poder aquisitivo.

Mas o comodismo dessa proposta incomoda-me mais que sua passividade. Afinal, as "utopias revolucionárias" da modernidade exigiam demais do indivíduo, não? O sujeito já tem tanta coisa para fazer e ainda precisa se cansar atuando politicamente de alguma forma? A alternativa pós-moderna é muito mais interessante: o cidadão pode fazer política no super-mercado ou no shopping-center...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Fotos do lançamento de "Da Guanabara ao Sena"

Aí vão as fotos do lançamento do livro, na Bienal, com o stand "Ilha das Letras de Niterói", e do bate-papo com o autor. Se forem à Bienal, não deixem de procurar pelo livro nesse mesmo stand ou no stand coletivo da ABEU (Associação Brasileira de Editoras Universitárias)!



















domingo, 28 de agosto de 2011

Chaves, um sábio turco da Idade Média e brinquedos

(texto originalmente publicado em meu blog "A rota para o poente" em 13/02/2010)


Esta semana tive a oportunidade de adquirir no McDonald`s um gracioso bonequinho do Chaves. Além de ser muito bonitinho, com uma expressão hiper-simpática e vir devidamente acompanhado por seu barrilzinho, a miniatura caminha de modo bastante engraçado, movida por uma corda. Passei algum tempo estudando esse movimento, e apreciando a engenhosidade do mecanismo.

De fato,o mecanismo em si é belo por sua simplicidade. Funciona de modo semelhante ao pedal de uma bicicleta, mas de modo invertido, ou seja, o movimento circular da mola impulsiona suas pernas, enquanto em uma bicicleta são as pernas que impulsionam o movimento circular da roda traseira, através do pedal.

Essas observações me levaram a curiosas reflexões. Comecei a pensar sobre esse gênero de mecanismo, classificado como um sistema de biela-manivela, amplamente usado em boa parte das máquinas elaboradas pelo ser humano. Basicamente, é um mecanismo que serve para transformar movimentos retilíneos em circulares e vice-versa. O pedal da bicicleta ou o boneco do Chaves são bons exemplos disso. Poderiam ser citados ainda os motores em geral, as bombas hidráulicas, a maior parte das máquinas industriais, entre muitos outros. Não me aprofundarei mais nessas explicações, pois me faltaria o conhecimento necessário para tanto.

Pensando nisso, lembrei-me de um documentário que assisti faz algum tempo, sobre um engenhoso artesão, matemático e astrônomo turco, chamado Al-Jazari, que viveu entre os séculos XII e XIII. Segundo documentos encontrados recentemente, aparentemente Jazari inventou o "nosso" mecanismo biela-manivela. Seu intento era o de criar máquinas capazes de transportar água de modo automático e eficiente, geralmente tirando-a de corpos naturais de água como rios, lagos, etc e passando-a para aquedutos. Essa era uma funcionalidade de suma importância para a região onde Jazari vivia, dada a aridez de boa parte do Oriente Médio. O sistema biela-manivela parece ter chegado ao Ocidente por volta do século XV, sendo registrado num manuscrito alemão da época, aplicado ao funcionamento de moinhos.

Contudo, é ainda mais interessante pensar que esse mecanismo não é exatamente uma invenção de Jazari, mas uma adaptação (ainda que extremamente engenhosa) de um mecanismo muito mais antigo, a manivela, já conhecida dos antigos romanos e largamente empregada por eles desde o século III a.C., e ainda em uso entre os contemporâneos do sábio turco. Todavia, a própria manivela não era uma invenção romana, pois artefatos arqueológicos recentemente encontrados apontam para o uso desse mecanismo pelos celtas da Península Ibérica já desde o século V a.C., empregado em moedores manuais para grãos. Seriam os celtíberos seus inventores? Impossível dizer.

