terça-feira, 27 de novembro de 2018

O passado como fábula

"Lembro-me das histórias antigas que me contavam na infância... Histórias de guerreiros e lutas nas montanhas de Ueno... De como era a cidade antigamente... Memórias da Era Edo [1603-1868]... Muitas narrativas e até encenações sobre como meu avô lutou contra Saigo Takamori... E hoje eu estou aqui, lutando numa guerra. Será que um dia eu vou poder contar tudo isso pros meus netos? Sentado sob o sol numa bela varanda... 'Sabia que o vovô já pilotou caças numa guerra?' Quando esse dia chegar, como será que o Japão vai estar? Para mim, aquelas histórias da Era Edo sobre o  meu avô pareciam contos surreais. Talvez nossos netos, ao ouvirem nossas histórias, também irão achar que são coisas de um passado distante..."
Naoki Hyakuta


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Mudar de opinião é uma atitude característica das pessoas inteligentes, humildes ou velhacas...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Máscaras do Carnaval

Por mais que o Crivella me pareça execrável, o tal enredo da Mangueira me soa mais como politiqueiro que político. Se a Mangueira está realmente interessada em discutir politicamente o Carnaval, por que não debater a assimetria com que os recursos oferecidos pela prefeitura são distribuídos entre as escolas do grupo especial e dos demais grupos?

Crivella vem usando o Carnaval para consolidar sua posição junto a seu eleitorado cativo; isso é visível. Todavia, a Mangueira me parece mais usar (nem tão astutamente) a posição de vítima para advogar em causa própria. O destaque do político Chiquinho da Mangueira na história toda não me parece nada inocente.

Vale lembrar, inclusive, que esse foi um dos temas usados para crucificar o Freixo nas eleições de 2012, então declarado inimigo nº 1 das escolas de samba...

Ao contrário do que prega certo imaginário "de esquerda", as escolas de samba, especialmente as do grupo especial, agregam interesses por vezes muito distantes do que se qualifica ingenuamente como "luta popular"...



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Pensamentos datados

O fato de uma reflexão ser datada não a torna necessariamente irrelevante; tampouco significa que ela esteja além de qualquer renovação ou atualização. O "defeito" de algumas obras "datadas" muitas vezes se encontra mais na falta de imaginação do leitor que nas limitações do autor.

Como bem sabiam os românticos piratas, tudo é uma questão de "abordagem" - e também de não abandonar prematuramente o navio. Muitos naufrágios podem ser evitados com diligente esforço da tripulação - e quantas reflexões interessantes afundam por falta de esforço... Quanto tempo se perde requentando problemas e reinventando a roda!

Tudo parece datado para os apressados; tudo é velho demais para os apaixonados por modismos. A boa produção intelectual não é trabalho de afobados.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Instinto, liberdade, hábito

Trecho traduzido de Les deux sources de la morale et de la religion, de Henri Bergso; grifos meus

Consideremos duas linhas divergentes de evolução e sociedades na extremidade de uma e de outra. O tipo de sociedade que parecerá mais natural será evidentemente o tipo instintivo: o laço que une entre elas as abelhas da colmeia se parecem muito mais com aquele que retém juntas, coordenadas e subordinadas umas às outras, as células de um organismo. Suponhamos um instante que a natureza tenha querido, na extremidade desta outra linha, obter sociedades onde uma certa latitude fosse deixada à escolha individual: ela terá feito com que a inteligência obtivesse aqui resultados comparáveis, quanto à sua regularidade, àqueles do instinto na outra; ela recorreria ao hábito. Cada um desses hábitos, que se poderá chamar "morais", será contingente. Mas seu conjunto, quero dizer o hábito de contrair hábitos, estando na base mesmo das sociedades e condicionando sua existência, terá uma força comparável àquela do instinto, em sua intensidade e em sua regularidade. Aí está precisamente aquilo que nós chamamos "o conjunto da obrigação" ["le tout de l'obligation"].

Uma convenção tornada poderosa - pero no mucho - pelo hábito.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

4 notas sobre a condenação de Lula

1) Independentemente de pontos de vista pessoais sobre o dito-cujo, acho seguro afirmar que Lula se tornou uma das figuras mais marcantes do imaginário político do Brasil República, ficando atrás apenas de Getúlio Vargas.

2) Acompanhei o voto do Desembargador Gebran; me pareceu bem fundamentado, coerente e consistente. Tecnicalidades jurídicas à parte, não sobra muito espaço para qualquer dúvida razoável sobre a culpa de Lula. É triste ver uma figura de sua envergadura política nessa posição, mas não adianta tapar o sol com a peneira. Hora de virar a página e seguir em frente... Sem ódio contra o Lula e o PT, nem contra seus adversários - o ódio envenena a alma e mata a república. Tentemos ter a grandeza de alma que tem faltado a nossos governantes.

3) Algumas pessoas se mostram dispostas a destruir a República para botar o Lula na cadeia; outras pessoas parecem igualmente dispostas a destruir a República para manter Lula fora da cadeia. Uns e outros se acham cidadãos exemplares por pensar dessa ou daquela maneira. Uns querem Lula preso, mesmo que seja inocente; outros querem Lula livre, mesmo que seja culpado. Qual seria o nome para isso? Pragmatismo? Cinismo? Loucura?
    4) Nos últimos dias, Gleisi Hoffman, Lindbergh e outras lideranças petistas têm tomado atitudes de verve quase lacerdista. Lamentável...


    Leandro Narloch, os escravos e os historiadores

    Outro dia me dei ao trabalho de dar uma olhada no tal livro sobre escravos do tal Leandro Narloch.

    Confesso que achei menos pior que os tais "guias politicamente incorretos" do mesmo autor. Não vi deslizes teóricos ou metodológicos excessivamente graves para um trabalho de divulgação. Discordo do posicionamento do autor acerca do tema e acho as interpretações dele forçadas, mas me parece um problema mais da ordem dos juízos de valor que da análise historiográfica propriamente dita.

    Não me pareceu uma obra fraudulenta ou de má-fé. Há forçações de barra comparáveis em vários autores de esquerda. O autor já foi muito menos criticado por coisa muito pior produzida anteriormente. E talvez seja exatamente esse o problema: a obra incomoda mais por ser menos grosseira que as anteriores.

    Justamente por não ser de todo ruim, o livro merecia críticas menos superficiais da parte dos especialistas. Muitas das críticas à obra que li ficam mais no plano do argumento de autoridade acadêmica que da refutação válida ao trabalho propriamente dito. Algumas parecem reproduções umas das outras, refletindo mais o eco dos corredores universitários que respondendo ao discurso do próprio autor. Fico com a impressão de que muita gente criticou sem sequer ler as orelhas do livro.

    Acho que o historiador acadêmico/universitário precisa sair de sua zona de conforto, se quiser realmente se fazer ouvir no debate público. Não adianta simplesmente agarrar o diploma para bater na obra - não é assim que se conquista credibilidade junto ao público, especialmente quando falamos a partir de um campo que não goza de muito reconhecimento ou prestígio junto ao grande público, como é o caso das ciências humanas no Brasil.

    Às vezes, a crítica superficial e precipitada pode ser mais daninha que o silêncio. Não adianta achar que nos basta de vez em quando descer de nossos páramos acadêmicos e trovejar olimpicamente para um público que acha que tudo em ciências humanas é apenas "questão de opinião". Tal postura só tende a confirmar e consolidar esse preconceito contra as ciências humanas.

    Tudo isso me lembra certa ocasião em que participei de um evento de divulgação. Havia ali um público leigo interessado, que visivelmente acabara de sair do trabalho e, em lugar de ir para casa ou para a happy hour, resolveu ir assistir uma mesa redonda sobre História. Na minha opinião, isso deveria ser motivo de júbilo para o intelectual. Findo o evento, meu companheiro de mesa me confessa, entediado: "É por isso que não gosto desse tipo de evento - as perguntas são muito superficiais". Claro que sim! Que tipo de pergunta ele esperava de um público leigo?! Na ocasião, em minha insignificância de novato, me limitei a responder com um sorriso - pouco irônico, temo dizer.