Todas essas divagações me levaram a refletir sobre a historicidade das menores coisas, a ligar-nos qual fios invisíveis a centenas de gerações humanas, distantes no tempo e no espaço. Ora, pensemos em todo esse longo percurso saindo desde a elaboração da (aparentemente) primeira manivela pelos celtíberos, 2.500 anos atrás, espalhando-se por intermédio dos romanos, que passariam aos árabes seu uso, sendo apropriada, adaptada e modificada por Al-Jazari, desenvolvendo o sistema biela-manivela, que por sua vez chegaria três séculos mais tarde à Europa, onde seria empregada de inúmeras formas através dos últimos quinhentos anos, utilizada hoje para fins que não passariam pela cabeça dos celtíberos, dos romanos, dos árabes, de Al-Jazari ou dos moleiros europeus... por exemplo, fazer uma miniatura do Chaves caminhar graciosamente pela mesa de minha sala numa madrugada de sexta-feira!

No fim, os homens de todos os tempos e lugares estão ligados até pelas mais ínfimas coisas.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Uma breve História da civilização ocidental... segundo meus alunos - Humor

Prof. Luiz Fabiano de Freitas Tavares

Devemos começar o texto a partir de certas reflexões metodológicas. Inicialmente, a História é conhecimento dos mais questionáveis, uma vez que ninguém estava lá para contar. Ainda assim, podemos conhecer parcialmente o passado, pesquisando em meios confiáveis como a Internet ou assistindo filmes e novelas[1]. Deve-se observar, todavia, que alguns especialistas afirmam que a História propriamente dita só começou em meados do século XX, uma vez que até então não existia televisão, e nada que aconteceu antes pode ser considerado histórico ou importante, dada a impossibilidade de sua transmissão televisiva[2].
Alguns dizem que no começo, havia apenas Adão e Eva. Outros sustentam que os homens surgiram do macaco, e eram semelhantes a minotauros, pois tinham corpo de homem e cabeça de índio. De qualquer forma, o fato é que os homens pré-históricos viviam felizes, falando uga-uga e caçando dinossauros (ou, de vez em quando, sendo caçados por eles). A Pré-história foi marcada pela criação de espantosos instrumentos, como a bicicleta de pedra com rodas quadradas ou os automóveis propulsionados pelos pés dos passageiros[3]. Além disso, eles tinham o exótico hábito de andar pelados no ônibus cheio, esfregando-se uns nos outros[4].
Contudo, esse estilo de vida harmonioso estava ameaçado por perigos vindos do espaço sideral. Repentinamente, um meteoro caiu do espaço, arrasando com os dinossauros e deixando os humanos em profunda tristeza. Algum tempo mais tarde, os extraterrestres viriam transformar inteiramente a vida na terra.
Os alienígenas chegaram sem aviso prévio, em discos voadores, fundando uma civilização no Egito antigo. Os antigos egípcios tinham um rei chamado Faroeste, e todos eram seus escravos. Os seres de outro planeta construíram pirâmides grandiosas e criaram múmias amaldiçoadas que andam com as mãos esticadas e atacam aqueles que encontram pelo caminho. Hoje, felizmente, todas estão mortas e ficam nos museus. Também é importante salientar que os egípcios chamavam suas rainhas de cleópatras.
Outro povo que se destacou na época foram os gregos. A principal cidade da Grécia era Esparta, lar dos espartalhões, que, com um exército de apenas trezentos bravos soldados enfrentou as tropas de Xerxes, um cara do Mal. Deve-se destacar ainda a figura de Alexandre, o Grande, que se tornou notória por sua homossexualidade, sabendo-se muito pouco sobre seus demais feitos, embora alguns de nossos especialistas afirmem que ele era gay, mas era muito forte[5].
Esses povos costumavam ter muitos deuses, forma de religião conhecida como poloteísmo. No entanto, um dia, Zeus, o chefe deles, depois de consulta com uma numeróloga, passou a se chamar Deus, levando à extinção dos demais deuses e ao surgimento do monoteísmo.
Apesar das evidentes conquistas da civilização, as pessoas dessa época padeciam de um grave mal, Deus ainda não inventara um método eficiente para a alma subir. Para tanto, ele fez nascer Jesus Cristo, filho de um humilde carpinteiro, José Cristo e sua esposa, Maria Cristo. Após o padecimento de Jesus Cristo na cruz, Deus finalmente solucionara o problema da subida das almas.
O triste episódio da crucificação seria acompanhado pela malhação de Judas, o homem que havia mandado matar Jesus. Judas foi enforcado e espancado pelos apóstolos de Jesus, dando origem a uma célebre tradição. Jesus foi morto numa sexta-feira, 13 de outubro, de modo que todo dia 13 de outubro cai numa sexta-feira[6]. Contudo, Jesus deixava descendentes, pois tinha se casado com Maria Madalena (presumivelmente Maria Madalena Cristo em seu nome de casada) e teve muitos filhos com ela, embora esses filhos devam estar muito velhos atualmente.
Esse período de amplo florescimento da cultura ocidental seria interrompido pelas invasões das tribos bárbaras, como os Gordos ou os Frangos, iniciando a Idade Média, período assim denominado devido à estatura mediana da população. Existem, contudo, divergências, e alguns especialistas acreditam que o nome se deve ao fato de a Idade Média não ter sido nem muito longa, nem muito curta, logo tendo uma duração média. Deve-se destacar a importante atuação do imperador Carlos Morgan na expansão do reino dos Frangos. Essa época veria também o surgimento de estranhas criaturas, como dragões, fadas ou bruxas, embora a maioria dos dragões tenha se tornado extinto pela caça predatória dos cavaleiros.
Ao fim da Idade Média temos o surgimento da Idade Moderna. Nesse período se iniciariam as grandes navegações, graças à invenção dos navios a vela, apesar dos riscos da última se apagar durante a viagem. Esse movimento seria tragicamente marcado pela guerra entre os índios e os humanos, uma vez que os últimos detinham tesouros cobiçados pelos primeiros. Apesar disso, os humanos venceram a guerra. A primeira coisa que fizeram foi vestir os índios; a segunda, escravizá-los.
No século XVIII surgiria o movimento filosófico do Ilusionismo, cabendo salientar as significativas contribuições do célebre filósofo Voltará. Acredita-se que Voltará se correspondia com Rolsseao por e-mail ou MSN. É certo, contudo, que ambos tinham adicionado Condorcete no Orkut. Os pensadores ilusionistas eram capazes das mais sofisticadas reflexões e das maiores proezas da prestidigitação. Não à toa, num piscar de olhos, eles realizaram o mais fabuloso truque de mágica: transformaram a Idade Moderna em Idade Contemporânea.
Não há muito que dizer sobre a Idade Contemporânea, exceto que nela aconteceu uma grande guerra contra os nazistas e Hifler, que, tal como Xerxes, eram caras do Mal. A guerra foi vencida pelos caras do Bem quando lançaram uma bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima. Na verdade, seu alvo era Tóquio, mas havia grande nevoeiro e os pilotos do avião erraram o alvo. Por fim, os caras do Mal “peidaram na farofa”, servindo-nos da perspicaz observação do insigne David.
Embora seja algo que escape ao puro rigor acadêmico, concluímos esse trabalho falando sobre o futuro, citando as profecias de São Rodolfo de Quintino:
Você acredita que Jesus vai voltar? Jesus vai voltar, e quando ele voltar vai ser muito sinistro. Vai começar geral morrendo, as parada explodindo, os carro tudo batendo! E quem tiver feito m...., tá f......., os traficante, os ladrão, essas p..... toda. É, neguinho, quando Jesus voltar, o bagulho vai ficar neurótico[7]!


[1] Como observa J. Pedro, podemos citar como bom exemplo de novela com temática histórica, Os mutantes.
[2] Devemos essas brilhantes conclusões às brilhantes pesquisas de M. Jesus.
[3] Sobre essas invenções consultar LANTZ, Walter. Pica-pau e HANNAH, John e BARBERA, Joseph. Os Flinstones.
[4] Sobre essas orgias pré-históricas no sistema de transporte coletivo, recomendamos os recentes trabalhos de I. Fernandes.
[5] Cf. MILLER, Frank. 300 e os recentes estudos de outros especialistas.
[6] Embora essa observação seja claramente contraditada pelos fatos é obsessivamente defendida pelos trabalhos de H. Vinícius.
[7] O texto foi objeto de censura em algumas partes, dadas as peculiaridades do discurso de São Rodolfo de Quintino, pouco afeito às práticas proféticas convencionais, visando a preservação do decoro acadêmico. Deve-se destacar ainda as evidentes dificuldades do ilustre profeta em dominar o uso de qualquer forma de concordância verbal ou nominal.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Outra semana conturbada...