    Enquanto o historiador acadêmico continuar a menosprezar "esse tipo de evento" ou a responder preguiçosamente a "esse tipo de livro", nossa voz continuará a ser apenas um tímido eco pós-graduado perante os moucos ouvidos de uma sociedade que mal sabe ler e escrever...


    quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

    Políticos de Pavlov

    Desconfio que os partidos políticos treinem seus membros e militantes usando alguma técnica de adestramento à base de reflexos condicionados.

    O fato é que, mal vêm um microfone, começam a salivar os clichês de sempre, sem pensar muito antes de espumar...


    quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

    Junho, 2013...

    Esse século tinha 13 anos, dado aos exuberantes arroubos da puberdade.

    Tudo era possível, nada parecia inalcançável.

    Um êxtase febril, délfico, se inalava das nuvens de lacrimogênio. Entre lágrimas e gargalhadas, a greve rugia alegremente. O futuro havia chegado, com ofuscantes sonhos de renovação.


    As ruas eram a casa do povo; seu grito estremecia os palácios. Das trevas da Inglaterra seiscentista, via quadrinhos, tela, Wall Street, como otimista pesadelo, o espectro de Guy Fawkes assombrava as cidades brasileiras.
     
    Que dizer? Que fazer? Que pensar? Ninguém sabia. Apenas os mal informados tinham certezas. Não havia promessas ou premissas naquela sensata loucura. Tudo era imprevisto; tudo era imprevisível. O inesperado trazia esperança; o desejo nascia do indesejável.

    O Corcovado era Vesúvio. O mar virou sertão. Os índios, finalmente, devoraram Cabral.Ninguém estava vacinado contra a revolta.

    Maracanã, Maracanã!

    Prometeico 2013. Ano dionisíaco. Ano satírico. Ano titânico e olímpico a um só tempo. Ano-milênio-era. Alfa, Ômega e Jânus.

    Que nos sobrou de 2013?!


    quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

    O saldo da I Guerra Mundial - Uma amostra



    Estatísticas da I Guerra Mundial na França

    Perdas humanas:
    -1.700.000 mortos
    -3.595.000 feridos
    -56.000 amputados
    -65.000 mutilados
    -930ha de cemitérios militares

    Perdas materiais:
    -11 departamentos [circunscrições administrativas francesas] devastados
    -2.907 cidades e aldeias devastadas
    -485.600ha de florestada devastados
    -194.040 edifícios residenciais destruídos
    -9.332 fábricas destruídas
    -58.967 km de estradas destruídas
    -8.333 obras de arte destruídas ou extraviadas
    -780km de front (trincheiras) – 330.000.000 de metros cúbicos de terra necessários para terraplenagem
    -2,5 bilhões de francos em despesas (suficientes para construir uma casa de quatro cômodos para cada habitante da Europa na época)

    Fonte: TARDI. Era a guerra de trincheiras




    quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

    Que queres?

    Que queres, amigo?
    Que queres, meu caro?
    Um prato de lentilhas?
    Uma sarça ardente?
    Trinta dinheiros de lata?
    Uma flecha no calcanhar?
    Uma cabeça em bandeja de prata?
    Um bezerro de ouro?
    Uma sabina raptada?
    Um cálice de vinho?
    Um cálice de sangue?
    Quatro cravos?
    Um flanco ferido?
    Uma lança ensanguentada?
    Um cavalo de madeira?
    Uma espada na pedra?
    Um almirante defenestrado?
    Uma cabeça de rei da Escócia?
    Um crânio de bobo da Dinamarca?
    Uma conspiração em março?
    Uma rainha envenenada?
    Uma virgem imaculada?

    Que queres?
    Que queres, camarada?

    Um caminho para o céu?
    Um caminho para as Índias?
    Cinquenta anos em cinco?
    Um barco para Utopia?
    Um pacto demoníaco?
    Uma arca de aliança?
    Um ato institcional?
    O ouro do Reno?
    Um anel de nibelungo?
    Uma valquíria adormecida?
    Um doge morto em Veneza?
    Uma dama entre camélias?

    Que queres, meu irmão?