Semana difícil, menos um post decente. Para finalizar as homenagens ao ciclismo, deixo uma imagem que marcou época: Bernard Hinault, um dos maiores ciclistas da História no Paris-Roubaix depois de uma queda e retornando à competição, mesmo com graves ferimentos. Grande guerreiro!

sábado, 9 de julho de 2011

Nada de mulher...

Essa semana estou numa corrida para entregar um paper do doutorado. Assim sendo, postarei apenas uma curiosa e engraçada anedota, ainda em clima de Tour de France.

Em 1987 o Tour foi vencido pelo irlandês Stephen Roche. Em uma das etapas de montanha, particularmente difícil, Roche se esforçou ao máximo, cruzando a linha de chegada em primeiro lugar, muito antes dos outros atletas. Sua fadiga era tanta que, assim que ultrapassou a linha, simplesmente desmaiou no chão. Um Deus nos acuda! Correm os médicos para atendê-lo. Pouco depois, acordando completamente zonzo, o médico lhe pergunta como se sente. A réplica de Roche foi das mais inusitadas: "Tudo bem, doutor, mas nada de mulher...". Interrogado posteriormente, o ciclista confessou não ter explicação para sua estranha resposta...

domingo, 3 de julho de 2011

Le Tour de France

Ontem começou a edição 2011 do Tour de France (ou "Volta da França"), a maior prova do ciclismo mundial. Quem me conhece sabe que sou aficcionado por ciclismo, embora não pratique faz alguns anos... Acompanho o Tour religiosamente todos os anos. A bem dizer, não estava muito entusiasmado com o Tour desse ano, por várias razões. Até ontem! As reviravoltas inesperadas que fazem a magia da prova estão novamente em ação, e o que prometia ser um Tour insosso como nos dois últimos anos ganhou novo interesse.

Mas esse blog é uma oficina de Clio, e a musa é tanto exigente quanto ciumenta! Então, vamos caçar onde a História se esconde no Tour de France. A tarefa nem é das mais difíceis, já que o Tour é uma das mais antigas provas esportivas do mundo: o primeiro aconteceu em 1903, comemorando 108 anos. Em todo esse tempo, pouquíssimas edições foram canceladas, devido à partipação francesa nas duas conflagrações mundiais. O Tour acontece todo ano, durante o mês de julho. Durante 21 dias os atletas percorrem cerca de três mil quilômetros pelas estradas francesas, num percurso que muda a cada competição. Depois de 108 anos, o Tour construiu inúmeras tradições e mitos.

Nesse post veremos um aspecto muito curioso dessa tradição, não apenas do Tour, mas do ciclismo em geral. O esporte chama atenção pelo seu forte ethos cavalheiresco, que vai muito além do mero fair play. De fato, a competição mostra uma curiosa permanência dos valores nobiliárquicos do Antigo Regime; os ciclistas muitas vezes se comportam como verdadeiros membros da antiga aristocracia guerreira. Alguns exemplos ilustram melhor que qualquer explicação...

Ano de 2003, centenário do Tour. Dois ciclistas competiam pela liderança da competição, o americano Lance Armstrong e seu arqui-rival, o alemão Jan Ulrich. O pelotão se engajava numa dura etapa, de escalada ao passo de Luz Ardiden, nos Pirineus. Eis que em determinado momento, Armstrong sofre uma dura queda, quando sua bicicleta se prende na bolsa carregada por uma criança. Em lugar de se aproveitar da situação, Ulrich reduziu a velocidade, aguardando seu adversário alcançá-lo, abrindo mão da vantagem. Perdeu a etapa, perdeu o Tour; ganhou a honra de tratar o rival dignamente.

Ano de 2004. O jovem francês Thomas Voeckler vestia a camisa amarela de líder da competição. Numa etapa particularmente difícil de escalada no Maciço Central, Voeckler se encontrava em terrível desvantagem, pois não havia nenhum membro de sua equipe em condições de acompanhá-lo e ajudar a enfrentar o vento. Num rasgo de generosidade que muito o honra, seu compatriota veterano Richard Virenque, que se encontrava muito à frente de Voeckler optou por aguardá-lo e trabalhou como seu gregário (espécie de ajudante), seguindo à frente e quebrando o vento. Os dois eram de equipes diferentes. Um belíssimo gesto de Virenque, em seu último Tour de France, coroando uma carreira vitoriosa, em que foi inúmeras vezes vencedor do prêmio de melhor montanhista.

Ano de 2010. Numa etapa decisiva disputavam o luxemburguês Andy Schleck, líder da prova, e o espanhol Alberto Contador. Num infeliz momento a correia da bicicleta de Schleck se rompeu, necessitando reparos. Abrindo mão do cavalheirismo, Contador atacou, ganhando a liderança; eventualmente venceu o Tour, à covardia. Ano de 2011. Na apresentação das equipes, na última sexta-feira, Contador foi vaiado durante sete minutos... O público pune a desonra!

A título de comparação, um episódio da guerra luso-francesa pelo Maranhão, em 1615. Derrotado na batalha de Guaxenduba, o líder francês La Ravardière amigavelmente envia seu médico para cuidar dos feridos portugueses. La Ravardière ficaria orgulhoso dos gestos de Virenque, Ulrich, Vietto, Hinault, e tantos outros ciclistas que contribuíram ao longo dos anos para manter acesa a chama do cavalheirismo, como verdadeiros fidalgos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Entre Genebra e a Guanabara" - fotos do lançamento

Ontem aconteceu o tão aguardado (por mim!) lançamento de meu primeiro livro "Entre Genebra e a Guanabara" pela Topbooks, na Livraria da Travessa da Avenida Rio Branco. Agradeço aos muitos amigos que compareceram para compartilhar o momento, mas também aos que não puderam ir, mas estiveram lá de coração! Postando aqui as fotos do evento:













Aproveito para avisar a todos do lançamento de meu próximo livro, "Da Guanabara ao Sena", pela EdUFF, que ocorrerá na Bienal. Fiquem atentos!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Cozinha de Clio

Podemos encontrar Clio nos lugares mais inesperados. Quem gosta de cozinhar pode esbarrar com ela à beira do fogão...

Ultimamente tenho visto muitos livros sobre história da alimentação, para todos os gostos (com trocadilho). Há desde obras muito instigantes e sofisticadas (mesmo no setor de divulgação) às puramente oportunistas ao estilo "você sabia....?". Basta entrar em qualquer livraria e conferir. O interesse pelo tema não deveria surpreender, afinal de contas, comer é provavelmente a ação mais frequentemente repetida pelos seres humanos ao longo dos últimos duzentos mil anos; de fato, deve ter sido durante muitos milênios a mais importante preocupação de nossa espécie.

Dessa forma, quando comemos ou preparamos nossos alimentos, tais gestos nos unem a todos os nossos antepassados, quase sempre inconscientemente. Cozinhar e comer constituem deliciosas oportunidades para refletir sobre nossa condição histórica.

Um exemplo bastante simples é quando nos dedicamos a fazer pratos oriundos de outras culturas ou com origens em nosso passado remoto. Especialmente as adaptações sempre necessárias, de gosto, ingredientes, recursos, nos ajudam a medir distâncias culturais.

Outra experiência interessante é modificar algumas receitas de modo a promover "encontros culturais" na panela, como yakissoba com molho inglês! Misturar pratos e sobremesas também pode ser interessante (goulash com petit gateau, por exemplo...).

Mais casualmente, é interessante observar o quanto o mundo inteiro pode estar presente em um único prato cotidiano, provavelmente impossível séculos atrás, como arroz, feijão, bife e batata frita (de origens asiáticas, europeias, africanas e americanas) ou mesmo uma reles salada de frutas com maçã, banana, manga e abacaxi!

E chega por aqui; vou preparar o almoço!