    Uma catedral em Paris?
    Uma mesquita em Constantinopla?
    Um túmulo em Jerusalém?
    Um espetáculo circense?
    Uma migalha de pão?
    Uma hóstia consagrada?
    Uma pedra filosofal?
    Um elixir de longa vida?
    Um telegrama da Crimeia?
    Uma carta de Verdun?
    Um incêndio em Quioto?
    Uma bomba em Nagasaki?
    Um Fokker vermelho?
    Uma divisão Panzer?
    Um telefonema de Moscou?
    Um rifle em Stalingrado?
    Um canhão em Canudos?
    Uma vitória em Riachuelo?
    Um Abelardo castrado?
    Uma Heloísa enclausurada?
    Um tapete de Ítaca?
    Um cão fiel?
    Uma Capuleto apaixonada?
    Um Montecchio ensanguentado?
    Um corcunda no campanário?
    Uma cigana enamorada?
    Uma lâmpada maravilhosa?
    Um trono em Lisboa?
    Uma missa em Paris?
    Um palácio em Granada?
    Um corvo na janela?
    Uma máscara escarlate?
    Um barril de amontilado?
    Um tesouro em Montecristo?
    Uma casa em Santa Helena?
    Uma noite em Varennes?
    Uma festa em Rouen?
    Um tratado em Versalhes?

    Que queres?
    Que queres, amigo?
    Que queres, meu caro?


    quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

    O sabor do saquê

    "A primavera tem as cerejeiras da noite.

    O verão tem as estrelas do céu que iluminam os olhos.

    O outono tem a lua cheia refletida na água.

    O inverno tem a neve que flui na relva.

    Bastam essas coisas simples para que o saquê seja delicioso.

    Se, mesmo assim, o gosto do saquê não for bom...

    Então quer dizer que há alguma coisa de errado dentro de você".

    Hiko Seijurou [Watsuki Nobuhiro]


    quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

    Cultura, cérebro, percepções

    Trecho de A outra face da Lua - Escritos sobre o Japão, de Claude Lévi-Strauss

    O japonês talvez não seja uma língua de tons, ou talvez o seja mal e mal; mas eu diria de bom grado que a civilização japonesa me apareceu como uma civilização de tons, em que cada coisa se refere simultaneamente a vários registros, e me pergunto se essa ressonância, essa faculdade evocadora das coisas não é um dos aspectos que a enigmática expressão mono no aware conota. O despojamento vai junto com a riqueza, as coisas significam mais. Relatos me ensinaram que um neurologista japonês, o dr. Tsunoda Tadanobu, demonstrou num livro recente que seus compatriotas, à diferença de todos os outros povos, asiáticos inclusive, tratam os gritos dos insetos no hemisfério esquerdo do cérebro, não no hemisfério direito; o que leva a pensar que, para eles, os gritos dos insetos, mais que ruídos, são da ordem da linguagem articulada. E, de fato, imagina-se que o herói de um romance ocidental faça, como Genji, transportar de charnecas distantes para seu jardim insetos a fim de se alegrar com seu canto?


    quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

    Vida, liberdade, ossos

    Somos o que a vida faz de nós. A liberdade vem depois - se vem, quando vem, onde vem, quanto vem, como vem.

    Apenas a morte nos liberta da vida. Mas as marcas da vida continuam lá, para quem sabe lê-las.

    As marcas de esforço muscular nos ossos do braço direito deste cavalheiro sugerem que ele foi um arqueiro. Os atrofiados dentes desta senhora sugerem que ela viveu numa sociedade industrial. A porosidade incomum nos ossos dessa moça contam a história de uma enfermidade, enquanto esse senhor de crânio espatifado nos lembra algum episódio de violência.

    Nossa história e nossa cultura nos dominam durante toda a vida e depois dela. Estão marcadas em cada neurônio, em cada osso, em cada brônquio tingido de ar poluído, em cada fibra cardíaca atormentada pelo estresse. Cada sociedade, como cada corpo, tem sua constituição - e toda constituição conta uma história.

    Quem conta um conto aumenta um ponto; quem vive uma vida aumenta a Vida.

    Somos o que a vida faz de nós, mas também o que fazemos da vida.

    ...mas o que fazemos da vida?

    Hamlet e Horácio no cemitério (1859) de Eugène Delacroix; Museu do Louvre